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Acabei acordando antes mesmo do Sol nascer, umas 5 da manhã.

A primeira coisa que eu fiz foi checar se Rafe estava bem e aparentemente sim. Ele continuava dormindo.

Fiquei uns minutos deitada tentando dormir de novo, mas não teve jeito, estava acordada de vez.

Passei a noite toda acordando sem querer de hora em hora. Acho que era meu subconsciente ainda preocupado com Rafe.

Eu estava faminta então resolvi descer para pegar alguma coisa para comer.

Tento ser o mais silenciosa e delicada possível para não acordar Rafe e nem Enzo. Me senti mal por ter gritado com ele ontem inclusive, mas eu estava muito nervosa na hora e ele estava me enchendo de perguntas.

A casa estava silenciosa, com apenas o barulho da chuva lá fora entrando nos meus ouvidos.

Mas meus pensamentos e memorias de ontem estavam gritando na minha cabeca.

Na verdade não só memorias de ontem, mas também de anos atrás. Quando esse tipo de coisa acontecia com Rafe.

Faço um café com leite para tomar enquanto me sento na bancada da cozinha.

De repente escuto um barulho vindo da sala e alguns segundos depois Enzo aparece entrando na cozinha ainda com sua calça e blusa de pijama que na real nem era pijama.

- Por que você ta acordado essa hora? Eu te acordei? - pergunto enquanto ele vem vindo em minha direção.

- Não, eu já tava meio acordado pensando nas coisas. Ouvi um barulho e imaginei que fosse você.

Dou um sorrisinho e logo um gole no meu café.

Quando ele chega ao meu lado, antes que ele sentasse também lhe dou, largo minha caneca e lhe um abraço muito apertado.

Eu precisava muito daquele abraço dele. Muito mesmo.

Sem pensar duas vezes ele me abraça forte de volta e me aconchega em seus braços.

- Me desculpa por ter gritado com você ontem. Eu estava...

- Ta tudo bem. - ele começa a falar quando percebe que perdi as palavras. - Desculpa também porque eu também acabei gritando um pouco.

Soltamos o abraço e agora nós dois estavamos sentados na bancada da cozinha.

- Você ta bem? - ele pergunta muito sinceramente e com preocupação tanto na voz quanto em seu olhar fixo em mim.

Penso alguns segundos e levanto os ombros indicando duvida.

Quem eu estou querendo enganar. É obvio que eu não estou bem.

Então após mais alguns segundos em silêncio, balanço a cabeça de um lado para o outro agora.

O olhar de preocupação dele só piora agora e ele apoia sua mão em meu braço apoiado na mesa.

Eu sei o que ele queria me perguntar mas não estava perguntando.

Eu sei que todas aquelas perguntas que ele me fez ontem ainda estavam em sua cabeça mas ele não sabia se devia pergunta-las.

Resolvo então responde-las.

- Já aconteceu isso antes. - começo. - Uns dois anos atrás. Rafe teve uma briga horrível com seu pai e sumiu por dois dias. Encontrei ele na casa do Barry, o traficante sabe? Foi só chegarmos em sua casa que ele teve uma overdose.

Percebo ele piscar algumas vezes tentando processar o que eu estava falando.

- Eu me desesperei, não sabia o que fazer. Eu estava sozinha ali. Ele estava apagado no chão. - faço uma pausa porque falar sobre aquilo trazia a tona uma das minhas piores memórias com ele. - O coração dele parou por alguns instantes Enzo. Parou.

Meus olhos se enchem de lágrimas entao olho para cima para tentar conte-las, mas falho. Algumas começam a escorrer pelo meu rosto.

- Eu comecei a tentar fazer de tudo para acorda-lo. Tentei a massagem cardíaca e respiração boca a boca até que ele finalmente acordou e nunca fiquei tão aliviada. Aqueles segundos, em que o coração dele não estava batendo, foram os piores da minha vida. Eu tinha certeza que tinha perdido ele para sempre. F-foi horrivel. - minha voz falha por causa do choro.

- Você não precisa continuar. - Enzo diz para me reconfortar.

- Não, eu quero.

Eu nunca tinha conversado sobre isso com ninguém além da minha vó, então era importante para mim dizer tudo aquilo em voz alta.

Me recomponho do choro e continuo:

- Depois daquilo eu tinha certeza que aquele sentimento era algo que eu nunca mais queria sentir na vida. E por isso pesquisei e estudei pela internet tudo que eu poderia fazer caso algo como aquilo acontecesse de novo. Eu comprei a tal da injeção Narcan, que inibe os efeitos das drogas no cérebro, e fiquei repassando tudo que eu deveria fazer nessa situação.

Ficamos mais alguns segundos em silêncio.

-Por que você não levou ele para o hospital?

- Era muito mais longe e só ia ser pior. Se ele não morresse até chegar no hospital o pai dele certamente iria matá-lo e você sabe que eu estou falando sério.

Enzo apenas assente levemente e lentamente com a cabeça.

- Você é muito boa com as pessoas. - ele diz após minutos de silêncio.

Meu olhar vai até ele.

- Você sempre faz o que é certo para as outras pessoas. Quero dizer, mesmo depois de tudo que aconteceu entre vocês e depois de tudo que Rafe fez, falou, mentiu, e mesmo você não tendo responsabilidade nenhuma sobre ele, mesmo assim você foi até a casa de Barry, não o levou até o hospital onde outras pessoas tomariam a responsabilidade sobre ele mas acabaria sendo pior para ele e o trouxe até aqui para você cuidar dele.

Escutar ele dizendo todas aquelas coisas que eu fiz me fez sentir um negócio dentro de mim.

- Por que? Por que Bella? - ele pergunta.

Sinto uma lágrima escorrer pela minha bochecha lentamente após eu piscar.

- Porque independentemente de qualquer coisa... eu o amo. Eu amo ele. E eu me odeio por amá-lo tanto assim.

Enzo me olha por alguns segundos e em seguida respira fundo esfregando o rosto com as mãos.

Seco meu rosto com a mão e dou um gole em meu café para me acalmar.

De repente escutamos um barulho.

Nos olhamos sabendo muito bem quem tinha feito o barulho.

Me levanto para sair da cozinha e assim que chego na sala, com Enzo logo atrás de mim, vemos Rafe.

Ele nos olha e rapidamente sai pela porta.

- Rafe! - digo para tentar impedí-lo de sair mas ele mesmo assim vai.

Rapidamente vou até a porta e antes que eu saisse Enzo diz preocupado:

- Bella!

Eu já me preparava para retrucar quando ele tentasse me impedir.

Mas na verdade ele me olha com um olhar preocupado mas compreensivo.

- Você tem certeza? - é o que ele pergunta e me pega de surpresa.

Eu amo meu irmão.

Assinto e completo:

- Tenho. Mas fica aqui dentro, não vem atrás de mim independentemente de qualquer coisa. Eu preciso conversar com ele. Eu vou ficar bem.

Com certa resistência em seu olhar que eu conseguia ver, ele assentiu e me viu sair de casa indo atrás de Rafe.

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