23. Entre Dois Corações

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                     Os últimos dias passaram como um borrão

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Os últimos dias passaram como um borrão.

Eu não sabia descrever exatamente como me sentia, mas pela primeira vez em muito tempo, minha vida parecia estar se encaixando. Como se os pedaços quebrados dentro de mim estivessem lentamente voltando ao lugar.

Desde aquela noite com Ian, tudo parecia mais fácil. Mais certo. Nós passamos cada instante juntos, como se quiséssemos compensar os anos de distância. Entre conversas, risadas e beijos roubados, a dor do passado foi se tornando apenas um sussurro no fundo da minha mente.

Mas agora, sentada sozinha no sofá do meu apartamento, um livro aberto no colo e uma xícara de café esfriando ao meu lado, o silêncio começou a pesar.

Foi então que a campainha tocou.

Franzi a testa, surpresa. Eu não estava esperando ninguém.

Deixei o livro de lado e me levantei, ajeitando a blusa antes de abrir a porta.

— Charlie? — Meu rosto se iluminou ao vê-lo parado ali, um sorriso torto no rosto e um saco de papel marrom nas mãos.

— Viagem de emergência. — Ele ergueu a sacola e entrou sem esperar convite. — Bebida e comida pra salvar você da solidão. Você parecia precisar.

Soltei uma risada leve e fechei a porta atrás dele.

— Você acha que eu estou morrendo de tédio sozinha?

— Eu sei que você está.

Charlie sempre soube. Ele sempre apareceu quando eu precisava.

Fomos até a cozinha, e ele colocou a sacola no balcão, tirando de lá uma garrafa de vinho e uma caixa de donuts. Meu peito se aqueceu. Ele sabia que eu amava essa combinação.

— Eu te amo, Charlie. — Falei sem pensar, pegando um dos donuts e mordendo um pedaço.

Ele riu, mas por um segundo, seus olhos ficaram mais escuros.

— Se soubesse o quanto... — Murmurou, mas logo desviou o olhar e pegou uma taça para mim.

Conversamos por um tempo sobre coisas aleatórias. Charlie contou sobre o drama no trabalho, sobre um cliente insuportável que insistia em mudar os prazos de última hora. Eu ri, joguei um pedaço de donut nele quando ele começou a reclamar que eu passava tempo demais lendo e pouco tempo saindo para me divertir.

Era fácil estar com ele. Sempre foi.

E então, do nada, ele fez a pergunta.

— Então... quando você volta pra Paris?

O ar pareceu mudar ao nosso redor.

Eu abaixei a taça e respirei fundo antes de responder.

— Eu não vou voltar.

The Quaterback Histórias para pegar e não largar. Descubra agora