Consequências

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7h00 AM

Sabe quando você vê sua vida acontecendo em câmera lenta? Como se estivesse dentro de algum filme de Hollywood? Estou me sentindo assim agora. Como se alguém estivesse vendo minha história de uma tela grande de cinema e comendo pipoca enquanto assiste minhas desventuras.

— Harry... — pergunto, enquanto andamos no corredor do hotel em direção ao quarto 304 — ele vai nos matar, não vai? — pergunto, com as mãos tremendo. Harry não me responde de forma verbal, ele apenas dá de ombros e isso é o suficiente para quebrar todas as minhas estruturas.

7h30 AM

O silêncio é ensurdecedor. Há doze garotos espalhados e sentados ao redor de um quarto de hotel que acaba ficando menor do que ele é. O treinador Greyson é o único de pé, e ele está furioso, lívido e parece que o Grinch destruiu o Natal dele, mesmo que ainda estejamos a duas semanas de distância do dia vinte e quatro de dezembro. Tento-me lembrar de Camila, apenas para me acalmar de alguma forma, mas sai pela culatra, meu coração acelera ainda mais ao lembrar de seu beijo macio e de seus lábios carinhosos. O quarto está abafado e quero pedir ao treinador para ligar o ar-condicionado, ao mesmo tempo em que tenho medo de sugerir isso quando ele parece estar tão nervoso.

Se eu examinar mais de perto, posso ver uma veia saltando para fora de seu pescoço.

— Quando vocês começaram a se desentender... — sua voz é fria, cortante e perturbadora: — eu imaginei que alguma coisa estava acontecendo.

Austin está num canto mais afastado, com o peito inflado, como se tivesse ganhado na loteria. Engulo em seco, temendo nosso destino, mas aceitando-o. Lembro-me de como falei com Camila, sobre aceitar as consequências dos atos dos meninos, independente das quais fossem. Agora que ganhamos o jogo de Atlanta, estaremos indo para Salt Lake City, então, de certa forma,não me preocupo tanto assim... já garanti sua ida até lá. Ela vai ver a irmã, seja comigo do meu lado ou não. Não

— E quando conversei com o treinador Davis — ele continua seu monólogo, ninguém atrevendo-se a falar uma palavra — quando ele disse que um de seus jogadores estavam fora por maconha, e ele foi investigar... adivinha só de quem ele conseguiu um cookie batizado?

— Senhor — me atrevo a falar, minha voz quase sumindo — um cookie não é o suficiente para tanto escândalo?

Todos prenderam a respiração.

— Não estou puto por causa do cookie, Lawrence — encolho os ombros, por ser a primeira vez que ouvimos um palavrão sair de sua boca — estou bravo porque acabei de descobrir que uma das nossas melhores líderes de torcida está envolvida e que... veja bem, há meninos no time que adicionaram maconha nos cookies.

Minha mente entra em pane, curto-circuito, tela azul, tela de erro, o que quer que você queira falar. Líder de torcida? Meus pensamentos correm para Camila no mesmo instante e começo a ficar mesmo preocupado. Meu coração corre livre, agitado e confuso dentro do peito. Sinto aquele ataque de pânico que tive no campo voltando.... rastejando pelas minhas estranhas, como se estivesse esperando o momento certo para atacar. Ainda é muito cedo, não tive oportunidade de ver Camila, nem falar com ela.

Olho para Austin e ele, diferente de todo mundo, tem um sorriso sonhador em seu rosto, como se tivesse acabado de ganhar na loteria. Ele é o cara mais nojento que eu já conheci. Suas ameaças e chantagens, não deixam espaço para honestidade para o resto de nós.

— Vocês pensam que eu me esqueci de toda aquela porcaria sobre identidade falsa que aconteceu ainda nesse semestre?! — ele esbraveja e Louis encolhe os ombros, chateado — vocês acham que eu penso que vocês são santos? Pois, bem, eu sei que não são. Eu sei que a pegadinha do cabelo rosa de Austin foi algo pensado como crueldade, não como uma brincadeira saudável entre ex-s companheiros de time. Eu não sou burro, nem cego e nem vou pasar a mão na cabeça de nenhum de vocês. E por isso, estou dando um ultimato: se até chegarmos de volta em Miami, ninguém ter assumido a culpa, eu mesmo vou cancelar o nosso jogo em Salt Lake City, nos fazendo perder por desistência!

Meus olhos se arregalam, quase saindo da cara! Independente de qual fosse a líder de torcida que ele estivesse falando, nada me faria desistir de levar Camila a Salt Lake City. Por isso, colocando toda a coragem que possuo para fora do peito, levanto-me do lugar de onde estou sentado, atraindo a atenção de todos.

— Foi minha culpa, treinador. — Falo em voz alta, sem me arrepender: — A maconha era minha. Eu fiquei desesperado, porque não estávamos conseguindo dinheiro o suficiente. Apenas briguei com o time porque eles estavam tentando me fazer mudar de ideia.

O olhar de Greyson muda, seus ombros caem e ele me olha com tanta decepção que é quase demais para que eu possa suportar.

— Lawrence Jauregui — ele suspira, fazendo uma pausa dramática apenas para me deixar mais angustiado — você não participará do jogo de Salt Lake City e está permanentemente suspenso do time de futebol de Coral Bay High School.

8h30 AM

Para o meu completo horror, me encontro com Camila do lado de fora do quarto, logo depois de sair com o rosto molhado em lágrimas. Nenhum dos meus, agora ex's, companheiros de time foi capaz de falar alguma coisa, de tão surpresos que ficaram. Levei a culpa, com honra, se posso dizer. Olho para o rosto da minha agora, namorada, e o primeiro sorriso do dia aparece em meus lábios, mesmo que fosse só a sugestão de um, e não um sorriso completo. Meu coração se aperta dentro do peito e tento controlar minha respiração, apenas para não acabar ainda mais desesperado.

— Austin... — ela murmura, sofrida em meu colo — ele...

— O que ele falou pra você? — meus dentes trincam, minha garganta fica seca e me pergunto se Camz tem mais algum comprimido de ansiolítico com ela. Faço uma nota mental para fazer uma pergunta mais tarde sobre como ela conseguiu estes.

— Ele disse que se eu não assumisse metade da culpa pelos cookies— mais lágrimas, uma cachoeira — ele iria divulgar mais fotos e eu... eu sou tão estúpida! Dinah tentou intervir, você precisava ver o soco que ela deu nele! Mas...

Nem a imagem de Dinah socando Austin foi o suficiente para me alegrar naquele momento.

— Não... Camz, — ela escora na parede e eu me abaixo, ficando mais próximo dela: — Hey, por favor, não chora.

Falar "por favor, não chora" para alguém que está triste é a mesma coisa que falar "fica calmo" para alguém com raiva. Nunca resolve e é o movimento errado. Camila bufa, rancorosa pela primeira vez que a conheço e seus olhos estão tão tristes que levam uma pontada de culpa para o meu estômago. A coisa toda explodiu na nossa cara e não havia maneira de voltarmos no tempo para consertar essa besteira toda. Talvez se eu tivesse falado com o treinador Greyson no primeiro minuto que Austin me chantageou, ele não teria tido tempo para chantagear nós dois. Sei que ele só faz o que faz com Camila por raiva por ela ter terminado com ele. É o tipo de macho que nunca supera o fora levado por uma garota bonita e posso dizer, desde que conheci o ex-namorado da minha irmã, que há milhares deles espalhados por aí.

— Shhh — tento de novo, implorando aos Céus que toda a tristeza dela fosse embora — eu te prometi que vou te levar para Utah, com jogo, sem jogo, a pé ou de carro. Não prometi?

Ela engasga um pouco, mas olha para mim com alguma coisa em seu olhar que não consigo decifrar, mas que está em algum ponto entre o medo e a dor. Não sei se ela está duvidando de mim, mas por um momento, é o que me parece, e é o suficiente para meu estômago se contorcer todinho. Não quero que ela duvida das minhas promessas, nem por um segundo, porque quero prometer muito mais do que uma viagem à Utah. Pode fazer apenas um dia que estamos namorando e eu ainda quero colocar uma aliança em seu dedo, como Cris fez com Charlotte, mas não quero que ela pense que nosso namoro vai acabar no momento em que o sino da formatura tocar. Temos uma vida além e fora daqui.

— Você confia em mim? — peço, com todo o sentimento que há dentro de mim. Sua feição, triste, cabisbaixa e derrotada, reflete em meus olhos e eu suspiro de novo.

— Confio — ela responde.

E isso é mais do que o suficiente.  

LawrenceOnde histórias criam vida. Descubra agora