25. O Peso da Perda

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                           A cidade passava borrada do lado de fora do táxi, mas eu não conseguia enxergar nada

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A cidade passava borrada do lado de fora do táxi, mas eu não conseguia enxergar nada.

Meus olhos estavam fixos no vidro embaçado pela umidade da noite, mas minha mente...

Minha mente ainda estava naquele estádio.

Ainda estava naqueles segundos que pareceram uma eternidade.

O momento em que Megan tomou o microfone. O sorriso perfeito em seu rosto. O brilho ensaiado em seus olhos enquanto pronunciava aquelas palavras como uma sentença.

"Estamos esperando um bebê!"

Meu coração afundou no peito.

Revivi a cena mais uma vez, o rosto de Ian completamente perdido, os aplausos e gritos da torcida, a comoção generalizada...

E eu.

Sozinha.

No meio de tudo isso, segurando uma câmera que de repente parecia ridiculamente inútil.

Como se aquilo fosse uma piada cruel do destino.

Eu passei anos carregando uma culpa silenciosa, acordando de madrugada sufocada pelo peso da minha decisão. Passei anos chorando no escuro, imaginando uma realidade diferente, onde meu bebê ainda estivesse comigo. Onde Ian soubesse desde o início.

Mas naquela noite...

Naquela noite, o destino decidiu esfregar na minha cara que a vida seguia em frente.

Para ele.

Para mim?

Para mim só sobrava o vazio.

Eu me abracei no banco do táxi, sentindo o peito arder. Era como se alguém tivesse arrancado algo de dentro de mim e deixado um buraco que eu nunca mais conseguiria preencher.

Eu nunca teria aquilo.

Nunca teria a chance de segurar meu bebê nos braços. Nunca teria a chance de ver Ian sorrindo para mim daquela forma, de vê-lo emocionado ao segurar nosso filho pela primeira vez.

Eu nunca teria uma família com ele.

Megan sim.

Ela teria tudo.

O filho que eu não pude ter. O homem que eu nunca consegui esquecer.

Minha respiração começou a falhar, e eu precisei fechar os olhos para conter as lágrimas que ardiam. Mas não adiantava.

A dor transbordava de dentro de mim.

Eu me odiei por isso.

Me odiei por sentir tanto, por me importar tanto, por não conseguir ser forte o suficiente para apenas aceitar e seguir em frente.

Mas como eu poderia?

Como poderia aceitar que Ian seria pai do filho de outra mulher, enquanto o nosso sequer teve uma chance?

As lágrimas finalmente escaparam, silenciosas, quentes contra minha pele gelada.

— Chegamos, moça. — A voz do taxista me trouxe de volta para a realidade.

Eu pisquei, demorando um segundo para me situar, antes de pegar o dinheiro e sair do carro.

A noite estava fria. O vento cortava minha pele, mas nada se comparava à tempestade dentro de mim.

Subi as escadas do prédio devagar, como se meu corpo estivesse pesado demais para se mover. Cada passo parecia me arrastar para um lugar ainda mais escuro dentro da minha mente.

Assim que entrei no apartamento, não acendi as luzes.

Não precisei.

A escuridão combinava perfeitamente com o que eu sentia por dentro.

Fechei a porta atrás de mim e me encostei nela, deixando a bolsa e a câmera caírem no chão. Meu peito subia e descia descontroladamente, minha respiração irregular.

E então, como se um dique tivesse se rompido dentro de mim, eu desabei.

Um soluço rasgou minha garganta, e eu deslizei pela porta até o chão, abraçando as próprias pernas.

O choro veio forte, desesperado, sufocante.

Eu não conseguia parar.

Os flashes da minha memória me atingiam sem piedade.

Eu no hospital, sozinha, segurando meu ventre vazio.
O silêncio ensurdecedor onde antes havia um batimento.
A dor física misturada com a dor emocional que nunca me deixou.

E agora, tudo aquilo voltava com ainda mais força.

Porque agora eu sabia o que eu perdi.

Sabia o que poderia ter sido.

E sabia que nunca mais teria isso de volta.

Eu solucei, cobrindo o rosto com as mãos.

— Por quê? — Minha voz saiu fraca, um sussurro quebrado.

Por que o destino foi tão cruel comigo?

Por que ele pôde ter essa chance, essa nova vida, esse novo começo... e eu não?

Por que eu só ficava com os pedaços?

Fiquei ali, no chão frio, sem saber quanto tempo passou. Apenas sentindo a dor me consumir, me sufocar, me quebrar em mais pedaços do que eu achava possível.

Até que, no meio do choro, senti algo.

Minha mão pousou no ventre vazio, o lugar onde meu bebê um dia existiu.

Eu fechei os olhos, respirando fundo, tentando sentir algo além da dor.

Tentando encontrar alguma paz.

Mas não havia paz.

Havia apenas o silêncio.

E a certeza devastadora de que, não importava o quanto eu tentasse...

Eu nunca mais seria inteira de novo.

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