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- Não precisa me ajudar, Rafe, pode ir fazer suas coisas! Você já fez mais do que precisa por mim hoje. Eu dou conta sozinha. - falei para Rafe, tentando soar convincente.

Ele estava insistindo para me ajudar a arrumar a bagunça que meu irmão deixou no escritório antigo do meu pai onde largou papéis para todos os lados.

Quis deixar tudo arrumado antes de Enzo voltar para pelo menos sentir que estou fazendo alguma coisa. E Rafe queria porque queria me ajudar.

- Bella, deixa eu te ajudar. - ele disse, com aquela determinação teimosa que sempre me fazia ceder. - Eu sei que você consegue, mas eu quero estar aqui.

Ele sabia exatamente como desarmar qualquer resistência minha. Apenas suspirei e dei um sorriso fraco, aceitando a ajuda.

Caminhamos até o escritório, um espaço que, apesar da bagunça, ainda carregava a essência do nosso pai. As prateleiras estavam abarrotadas de livros antigos, contratos, e agora, pastas e papéis espalhados por todos os lados.

Começamos a recolher tudo em silêncio, cada um focado em organizar o que podia ser salvo.

Enquanto dobrava uma pilha de papéis velhos, abri uma das gavetas da estante e me deparei com algo inesperado: um álbum de fotos. Era grande, com a capa de couro já desgastada pelo tempo.

- O que é isso? - Rafe perguntou, percebendo meu olhar fixo no objeto.

- Um álbum... Faz anos que não vejo isso.

Sentei-me no chão, com o álbum sobre o colo, e comecei a folhear suas páginas.

As fotos pareciam me puxar para o passado, para momentos que eu não sabia que estavam tão vivos em mim.

Ali estavam fotos de mim e Enzo quando crianças, correndo no quintal, montando cabanas na sala de estar, montando a arvore de natal. Rafe se ajoelhou ao meu lado, observando cada página com atenção.

- Essa casa... - murmurei, com a voz embargada. - Não é só uma casa qualquer. Ela é parte de quem eu sou.

Procuro meu colar em meu pescoço em busca de certo conforto. Eu sempre faço isso.

Rafe percebe e colocou sua mão sobre a minha outra, me oferecendo aquele apoio silencioso que sempre soube dar nos momentos em que as palavras falhavam.

- Eu vou fazer o que for preciso para você e o Enzo ficarem aqui. Não vou deixar meu pai tirar isso de vocês.

Eu queria acreditar que ele poderia mudar o rumo dessa história, mas no fundo, já sabia que Ward Cameron era implacável.

Rafe tinha o coração, mas Ward tinha a lei do lado dele.

Continuei virando as páginas até encontrar uma série de fotos que me pegaram de surpresa.

Eram antigas, muito antes de eu nascer. Ward estava nelas, ao lado da esposa falecida, a mãe de Rafe, e... eles estavam nesta casa. Nossa casa.

Um pensamento passou pela minha mente como um relâmpago.

Talvez houvesse algo que eu pudesse tentar. Uma última tentativa de apelar para o lado humano, se é que Ward ainda tinha algum.

Fechei o álbum com um estalo, levantando-me de repente.

- Bella? - Rafe me olhou, confuso.

- Eu já volto. Não precisa se preocupar.

- O que você vai fazer?

- Só... uma última tentativa.

Saí antes que ele pudesse argumentar, com o álbum apertado contra meu peito.

Meu coração batia acelerado enquanto eu caminhava até a casa dos Cameron. Cada passo parecia mais pesado, mas eu não podia voltar atrás.

Quando bati à porta, Ward foi quem abriu. Ele me encarou com aquela expressão indiferente que sempre me deixava desconfortável.

- Bella. - Seu tom era educado, mas frio. - Eu estava esperando sua visita. Achei que você viria implorar para que eu mudasse de ideia mais cedo ou mais tarde.

- Não estou aqui para implorar, Ward. - respondi, mantendo a voz firme. - Quero te mostrar algo.

Ele ergueu uma sobrancelha, curioso, mas me deixou entrar.

A sala dos Cameron era elegante, impecável, mas sem a alma que a minha casa tinha.

Coloquei o álbum sobre a mesa e comecei a abrir as páginas.

- Reconhece isso?

Ward se inclinou ligeiramente, observando as fotos.

Havia imagens dele e da falecida mãe de Rafe, felizes, jovens, sentados no sofá da nossa casa. Outras mostravam aniversários, jantares, momentos em que nossas famílias estavam conectadas de alguma forma.

- Essas fotos... - murmurei. - Essa casa não é só um prédio velho. É o lugar onde histórias foram criadas. Onde memórias foram feitas, não só para mim e Enzo, mas também para você.

Ele ficou em silêncio por alguns instantes, seus olhos fixos nas imagens.

Minha esperança cresceu, acreditando que talvez estivesse conseguindo alcançar algo nele.

- Ward, essa casa é tudo o que resta das nossas lembranças da minha mãe, meu pai... e até com sua esposa. Eu sei que você tem o poder de vender, mas... será que vale a pena destruir tudo isso por dinheiro?

O silêncio se estendeu, e por um breve momento, vi algo diferente em seu rosto. Talvez arrependimento? Nostalgia?

Mas então, como uma máscara sendo recolocada, ele voltou a ser o homem frio que eu conhecia.

- Sinto muito, Bella.

Meu coração afundou, mas antes que eu pudesse me mover, ele riu.

- Não, na verdade, não sinto. Essa casa vai render um bom dinheiro para a empresa. E dinheiro é o que importa.

Aquele riso sarcástico me atingiu como um tapa.

O que eu esperava? Que Ward Cameron tivesse um coração?

- Você é realmente um homem de pedra, não é? - minha voz saiu amarga. - Eu pensei que você poderia ter um pouco de empatia, mas acho que pedir isso a você é impossível.

Ele apenas deu de ombros.

- O mundo não funciona com empatia, Bella. Funciona com contratos e cifras.

Engoli a raiva que subia pela minha garganta e me virei para sair. Não valia a pena continuar. Já tinha feito tudo o que podia.

Quando cheguei à porta, me virei uma última vez.

- Espero que, um dia, você perceba que algumas coisas valem mais do que dinheiro. Mas, até lá, Ward... só posso sentir pena de você.

Saí da casa dos Cameron com a cabeça erguida, mas com o coração em pedaços.

Ao pisar na rua, senti o peso da realidade me atingir. Não havia mais nada a fazer.

Apenas aceitar a nossa derrota.

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