Capítulo 51

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Naquela noite, dormimos rindo — ou tentando. Porque cada vez que eu virava de lado e minha perna encostava na dele, ou ele se ajeitava na cama e deixava a mão repousar acidentalmente no meu quadril... a vontade voltava como uma onda teimosa, batendo e recuando.

— Você tá acordada? — ele murmurou no escuro, horas depois.

— Tô. Pensando em... estratégias.

— Estratégias?

— Pra te sequestrar de verdade. Sem interferência familiar.

Ele se virou, encostando o corpo no meu, a voz rouca de sono e desejo.

— Amanhã. Depois do café. Eu finjo que tenho que ir até o galpão. Você aparece meia hora depois. E ninguém precisa saber.

— Você quer transar no galpão de ferramentas?

— Quero transar em qualquer lugar que não tenha gente batendo na porta.

Ri baixinho.

— Vai estar cheio de poeira. E óleo. E parafusos espalhados.

— E você deitada em cima de tudo isso, me olhando daquele jeito... Bianca, pelo amor de Deus, a gente é jovem, saudável, e casado. Isso é uma emergência.

Mordi o lábio, tentando conter a risada.

— Tá bom. Amanhã. No galpão.

— Promete?

— Prometo.

Mas adivinha? No dia seguinte... choveu. Uma chuva braba, daquelas que alagam tudo. O galpão virou um lamaçal impraticável, Melanie decidiu fazer bolo na cozinha com Antony no colo, Mari resolveu organizar a despensa, e Luke apareceu todo empolgado com um projeto de horta vertical.

Quando a noite caiu, eu e Hector estávamos esgotados. E frustrados.

Sentamos na cama, olhando pro teto, sem dizer nada.

— Sabe o que a gente precisa? — falei, de repente.

— De um helicóptero pra nos levar pra longe?

— Um quarto com chave.

— Isso também.

Virei de lado, encostando a cabeça no ombro dele.

— Mas quer saber de uma coisa? Quando a gente conseguir finalmente um minuto só nosso... Vai ser épico.

Ele passou o braço pelas minhas costas, me puxando pra perto.

— Vai ser histórico.

— Vai entrar pro calendário da fazenda.

— Vamos comemorar todo ano.

Nos encaramos, rindo, mas os olhos diziam outra coisa. E mesmo sem fazer planos ousados naquela noite, a certeza era só uma: a minha vingança  ia acontecer. E quando acontecesse... ninguém ia esquecer.

                                                                                               (...)

Dois dias depois...

O universo, enfim, pareceu dar uma folga.

O tempo abriu, a casa ficou mais silenciosa, e depois de um almoço preguiçoso, Mari anunciou que ia com Melanie até a cidade. Luke foi junto, oferecendo carona. Helen ficou no quarto com Antony, dizendo que só sairia de lá "depois do cochilo sagrado". A oportunidade perfeita.

Hector me lançou um olhar conspirador enquanto tomava o último gole de suco.

— Galpão?

— Galpão.

Ele saiu primeiro, fingindo ir buscar umas ferramentas. Eu esperei dez minutos, chequei o corredor três vezes, e só então fui atrás.

O galpão estava meio escuro, com aquele cheiro de madeira, óleo e feno velho. E ele ali, encostado na bancada de trabalho, braços cruzados, calça jeans justa e aquela camisa aberta nos dois primeiros botões, me esperando como se fosse a cena de um filme proibido.

— Achei que você tinha desistido. — O tom dele era rouco, malicioso.

— Eu tava me certificando de que ninguém ia invadir a cena do crime.

Me aproximei devagar, e ele nem se mexeu, só ficou me observando com aquele olhar que fazia minha pele inteira formigar.

— Você trouxe a ferramenta certa? — brinquei.

— Só se você trouxe o alicate.

— Trouxe meu jeitinho.

Nos encaramos por alguns segundos antes de eu grudar nele com um beijo urgente, que começou na boca e foi descendo pelo pescoço, enquanto minhas mãos exploravam o peito dele por baixo da camisa. Ele me ergueu com facilidade, me sentando na bancada entre as ferramentas, o toque dele agora firme nas minhas coxas.

— Tô começando a achar que o galpão é o melhor lugar da fazenda — murmurei.

— Ainda nem começamos.

A boca dele voltou pra minha, as mãos deslizando por debaixo da minha blusa, provocando arrepios. E foi ali, no meio do clima mais quente da semana, que ouvimos.

CLOMP. CLOMP. CLOMP.

Passos apressados se aproximando do lado de fora.

— Hector! Bianca! Vocês tão aí dentro?! — Era a voz de Luke, ofegante.

— Eu vou matar — Hector sussurrou, ainda colado em mim.

— É sério! O Antony acordou chorando e tá chamando por vocês dois! Não sei o que aconteceu, mas ele tá desesperado!

Nos afastamos num pulo. Eu quase derrubei um martelo, ele tropeçou num saco de ração. Me recompus o mais rápido que consegui enquanto Hector grunhia baixinho, frustrado.

Abri a porta, tentando parecer casual.

— Já tamo indo, Luke!

— Desculpa, eu sei que vocês estavam ocupados com... ferramentas — ele disse, olhando de canto de olho, claramente sabendo mais do que devia.

Voltamos pra casa, derrotados. De novo.

Mas quando entramos no quarto mais tarde, Hector trancou a porta com uma chave improvisada que ele tinha arrumado não sei onde.

E me encarou com um olhar decidido.

— Chega. É agora.

Fechei a cortina, rindo.

— Então vem, meu fazendeiro vingativo. Vamos fazer história.

Bruto e  RústicoOnde histórias criam vida. Descubra agora