"Eu havia imaginado aquele momento diversas vezes, tantas que eu mal pude contar depois que todos os dedos dos pés e das mãos já haviam marcado o número necessário e provavelmente o número aceitável para alguém sonhar com o homem que já fora tudo pa...
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Joguei mais uma peça de roupa dentro da mala aberta e tentei ignorar o tremor nas minhas mãos.
Eu precisava sair daqui.
Cada canto deste apartamento, cada maldita respiração que eu tomava, me lembrava de Ian. Do que aconteceu. Do que ainda acontecia dentro de mim, apesar de todo o tempo, de toda a distância, de toda a tentativa de seguir em frente.
Respirei fundo, tentando manter a cabeça no lugar.
Se eu focasse apenas em colocar tudo na mala, se eu não pensasse demais, então talvez essa dor no meu peito diminuísse. Talvez eu conseguisse me convencer de que estava fazendo a coisa certa.
Talvez.
Peguei minha necessaire no banheiro e voltei para o quarto, sem nem me preocupar em fechar os frascos de perfume ou organizar as escovas de cabelo. Eu só queria acabar com isso logo.
Eu só queria sumir.
O som da campainha congelou cada músculo do meu corpo.
Meu coração parou.
Ninguém sabia que eu estava aqui.
Ninguém, exceto...
Fiquei imóvel, encarando a porta como se ela pudesse me engolir. Como se eu pudesse ignorar o que estava do outro lado e seguir com o plano. Mas então...
Batem de novo.
Mais forte dessa vez.
A mesma força. A mesma insistência que sempre pertenceu a ele.
Eu sabia.
Antes mesmo de abrir a porta, eu sabia.
Minhas mãos tremiam quando toquei a maçaneta, e por um segundo, pensei em não abrir. Pensei em me virar, pegar minha mala e simplesmente ir. Mas meu corpo não me obedeceu.
Quando a porta se abriu, lá estava ele.
Ian.
Os cabelos bagunçados como se tivesse passado as mãos por eles mil vezes, a camisa ainda meio aberta, revelando um pedaço da pele que eu conhecia tão bem. Mas o que me destruiu não foi isso.
Foi o olhar.
Aquele olhar.
Culpa. Dor. Desespero.
Como se ele tivesse corrido uma maratona só para chegar até aqui. Como se estivesse à beira do abismo e eu fosse a única coisa que poderia segurá-lo.
E, droga... eu queria.
Mas não podia.
— Scar... — a voz dele veio baixa, rouca, carregada de algo que fez meu estômago se revirar.
Engoli em seco.
— O que você está fazendo aqui, Ian?
Ele piscou, como se a pergunta o atingisse de surpresa. Como se eu não tivesse todo o direito de questionar. Como se ele achasse que, depois do que fez, poderia simplesmente aparecer aqui e tudo ficaria bem.
Ele olhou para trás, como se precisasse tomar fôlego, e só então seus olhos desceram para minha mala aberta na cama.
Ele franziu a testa.
— Você tá indo embora?
Eu fechei os olhos por um segundo antes de respirar fundo e responder:
— Sim.
— Não. — A palavra saiu dele como um rugido baixo, um sussurro carregado de pânico. Ele entrou no apartamento sem pedir permissão e fechou a porta atrás de si, como se quisesse nos isolar do mundo. Como se estivesse prestes a implorar. — Você não pode ir.
— Posso e vou.
— Scarlet, por favor.
Seu tom fez algo dentro de mim se partir ao meio.
Eu apertei os punhos, lutando contra as lágrimas, lutando contra tudo que queria gritar.
— Você quer que eu fique para quê, Ian? — Minha voz saiu baixa, mas afiada. — Para te ver casar com outra mulher? Para ser sua amante escondida? Porque foi isso que aconteceu hoje, não foi? Você me fodeu contra uma parede e depois voltou para sua noiva como se eu não passasse de um erro.
Ele fechou os olhos, sua respiração ficando irregular.
— Não diz isso.
— Digo sim. Porque eu sou um erro, Ian? Foi isso que você me fez sentir.
Ele se aproximou, tão rápido que eu dei um passo para trás.
— Você nunca foi um erro. Nunca.
Eu ri. Um riso amargo, doído.
— Engraçado. Não pareceu isso quando sua mãe bateu na porta e avisou que sua noiva estava te esperando.
Ian prendeu a respiração, e por um momento, achei que ele não fosse responder. Mas então, sua mandíbula ficou rígida, e ele finalmente soltou o que parecia estar preso dentro dele.
— Megan não era sobre amor, Scar.
Meus olhos se estreitaram.
— O que você tá dizendo?
Ele passou a mão pelos cabelos, nervoso, antes de me encarar de novo. Dessa vez, sem desviar.
— Eu fiquei com ela porque eu não sabia mais como seguir sem você.
O ar sumiu dos meus pulmões.
Ele continuou:
— Eu tentei. Deus, eu tentei seguir em frente. Eu quis tanto odiar você por ter ido embora, por ter escondido tudo de mim. Mas quanto mais eu tentava esquecer... mais você voltava para mim.
Minhas pernas ficaram bambas.
— Ian...
— Eu aceitei o pedido de noivado porque achei que era o certo. Porque Megan... Megan sempre esteve ali, esperando por isso. Mas eu não amo ela. Eu nunca amei.
— Então por que...
— Porque eu achei que você nunca mais voltaria.
Eu senti meu mundo girar.
— E agora? O que mudou?
Ele se aproximou mais, e dessa vez, eu não me mexi.
— Você. — Sua voz era só um sussurro agora. — Você voltou. Você ainda me ama.
Meus olhos se encheram de lágrimas, e eu senti cada barreira que construí se desfazer aos poucos.
— Eu nunca deixei de amar você, Ian.
Seus olhos brilharam.
Ele ergueu as mãos, segurando meu rosto com tanta delicadeza que fez meu coração se despedaçar.
— Então fica.
Eu fechei os olhos, tentando me agarrar à razão. Tentando lembrar do que tinha decidido.
Mas quando os abri, ele ainda estava ali.
O mesmo Ian que eu amei desde a primeira vez que vi.
O mesmo Ian que ainda fazia minha alma estremecer.
E, pela primeira vez, depois de tanto tempo, eu não sabia mais o que fazer.