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Eu estava parada na porta do quarto de Rafe, encarando a maçaneta como se ela fosse uma barreira intransponível.

Meu coração estava acelerado, e a mente a mil.

Desde que o médico me disse que ele queria me ver, uma série de pensamentos tinham se atropelado na minha cabeça.

O que ele queria falar comigo? E o mais importante: o que eu diria a ele?

Depois de um momento de hesitação, respirei fundo e empurrei a porta.

Rafe estava deitado, os olhos azuis fixos no teto, mas ele se virou assim que percebeu minha entrada.

Havia algo diferente no seu olhar, uma mistura de cansaço, surpresa e... algo mais que eu não conseguia identificar.

- Oi - eu disse, minha voz saindo mais baixa do que eu esperava.

- Oi - ele respondeu, estudando meu rosto com cuidado.

Fechei a porta atrás de mim e fiquei ali, parada, sem saber exatamente o que fazer. Rafe parecia igualmente desconfortável, mas foi ele quem quebrou o silêncio.

- O médico me contou... que você ficou aqui todo esse tempo.

Engoli em seco.

Era óbvio que ele perguntaria isso.

Eu tinha passado os últimos dias inteiros trancada no hospital, recusando ir embora, mas não sabia como explicar isso para ele.

- É... - murmurei, desviando o olhar. - Eu não conseguia... não ficar.

Rafe arqueou uma sobrancelha, confuso.

- Por quê? - ele perguntou, a voz mais suave do que eu esperava.

Puxei a poltrona para mais perto da cama, tentando ganhar tempo para formular uma resposta que fizesse sentido, mas tudo o que consegui dizer foi:

- Porque eu não consigo evitar. Eu me preocupo com você, Rafe.

Ele ficou em silêncio, me olhando como se estivesse tentando decifrar o que aquelas palavras realmente significavam.

Eu me senti vulnerável sob o olhar dele, como se estivesse revelando mais do que queria.

- Você se preocupa comigo? - ele perguntou finalmente, a voz carregada de descrença.

Assenti, sem conseguir manter contato visual por muito tempo.

- Claro que sim. Sempre vou me preocupar, Rafe.

O silêncio que se seguiu foi sufocante.

Ele desviou o olhar para a janela, enquanto eu me remexia desconfortavelmente na poltrona.

A tensão entre nós era quase palpável, um lembrete constante de tudo o que tinha acontecido antes desse acidente.

- Eu não entendo você, Bella. - ele disse de repente, quebrando o silêncio. - Uma hora, você diz que se importa. Outra, parece que quer distância.

- Não é tão simples assim. - respondi, minha voz um pouco mais firme. - As coisas entre nós nunca foram simples.

Ele soltou uma risada sem humor, balançando a cabeça.

- Isso é verdade.

Eu queria dizer mais.

Queria abrir meu coração e dizer tudo o que tinha guardado nos últimos dias: o medo de perdê-lo, a culpa esmagadora, o quanto ele ainda significava para mim, mesmo que eu tentasse negar isso para todos, inclusive para mim mesma.

Mas as palavras ficaram presas na minha garganta.

- Eu só queria que você soubesse que... eu me preocupo com você. Mesmo quando não parece e mesmo quando você tenta me afastar. - falei, escolhendo as palavras com cuidado.

Rafe me olhou novamente, seus olhos se suavizando um pouco.

- Eu... - Ele hesitou, como se também não soubesse como continuar. - Não esperava que você estivesse aqui.

- Nem eu esperava. - admiti, soltando um riso nervoso.

Ele sorriu de leve, e por um momento, a tensão pareceu diminuir. Mas logo ela voltou, pairando no ar como uma nuvem pesada.

- Eu sei que você deve estar com raiva de mim. - ele disse, desviando o olhar novamente. - Depois de tudo o que aconteceu antes disso...

Minha garganta apertou. Ele tinha razão. Nós tínhamos brigado feio antes desse acidente, e ainda havia muita mágoa entre nós.

- Não estou com raiva de você, Rafe. - respondi, tentando soar mais confiante do que realmente me sentia.

- Não? - Ele me olhou de lado, cético.

Suspirei, cruzando os braços.

- Ok, talvez eu esteja um pouco. Mas isso não importa agora. O que importa é que você está bem, e isso é tudo que eu precisava saber.

- Bella... - Ele começou, mas pareceu mudar de ideia no meio do caminho.

Ficamos em silêncio novamente, cada um perdido em seus próprios pensamentos.

Era frustrante como nós dois tínhamos tanto a dizer, mas nenhum tinha coragem de dar o primeiro passo.

- Você não precisa mais ficar aqui, sabe? - ele disse, depois de um tempo. - Já estou bem. Pode voltar para casa.

Balancei a cabeça, um pequeno sorriso nos lábios.

- Não vou a lugar nenhum, Rafe. Não até ter certeza de que você está realmente bem.

Ele suspirou, mas não tentou me convencer do contrário.

- Você é complicada, Bella. - ele disse, a voz carregada de uma mistura de frustração e algo que parecia carinho.

- E você não ajuda em nada. - rebati, cruzando os braços.

Por um momento, ele pareceu prestes a dizer algo, mas se conteve. Talvez estivéssemos fadados a continuar nesse ciclo de meias-verdades e palavras não ditas.

- Obrigado. - ele disse de repente, sua voz quase um sussurro.

- Pelo quê?

No fundo eu sabia o que ele queria dizer, mas eu queria ouvir as palavras saindo da sua boca, só para ter certeza.

- Por ficar. Por... se preocupar.

Eu sorri de leve, sentindo uma pontada de esperança no peito.

- Sempre, Rafe.

E, mesmo que não disséssemos tudo o que sentíamos, aquele momento parecia ser suficiente.

Pelo menos por agora.

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