"Eu havia imaginado aquele momento diversas vezes, tantas que eu mal pude contar depois que todos os dedos dos pés e das mãos já haviam marcado o número necessário e provavelmente o número aceitável para alguém sonhar com o homem que já fora tudo pa...
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O apartamento estava escuro, silencioso. O único som que ecoava era a minha própria respiração irregular enquanto eu encarava o teto, perdida nos pensamentos que me assombravam há dias.
Quantos dias tinham passado desde aquela noite no estádio?
Desde que eu assisti Ian sorrir no telão, dizendo que queria comemorar sua vitória com a pessoa que ele amava... e então vi Megan tomar o microfone e destruir o que restava da minha sanidade?
Eu parei de contar.
Charlie bateu na minha porta algumas vezes, ligou sem parar, mandou mensagens que eu nunca respondi. Mas eu não queria falar com ele. Não queria falar com ninguém.
Nos últimos dias, tudo dentro de mim parecia errado.
No começo, foi o cansaço. Um peso esmagador que me fazia querer dormir por horas a fio. Não importava o quanto eu descansasse, era como se meu corpo estivesse drenado, exausto de tudo.
Depois, vieram as náuseas.
Pequenas no início. Um enjoo leve pela manhã que eu culpei pelo estresse. Meu apetite sumiu, e qualquer coisa que eu comia parecia não descer direito. O cheiro do café—meu café favorito, aquele que eu precisava para viver—de repente se tornou insuportável.
Aquilo me preocupou.
Mas eu ignorei.
Continuei convencendo a mim mesma de que era o emocional.
Então veio o cansaço físico. Meu corpo estava mais pesado, mais sensível, como se qualquer esforço fosse me derrubar. Subir as escadas do prédio parecia uma maratona. Até segurar minha câmera, algo que eu fazia há anos sem dificuldades, começou a parecer cansativo demais.
Mas eu ainda me recusava a enxergar.
Até que...
A tontura veio.
Dessa vez, não foi um mero desconforto.
Foi forte.
Foi intensa.
Foi a mesma que eu senti da última vez.
Eu estava no banheiro, lavando o rosto depois de mais uma tentativa fracassada de comer alguma coisa, quando senti o chão sumir. Minhas pernas vacilaram, e eu precisei me segurar na pia para não cair.
A respiração ficou curta, e um suor frio cobriu minha pele.
Foi nesse instante que a verdade bateu em mim como um raio.
Não.
Não podia ser.
Meus dedos se agarraram à borda da pia, e meu olhar subiu para o espelho. Meu rosto estava pálido, os olhos arregalados, e no fundo da minha mente, uma voz sussurrava o que eu não queria admitir.
Eu já senti isso antes.
O peso na minha barriga. A tontura inesperada. O enjoo sem explicação. A rejeição ao café. O cansaço extremo.
Meu coração começou a bater mais forte.
Será que...?
Eu tremi.
Me afastei do espelho, levando as mãos ao ventre, como se pudesse sentir algo ali. Como se meu corpo fosse me dar uma resposta.
E então, no meio de toda a confusão, algo despertou dentro de mim.
Uma faísca.
Um sentimento que eu não sabia nomear, mas que tomou conta do meu peito e espalhou calor por todo o meu corpo.
E se eu estiver grávida?
A pergunta veio como um sussurro.
E se, no meio de toda essa dor, de toda essa bagunça, de tudo que perdi... eu estiver ganhando algo?
Um novo começo.
Uma nova chance.
Um novo bebê.
Meus olhos se encheram de lágrimas.
Não pode ser coincidência.
Se fosse verdade—se eu realmente estivesse carregando um filho—então era como se o destino estivesse me dando uma segunda chance.
Uma chance de fazer tudo certo dessa vez.
De não esconder. De não fugir. De não passar por isso sozinha.
Uma lágrima escorreu pelo meu rosto, e eu não fiz nada para impedir.
Eu ainda não tinha certeza. Eu ainda precisava ver um teste, um exame, qualquer coisa que confirmasse o que eu sentia.
Mas no fundo, eu já sabia.
Meu corpo sabia.
Meu coração sabia.
E pela primeira vez, em muito tempo, eu senti algo diferente da dor e da perda.
Esperança.
Sorri, ainda tremendo, enquanto passava a mão pela barriga.