Capítulo 54

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Naquele mesmo fim de tarde, enquanto o resto da casa se ocupava com as tarefas de sempre, eu e Hector estávamos sentados na varanda, dividindo um copo de suco gelado e os planos de fuga.

— E se a gente for pra aquele chalé da sua tia? — sugeri, olhando o céu começar a se pintar de laranja. — Aquele no meio do mato, sem sinal, sem vizinho, sem barulho...

— Sem interrupções — ele completou, me lançando um olhar malicioso.

— Exatamente.

Ele pegou o celular e começou a digitar.

— Vou mandar mensagem pra ela agora. Se tiver disponível, a gente já arruma as malas amanhã.

— Acha que vamos conseguir escapar sem levantar suspeitas?

Hector me olhou como se fosse óbvio.

— Bianca, se eu conseguir manter a Mari distraída e a Helen focada no Antony, o Luke nem vai notar que a gente sumiu. Vai ser um plano de guerra, mas eu tô disposto a correr o risco. Pela pátria e pela paz conjugal.

— Ah, um herói — brinquei, me debruçando no braço dele. — Vamos inventar uma desculpa boa. Tipo... uma feira agrícola. Ou um workshop de criação de galinhas caipiras.

— Ou um retiro espiritual pra casais. "Conexão do campo ao coração", algo assim.

— A cara da gente — respondi, rindo.

No fundo, sabíamos que ninguém ali ia realmente impedir. Mas manter a aparência de normalidade fazia parte do jogo.

— Agora sério — ele disse, pegando minha mão —, a gente precisa disso. Só eu e você. Nem que seja por dois dias. Sem despertador, sem batidas na porta, sem pão de queijo invadindo a madrugada.

— Com muita vingança acumulada.

Ele riu, puxando minha mão até os lábios.

— Com todas as dívidas a serem cobradas. Com juros.

No dia seguinte, logo após o almoço, Mari entrou na cozinha com uma caixa de roupas do Antony, enquanto eu fingia não estar empolgada dobrando umas camisetas minhas.

— Vai viajar? — ela perguntou com um sorrisinho suspeito.

— Um final de semana só. Eu e o Hector. Coisa rápida. A gente precisa... respirar.

Ela ergueu as sobrancelhas, claramente segurando um comentário indecente.

—Ahhh, entendi. Respirar. Com bastante intensidade, né?

Joguei uma toalha de rosto nela e Mari caiu na gargalhada.

— Vai tranquila, amiga. A gente segura as pontas por aqui.

Sorri, grata por ela entender — e torcendo pra que ninguém mais resolvesse bater na porta no meio do caminho.

O chalé nos esperava.

E se tudo desse certo... ninguém ia sair ileso dessa viagem.

Nem eu, nem ele.

Só amor. E um pouco de malícia.

Bruto e  RústicoOnde histórias criam vida. Descubra agora