"Eu havia imaginado aquele momento diversas vezes, tantas que eu mal pude contar depois que todos os dedos dos pés e das mãos já haviam marcado o número necessário e provavelmente o número aceitável para alguém sonhar com o homem que já fora tudo pa...
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O táxi seguia pelas ruas escuras da cidade, e eu mal piscava. Não queria piscar. Se fechasse os olhos, veria Ian. Sentiria sua pele quente contra a minha, sua respiração ofegante misturada à minha, seu toque, sua boca, suas promessas mudas.
Minha respiração vacilou.
Eu me odiei por isso.
Odiava que ele ainda tivesse esse poder sobre mim. Odiava que, depois de tudo, depois de tanto tempo, bastasse um olhar, um toque, um maldito beijo para que eu me esquecesse de tudo. Esquecesse da dor. Do que perdemos. Do que nunca teríamos de volta.
Mas eu não podia esquecer.
Eu não podia.
Encostei a cabeça no vidro do carro, sentindo o frio do vidro contra a minha pele. Minhas mãos estavam geladas, meu peito apertado, e a única coisa que eu conseguia pensar era...
Eu preciso ir embora.
Quando o táxi parou em frente ao prédio, eu quase pedi para o motorista seguir até o aeroporto. Mas algo dentro de mim ainda se agarrava a um último fio de racionalidade. Eu precisava arrumar minhas coisas.
Respirei fundo antes de abrir a porta do carro.
Cada passo que dei até o apartamento pareceu pesado. Como se meu corpo soubesse que essa era a última vez. Como se minha alma se recusasse a aceitar.
Fechei a porta atrás de mim, e assim que a trave girou, minhas pernas cederam.
Meu corpo deslizou pela porta, e eu abracei as próprias pernas, sentindo minha respiração engasgar.
Eu tinha que ir embora. Eu tinha.
Então por que doía tanto?
Fechei os olhos, e a dor veio com tudo. Como se estivesse esperando exatamente por esse momento.
Porque agora, sozinha, sem ninguém para ver, sem precisar sustentar minha fachada de indiferença, eu podia sentir tudo.
O peso do que aconteceu.
O peso do que nunca aconteceu.
Meus dedos apertaram minha barriga, o mesmo reflexo instintivo de sempre. O mesmo toque vazio.
Nosso bebê.
O bebê que nunca tive nos braços.
O bebê que nunca conheci.
O bebê que nunca ouvi chorar, que nunca senti respirar contra minha pele, que nunca pude ninar nos meus braços.
Meus olhos se fecharam com força, e as lágrimas escorreram quentes, silenciosas.
Eu nunca tinha contado para ninguém...
O que foi pior não foi perdê-lo.
Foi acordar no hospital, sozinha.
Com um vazio onde antes havia vida.
Com um silêncio onde antes havia batimentos.
Eu chorei naquela noite. Chorei tanto que achei que nunca mais conseguiria respirar direito. Que nunca mais conseguiria sorrir sem sentir essa dor sufocante no peito.
E o pior?
Eu chorei sozinha.
Eu carreguei isso sozinha.
E quando finalmente contei para Ian, anos depois, ele não soube o que fazer com essa informação. Ele ficou em choque. Ele chorou. Ele ficou puto. Mas nada disso mudava o fato de que ele não estava lá.
Porque eu nunca deixei que ele estivesse.
Porque eu fiz essa escolha.
Porque eu achei que estava protegendo ele, mas no final... só destruí a mim mesma.
Engoli em seco e limpei o rosto, respirando fundo.
Isso precisava parar.
Eu precisava parar.
Eu já tinha me despedaçado por tempo demais.
Me levantei e fui até o armário, pegando minha mala e jogando as roupas dentro sem me preocupar em dobrá-las. Eu não podia mais ficar aqui.
Eu precisava voltar.
Voltar para Paris.
Para a cidade onde eu tentei construir uma nova versão de mim mesma.