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Enquanto eu dirigia, minhas mãos ainda tremiam levemente.

Minha mente estava uma confusão, cheia de lembranças da última noite e da briga com Enzo.

Eu sabia que precisava acertar as coisas com os Pogues, mas a raiva e o ressentimento ainda borbulhavam dentro de mim, principalmente com Rafe.

A traição, o confronto, tudo estava me consumindo.

Tentei me concentrar no caminho, mas, quando passei pela casa de JJ, algo me chamou a atenção.

JJ estava do lado de fora, apressado, tentando ligar a moto. Ele parecia frustrado, a moto falhando a cada tentativa de partida.

Diminuí a velocidade instintivamente, sentindo que algo estava errado.

Quando eu parei, o pai dele saiu da casa, berrando, os olhos fixos no filho. Meu coração disparou.

Todos sabíamos como o pai de JJ era quando estava bêbado. Era um cenário com o qual eu estava familiarizada, mas sempre me atingia como um soco no estômago.

JJ continuava tentando ligar a moto, fingindo que o pai não estava ali, mas as tentativas eram inúteis.

Eu abaixei o vidro do carro.

- JJ, você quer uma ajuda? - perguntei, tentando manter minha voz firme.

Ele não me olhou.

Estava bravo, isso era óbvio.

Ele simplesmente continuou tentando ligar a moto, o maxilar travado, os músculos do braço tensionados.

O pai dele começou a se aproximar, gritando algo incompreensível, mas a ameaça era clara. Eu sabia que aquilo estava prestes a ficar muito pior.

- JJ, entra no carro! - falei com mais urgência agora.

Ele hesitou, seus olhos finalmente encontrando os meus. Estava lutando consigo mesmo, mas, quando o pai deu mais alguns passos na direção dele, ele cedeu e entrou no carro, batendo a porta com força. Eu acelerei, deixando para trás o som da voz raivosa do pai dele. Não olhei para trás.

Dirigi em silêncio por alguns segundos, sentindo o peso do ambiente. A raiva de JJ era quase palpável, e ele estava sangrando, um corte visível acima de sua sobrancelha. Meu estômago se revirou de preocupação.

- JJ, você está bem? Sua sobrancelha está sangrando. - comentei preocupada.

- Não é nada - ele respondeu secamente, sem olhar para mim.

- Mas está sangrando... você não devia deixar assim.

- Eu disse que não é nada, Bella. Só me leva para o castelo.

Sua voz estava fria, distante, o que só aumentava a tensão entre nós. Sabia que ele estava bravo comigo, e aquilo só me deixava mais ansiosa.

Respirei fundo, tentando pensar em como quebrar o gelo, como falar com ele sobre o que estava me incomodando. Não era justo ele me tratar assim, não depois de tudo o que eu fiz por ele, por todos eles.

- Você não quer falar sobre o que aconteceu? - tentei de novo, minha voz mais suave agora.

Ele soltou um suspiro pesado, apoiando a cabeça no encosto do banco.

- Tive mais uma briga com meu pai. Não tem o que falar.

Eu sabia que tinha, mas ele não deixaria transparecer tão fácil.

Olhei de relance para ele, o sangue seco em sua testa.

JJ sempre tinha sido o mais difícil de ler, especialmente quando se tratava de algo tão pessoal. Mas o que mais doía era a frieza com que ele estava me tratando, como se a nossa amizade não significasse mais nada.

- Olha, JJ, sobre o Rafe... - comecei, mas ele me cortou.

- Não começa, Bella.

- Eu só acho que se a Kie não tivesse sido tão egoísta e dedurado tudo daquele jeito, as coisas poderiam estar melhores entre todos nós. - soltei, minha voz cheia de frustração - Eu ia contar para vocês. Eu juro que ia.

Ele riu, mas sem humor.

- A Kie não foi egoísta e nem a culpada disso tudo. Ela só mostrou a verdade que você estava escondendo.

- Verdades que nem precisavam ter sido reveladas naquele momento! Você acha que a Kie fez isso pensando no que seria melhor pra mim? Ou será que ela só queria provar um ponto? - questionei, minha voz subindo um pouco.

JJ me olhou finalmente, os olhos azuis faiscando de irritação.

- A Kie estava certa, Bella. Você mentiu pra gente. De novo. Sobre o Rafe, de todas as pessoas. E olha só no que deu. Você sempre tenta justificar, mas no fundo sabe que quem tá errado aqui é você.

Senti meu peito apertar, a raiva crescendo, mas também um peso de culpa que eu estava tentando negar há dias.

- Você acha que o que eu fiz foi pior do que o que ela fez? Porque eu estou começando a achar que vocês todos só estão repetindo o que ela diz.

Ele balançou a cabeça, descrente.

- Você acha que a gente não tem cabeça pra pensar por nós mesmos? Que a Kie está manipulando todo mundo contra você? Isso é ridículo, Bella.

Fiquei em silêncio por um momento, digerindo suas palavras. Não era como se eu quisesse pensar assim, mas era difícil não sentir que Kie tinha orquestrado tudo. JJ, John B, Pope... todos pareciam concordar cegamente com ela, e eu sentia como se estivesse sozinha no meio de tudo isso.

- Eu só... eu só não entendo por que você está me tratando assim, JJ. Eu te ajudei agora, mesmo você me tratando como se eu fosse culpada por tudo isso.

- Você ajudou, e eu agradeço. Mas isso não muda o fato de que você escondeu o Rafe de novo e fez todo mundo de bobo. E agora, tá tentando jogar a culpa na Kie.

Aquelas palavras me atingiram como um soco no estômago.

Eu sabia que tinha mentido, mas não conseguia acreditar que JJ, de todas as pessoas, não pudesse ver além disso. Não podia ver o quanto eu estava tentando equilibrar tudo.

O silêncio tomou conta do carro de novo, e dessa vez eu não tentei quebrá-lo.

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