04. OLÁ, CHARLIE

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               Não conseguia me lembrar quantas vezes já havia respirado fundo, dizendo que aquela era a hora, de que eu conseguira fazer, era só bater na porta

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Não conseguia me lembrar quantas vezes já havia respirado fundo, dizendo que aquela era a hora, de que eu conseguira fazer, era só bater na porta. Eu já devia estar ali em pé a uns 10 minutos, mas não tive coragem para fazer nada além de encarar as portas duplas do prédio um pouco mal cuidado.

Depois que cheguei em Boston, decidida a começar do zero e esquecer tudo que me fez mal, liguei para a antiga casa de Charlie; não me foi novidade quando sua mãe atendeu, dizendo que ele havia se mudado e me passando o endereço de seu apartamento.

Era um apartamento não muito longe do centro, devia ter uns dez andares e a pintura estava descascando aos poucos. Simples, a cara do Charlie.

Respirei mais uma vez e antes de tomar coragem para apertar o número do andar de Charlie, alguém abriu a porta e saiu. Entrei rapidamente e procurei um elevador... não tinha. Seriam cinco longos andares de escada. Quando cheguei no número 507, respirei fundo e bati à porta três vezes seguidas até escutar algum barulho do lado de dentro e uma voz sonolenta dizendo: "já vai".
Esperei pacientemente enquanto ouvia o barulho da fechadura sendo aberta.

Quando a porta abriu, eu não sabia o que dizer. Ali estava meu melhor amigo, mais velho, mais bonito, com uma barbinha que eu nunca imaginei vê-lo. As coisas realmente mudam, pensei.

- Meu Deus! Eu estou sonhando! Scarlet Evans, é você mesma? - ele me puxou para um abraço apertado e eu retribui, feliz pela distância não mudar nada entre nós, partiria ainda mais meu coração se tivesse.

- Cheguei hoje em Boston e pensei em fazer uma visita, espero que não se importe.

- Chegou hoje!? Scar, por quê não me contou? - Charlie me olhava da cabeça aos pés, como se quiser acreditar que eu estava ali, mas parecesse impossível. - Eu teria buscado você no aeroporto!

- Ah, agora já estou aqui! - sorri com o comentário de Charlie, sempre pronto para me ajudar, como sempre. - Vim a trabalho.

- Então você vai voltar para Paris? - sua voz ficou fraca, mas ele continuou sorrindo.

- Isso. Minha vida é lá agora.

- Scarlet! Uau... você está... linda! Como sempre! Vem, sente-se aqui - ele me levou até mais para dentro da casa, e parou em um cômodo com um sofá grande e uma poltrona, virados para a televisão. - Faz tanto tempo...

- É - falei, quase em modo automático. Eu odiava as lembranças que Boston me trazia.

- Quatro anos. Desde aquele...

- Eu sei - tentei mudar de assunto. Não era algo que eu gostaria de lembrar, mesmo estando sempre comigo. - Enfim, eu... não posso demorar. Tenho que ver as coisas do trabalho e tudo mais. Mas foi bom te ver - falei, me levantando do sofá.

- Scarlet, não! Espera! - meu amigo deu um sorriso e se sentou ao meu lado, pondo a mão na minha. - Desculpe, é que faz muito tempo que não te vejo, eu não queria tocar no assunto... naquele assunto... por isso... - ele abriu um sorriso grande. - Vamos falar sobre outro assunto, por favor. Não vá embora agora.

Pensei seriamente por poucos minutos. Uma parte de mim queria ir, a outra parte só queria que tudo voltasse a ser como antes. Mas claro que não voltaria... não tinha como voltar.

- Tudo bem - respondi no fim. - Me conta, no que você está trabalhando?

- Eu sou jornalista - ele riu, como se tivesse dito algo inacreditável. - Eu, Charlie Jones, o cara que tinha vergonha de falar com as meninas no ensino médio, agora é jornalista.

- Uau, Charlie, isso é muito bom! Você está se superando, fazendo coisas diferentes! - sorri, feliz pelo meu amigo.

- É, eu sei. Mas faz pouco tempo que me formei, então ainda estou na parte burocrática.

- Eu te entendo, só fui pegar um trabalho bom agora, no final da faculdade. Foi por causa dessas fotos que eu fui contratada pra trabalhar aqui.

- Quem te contratou?

- O Boston Celtics.

- O jornal de esporte? - Charlie arregalou os olhos, descrente. - Uau... não sabia que você ia ficar de boa com isso, sabe, com o fato do futebol e dele fazer parte do...

- É, eu sei, mas não tem nada demais. É só mais um time de futebol, não é? E isso pode me abrir novas portas.

- Não sabia que você ia ficar tão de boa com isso, Scarlet. Nós estamos realmente crescendo.

Ri da expressão do meu amigo.

- Já estava na hora, não é?

- Foi ver seu pai? - percebi que Charlie se arrependeu da pergunta no minuto que a fez, ele realmente não sabia deixar o passado no passado. Mas estava tudo bem, eu queria dizer, porque se eu queria deixar tudo para trás, eu iria precisar de uma forma ou de outra falar com meu pai.

- Ainda não. Vou depois do trabalho - falei, tentando soar desinteressada.

- Eu não queria dizer nada mas... ele realmente sente sua falta. E... ele se arrepende, sabe? Naquela época...

- Eu sei, Charlie - dei um sorriso triste e me levantei do sofá. - Ele achou que era o melhor pra mim. Não é o que todos os pais achariam? - ri com desdém. - O fato foi que ele nunca me perguntou o que eu queria, Charlie. E isso acabou me destruindo ainda mais.

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