Capítulo 49

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A casa, enfim, estava silenciosa. Antony dormia no bercinho, os pais estavam trancados no quarto com chá de camomila, Mari foi  ver um filme no quarto de hóspedes, e Helen e Margareth estavam ocupadas costurando não sei o quê na sala.

Hector trancou a porta do nosso quarto com tanta vontade que quase arrancou a chave.

— Acho que conseguimos — ele disse, virando-se para mim com aquele sorriso de missão cumprida.

Eu já estava de camisola, cabelo solto, sentada na cama, esperando.

— Tem certeza? — perguntei, desconfiada.

— Se alguém bater aqui hoje, eu mudo de nome e fujo pra cidade — ele respondeu, já tirando a camisa.

— Olha... — falei, mordendo o lábio — se alguém te ver assim sem camisa, vão bater mesmo, mas é querendo entrar.

Ele riu e veio até mim, devagar, com aquele olhar que dizia "agora vai". Me puxou pela cintura, encostando a testa na minha.

— Bianca... se alguém atrapalhar a gente agora...

— Hector — interrompi, erguendo o dedo — se alguém bater na porta agora, eu mesma vou fingir que não ouvi. E se insistirem, a gente finge que tá dormindo. Juro.

— Você tá me prometendo isso? — ele arqueou a sobrancelha.

— Prometendo. Palavra de esposa desesperada.

E então ele me beijou. Devagar no começo, mas logo tudo virou calor, mãos, risadas abafadas, aquele toque de urgência de quem vive fugindo do mundo inteiro.

Até que...

TOC TOC TOC.

Paralisamos.

— Bianca... tá acordada? Era a voz de Luke. — O Antony acordou tossindo e... tá tudo bem, mas ele só quer você!

— Ah, pelo amor de Deus! — Hector soltou um grunhido e se jogou de costas na cama.

— Calma — falei, tentando não rir enquanto ajeitava a camisola de novo. — Ele é só um bebê... E eu sou a favorita, fazer o quê?

— Eu também sou seu bebê e tô aqui tossindo de saudade! — ele respondeu dramático, cobrindo o rosto com o travesseiro.

Fui até a porta, tentando parecer calma enquanto por dentro eu chorava de rir.

— Já tô indo, Luke!

Antes de sair, me virei para Hector:

— Quando a gente finalmente conseguir, você vai lembrar dessa noite com saudade.

— Eu vou lembrar dessa noite como o dia em que fui derrotado por um bebê de dois anos.

E assim seguimos: casados, apaixonados e eternamente interrompidos.

Mas a gente se provocava como se fosse nossa primeira vez. E isso, por enquanto, bastava.


                                                                                     (...)

Acordei com o sol invadindo o quarto pelas frestas da janela e um silêncio suspeito lá fora. Suspense puro. Sem choros de bebê, sem panela batendo, sem ninguém chamando meu nome. Fiquei acordada ontem a noite até um pouco mais tarde tentando fazer Antony parar de chorar, os dentinhos  dele estão nascendo e isso esta incomodando bastante.

Mas o que me acordou mesmo não foi o silêncio.

Foi um beijo. Bem ali, no pescoço.

— Hm... bom dia — murmurei, os olhos ainda fechados.

— Ah, então agora você tem tempo pra mim? — Hector sussurrou, beijando meu ombro dessa vez. — Porque ontem à noite eu fui deixado de lado por um rival de fralda.

— Antony tossiu! Eu sou a preferida dele, fazer o quê?

— Então hoje eu vou tossir até você me mimar também.

Abri os olhos e ele estava ali, deitado de lado, sorrindo com aquele olhar sacana.

— Você tá com esse olhar de vingança.

— Vingança? — Ele fingiu surpresa. — Eu? Nunca! Só quero garantir que hoje ninguém atrapalhe a gente.

— Hector, o que você fez?

Ele pulou da cama e correu até a porta, trancando com a chave e escondendo-a... dentro da cueca.

— Se quiser sair, vai ter que negociar — disse ele com aquele sorrisinho torto.

— Você tá brincando. — Me sentei, rindo. — Isso é sequestro!

— Isso é justiça, minha senhora esposa. Justiça por todas as noites interrompidas, por cada "espera só um minutinho, amor" que durou duas horas!

Me joguei na cama de novo, rindo alto.

— E o que você pretende fazer agora, seu sequestrador de araque?

Ele veio até mim, se apoiou com os braços de cada lado do meu corpo e falou com a voz grave:

— Tô considerando alternativas bem criativas. E todas envolvem você e essa camisola aí.

— Hector!

— O quê? Tô sendo sincero! Não quero mais ser vencido pelo bebê, pela Mari, pela Margareth, pelo raio do galo da fazenda!

— Ok, então me convence.

Ele me olhou como se eu tivesse acabado de lançar um desafio pessoal. E você conhece o Hector... desafio aceito.

E justo quando ele ia provar o ponto dele com argumentos sólidos — e beijos mais ainda —...

TOC TOC TOC.

— Hector? Bianca? A Helen fez pão de queijo, quer que leve aí?

Ele se jogou de novo na cama, de cara no travesseiro, murmurando:

— Esse lugar é amaldiçoado.

— EU ACEITO O PÃO DE QUEIJO! — gritei, antes de cair na gargalhada.


Bruto e  RústicoOnde histórias criam vida. Descubra agora