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Acordar cedo nunca foi meu forte, mas hoje eu estava determinada a voltar à minha rotina.

Fazia alguns dias desde que eu saíra do hospital, e o peso de todos os trabalhos atrasados da faculdade já começava a me pressionar.

As provas estavam a menos de uma semana, e eu precisava correr atrás do prejuízo.

Passei a manhã reorganizando meus cadernos e imprimindo resumos. Sarah, como sempre, foi uma amiga incrível, ajudando-me com tudo o que eu tinha perdido. Ela me entregou anotações detalhadas das aulas, e até mesmo sugeriu revisarmos juntas mais tarde.

Nick também apareceu para ajudar, é claro. Ele sempre fazia questão de estar por perto, especialmente desde que eu voltei do hospital.

No começo, era reconfortante ter alguém tão atencioso e disposto, mas agora... agora era diferente.

Ele chegou na hora do almoço com dois cafés e um sorriso brilhante.

- Trouxe combustível para a guerra das provas! - ele disse, colocando os copos na mesa.

- Obrigada, Nick. - eu respondi, tentando soar genuína, mas sem muita animação.

Enquanto ele se sentava ao meu lado e começava a falar sobre um esquema de estudos que tinha elaborado, minha mente vagava.

Eu sabia que precisava falar com ele.

Nick era gentil, inteligente, uma ótima companhia. Mas ele não era o que eu queria.

O problema era que ele achava que eu queria.

Seus gestos carinhosos e sua presença constante me sufocavam. Não porque fossem ruins, mas porque vinham de alguém que eu simplesmente não conseguia enxergar além da amizade.

Ultimamente, parecia que ele começara a perceber isso, mas ainda fingia que não.

Depois do almoço, fui para a faculdade.

Era estranho voltar ao campus depois de tantos dias fora. Tudo parecia igual, mas eu não.

Enquanto caminhava até minha sala, avistei Rafe de longe.

Ele estava perto de um grupo de amigos, mas não parecia realmente presente na conversa. Seus olhos vagaram pelo campus até encontrarem os meus.

Por um momento, tudo parou.

Ele não sorriu, não acenou. Apenas me olhou, como se tentasse dizer algo que nem ele sabia como expressar.

Eu desviei o olhar rapidamente e continuei andando, sentindo meu coração bater mais rápido do que deveria.

Era a terceira vez que nos víamos desde que ele saíra do hospital, e a terceira vez que trocávamos olhares silenciosos.

Não houve palavras, nem gestos.

Apenas uma tensão no ar que parecia aumentar toda vez.

Sarah me contou que ele estava frequentando reuniões em grupo no final do dia, como parte de um programa de reabilitação. Ela também disse que ele não queria estar fazendo aquilo, mas estava indo porque ela insistiu muito.

Eu me perguntava se ele realmente estava tentando mudar, ou se fazia isso apenas para agradar Sarah. Talvez fosse um pouco dos dois.

À noite, voltei para casa e tentei focar nos estudos.

Abri meu caderno, mas as palavras pareciam embaralhadas. Minha cabeça estava cheia demais para absorver qualquer coisa.

Peguei meu telefone e vi uma mensagem de Sarah:

Sarah: Já pensou no que vai fazer no seu aniversário? Kie e eu estamos planejando uma festona se você não decidir nada.

Soltei um suspiro.

Meu aniversário de 20 anos estava chegando, e, honestamente, eu não estava animada para comemorar. Festas enormes e cheias de pessoas não pareciam atraentes agora.

Respondi rapidamente:

Eu: Estava pensando em algo mais tranquilo... talvez uma viagem curta. Itália na casa da minha avó, quem sabe?

Demorou menos de um minuto para ela responder:

Sarah: ITÁLIA??? EU TO DENTRO.

Ri baixinho, já esperando que ela enlouquecesse com a ideia.

Eu não tinha certeza se a viagem seria viável, era apenas uma ideia, mas pensar nisso me trazia um pouco de paz.

Uma escapada rápida com Sarah e Kiara poderia ser exatamente o que eu precisava para esquecer, nem que fosse por alguns dias, de todos os problemas que estavam me sufocando.

Sem falar que eu poderia ver minha avó que eu já estou morrendo de saudades.

Na manhã seguinte, fui à biblioteca com Nick. Ele queria ajudar com as minhas matérias atrasadas, e eu não tive coragem de recusar.

Enquanto ele explicava uns conceitos, notei que ele fazia pausas longas, como se esperasse que eu dissesse algo mais.

- Bella, está tudo bem? - ele perguntou, finalmente, fechando o caderno.

- Sim, claro. Por quê? - Respondi rápido demais.

- Não sei. Você parece... distante ultimamente.

Engoli em seco. Ele estava percebendo.

- É só o estresse das provas. Tem muita coisa na minha cabeça.

Ele assentiu, mas seu olhar dizia que ele não estava convencido.

Eu sabia que precisava ter uma conversa com ele, mas a ideia de magoá-lo me deixava ansiosa.

Nick era um bom amigo, e a última coisa que eu queria era ferir seus sentimentos.

No final do dia, Sarah me ligou para falar mais sobre a ideia da viagem.

- Kiara já disse que vai também, e eu comecei a olhar passagens. Vai ser perfeito!

- Você está mesmo levando isso a sério, hein? - perguntei, rindo.

- Claro que estou! Bella, você precisa disso. Precisa relaxar, se divertir um pouco. Esses últimos meses foram pesados demais.

Ela tinha razão, e eu sabia disso. Talvez a Itália fosse exatamente o que eu precisava.

Enquanto Sarah falava animadamente sobre o roteiro que estava planejando, meu pensamento vagava novamente para Rafe.

Será que ele sabia que meu aniversário estava chegando? Será que ele pensava em mim tanto quanto eu pensava nele?

Afastei esses pensamentos e me concentrei na voz de Sarah. Talvez fosse hora de parar de esperar respostas que talvez nunca viessem.

Talvez fosse hora de seguir em frente.

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