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Eu olhei pela janela do carro enquanto dirigia de volta para casa, tentando me concentrar na estrada, mas meus pensamentos estavam longe, presos nos últimos dias que eu passei dentro daquele hospital.

Tudo parecia tão surreal agora.

Desde que Rafe chegou inconsciente até o momento em que ele recebeu alta hoje de manhã, foi como se o tempo tivesse ficado em suspensão.

Agora, de repente, tudo havia acabado, e eu estava sozinha novamente.

Assim que o médico deu a notícia de que Rafe estava liberado para ir para casa, Sarah assumiu o controle da situação.

Ela trouxe roupas limpas para ele e coordenou tudo com a enfermeira. Ela tinha um plano. Eu? Não tinha nenhum. Meu papel parecia ter acabado ali.

Sarah ajudou Rafe a entrar no carro, e eu fiquei parada no estacionamento, observando a cena de longe.

Foi estranho.

Ele me lançou um olhar breve antes de entrar no carro, mas não disse nada. Também não esperava que dissesse. O silêncio entre nós havia sido quase constante desde que ele acordou.

Quando eles finalmente partiram, fiquei ali parada, o som do motor do carro de Sarah desaparecendo na distância. Respirei fundo e entrei no meu carro, que estava no mesmo lugar onde eu o tinha deixado dias atrás.

A sensação de estar do lado de fora do hospital novamente era estranha, quase como se o mundo tivesse seguido em frente enquanto eu estava presa naquela bolha de tensão, preocupação e culpa.

A direção para casa foi automática, mas minha mente estava uma bagunça.

Tantas coisas que eu queria ter dito a ele... e tantas que não tive coragem.

Por que era tão difícil ser honesta com ele?

Eu sabia o motivo, mas não queria admitir para mim mesma. Talvez fosse medo de rejeição, ou talvez fosse medo de que ele não sentisse o mesmo.

Eu estacionei o carro em frente ao meu apartamento e fiquei sentada por um tempo, olhando para o volante.

O que eu esperava?

Que Rafe acordasse, me puxasse para um abraço e dissesse que queria tentar de novo?

Que todas as nossas diferenças e mágoas desaparecessem magicamente?

Talvez eu só quisesse um sinal de que ele ainda se importava.

Aquele dia passou como um borrão.

Tomei um banho longo, tentando lavar não só o cansaço físico, mas também o emocional.

Fiz um esforço para comer alguma coisa, mas não conseguia engolir mais do que algumas mordidas.

Estar em casa sozinha e as vezes com a presença de meu irmão tam, depois de dias rodeada por médicos, enfermeiros e o som constante de máquinas hospitalares, era um silêncio ensurdecedor.

Pensei em ligar para Sarah para saber como Rafe estava, mas desisti. Ela precisava de um tempo sozinha com ele, e eu sabia que se intrometesse, só complicaria as coisas.

Além disso, não tinha certeza se Rafe gostaria que eu ficasse perguntando por ele.

Eu me joguei no sofá, olhando para o teto, enquanto meu telefone vibrava com notificações de mensagens que eu não tinha vontade de abrir.

Sarah já tinha mandado uma mensagem dizendo que ela estava no apartamento dele e que Rafe estava se acomodando.

Além disso, meus amigos estavam curiosos sobre como tudo tinha terminado. Mas eu não estava pronta para responder a ninguém.

O vazio era palpável.

Eu esperava que, quando ele acordasse, as coisas ficassem mais claras. Achei que talvez eu tivesse coragem de dizer tudo o que estava preso dentro de mim, mas isso não aconteceu.

Não consegui dizer nada além de palavras básicas, e ele também não se abriu.

Foi como se estivéssemos presos em uma bolha de tensão que nenhum de nós sabia como estourar.

Os dias seguintes foram estranhos.

Eu evitava Sarah e o resto dos meus amigos, dizendo que precisava de um tempo para descansar e colocar minha vida em ordem depois de tudo.

Não era mentira, mas também não era toda a verdade. Eu precisava de um tempo, sim, mas não para mim.

Eu precisava de um tempo para entender o que estava acontecendo entre mim e Rafe.

Cada vez que pensava nele, a culpa voltava com força total.

Ward tinha plantado uma semente na minha cabeça que eu não conseguia arrancar.

"Você é uma das razões pelas quais ele usa drogas."

Suas palavras ecoavam na minha mente repetidamente, me deixando cada vez mais ansiosa e incerta sobre tudo.

Eu me perguntava se ele também estava pensando em mim.

Será que ele se lembrava de todas as vezes que brigamos? Ou das vezes que nos conectamos, quando tudo parecia tão certo entre nós? Será que ele sentia minha falta tanto quanto eu sentia a dele?

Mas, ao mesmo tempo, parte de mim achava que talvez fosse melhor assim.

Talvez fosse melhor se afastarmos de vez, se cortarmos os laços que só nos arrastavam para baixo. Eu não sabia como consertar as coisas entre nós.

Talvez elas simplesmente não tivessem conserto.

Alguns dias depois, eu recebi uma mensagem de Sarah.

Sarah: Rafe perguntou por você.

Eu li aquelas palavras várias vezes, tentando processar o que elas significavam.

Ele perguntou por mim? Por quê? O que ele queria?

Eu: O que ele disse?

Sarah: Nada específico. Só perguntou como você estava.

Meu coração deu um salto, mas tentei não me iludir.

Talvez ele só estivesse sendo educado, ou talvez estivesse curioso. Não significava necessariamente que ele queria me ver ou falar comigo.

Mas, ainda assim, era alguma coisa.

E eu não sabia como lidar com isso.

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