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Paiva
O som das batidas fazia o chão tremer. A luz piscava no ritmo da música, e a multidão gritava meu nome.
Era pra ser só mais uma participação, mais um show qualquer, mas no fundo, eu sabia que não era.
Seu nome estava ali. Eu tinha visto nas redes que ela ia pra essa festa. E por mais que eu tentasse disfarçar, meu peito ainda apertava só de ouvir o nome dela.
"valeu família, essa vai pra geral que já amou de verdade!", eu disse no microfone, tentando parecer firme.
Mas quando olhei pro meio da pista, meus olhos travaram. Ela tava ali, linda e sorrindo com aquele mesmo brilho que me desmontava. E eu, como um idiota, quase errei o tempo da música.
Continuei o show, fingindo que não via. Mas quando a última batida tocou e eu desci do palco, o clima mudou e foi muito rápido que tudo isso aconteceu.
De longe vi um cara segurando o braço dela, puxando sem querer soltar. Ela tentava se afastar, mas ele insistia, e quando ele tentou forçar um beijo, meu sangue ferveu.
Nem pensei, só fui.
Empurrei ele com força pra trás, a raiva me dominava.
-- qual foi, mano? tá maluco?! -- gritei, com o coração acelerado.
O cara tropeçou, tentando se justificar, mas eu nem ouvi. Fiquei entre ele e seu nome, sentindo o corpo inteiro pulsar de adrenalina.
-- encosta nela de novo e eu juro que tu não levanta, parceiro -- falei firma encarando -- vaza daqui!
Ele levantou as mãos, murmurando algo, e sumiu no meio da multidão.
Quando virei pra ela, me acalmei e meu tom mudou.
-- ce tá bem? -- perguntei, mais baixo agora.
A mais nova respirava fundo, visivelmente assustada.
-- tô.. tô sim. obrigada!
Ela tentou sorrir, mas eu vi o tremor nas mãos dela. Sem pensar, toquei seu braço, devagar.
-- ei, olha pra mim! -- falei olhando nos olhos dela -- já passou, tá?
Por um segundo, tudo ficou em silêncio. O barulho da festa sumiu, e só existia a gente ali.
A lembrança de tudo que já fomos veio como um soco - os risos, as brigas, o fim.
-- ce ainda é o mesmo -- ela disse, com um meio sorriso, como se não soubesse se agradecia ou brigava comigo.
Eu dei uma risadinha curta, tentando disfarçar o nó na garganta.
-- e você ainda se mete em confusão, né? -- brinquei, meio sem graça.
Ela riu baixo, e aquele som ainda tinha o poder de me desmontar.
-- obrigada, de verdade! -- repetiu, antes de se virar e voltar para as amigas.
Fiquei ali parado, vendo ela se afastar. Parte de mim queria correr atrás, dizer que ainda pensava nela todos os dias. Mas a outra parte sabia que talvez já fosse tarde demais.
Então só fiquei observando, com o coração batendo fora do compasso.
Depois que tudo se acalmou, eu tentei voltar pro camarim fingindo que estava tudo bem.
Mas a cabeça não parava.
A imagem dela assustada, o jeito que olhou pra mim, aquilo ficou rodando na minha mente como se a cena tivesse presa ali.
Encostei na parede, respirei fundo e peguei uma garrafa d'água. E tentei falar pra mim mesmo que tinha acabado e precisava esquecer ela.
Mas esquecer seu nome nunca foi algo que eu soubesse fazer.
De repente ouvi batidas na porta, que me tiraram dos meus pensamentos.
-- Davi? posso entrar? -- a voz era dela.
Meu coração travou por um segundo.
-- claro que pode! -- respondi, tentando parecer calmo, mas a voz saiu rouca.
Ela entrou devagar, ainda com o cabelo bagunçado pela confusão, mas linda do mesmo jeito.
-- eu queria te agradecer direito -- disse, parada ali, sem saber se chegava mais perto.
-- não precisa agradecer, seu nome. eu só.. não ia conseguir ver aquilo e ficar parado -- falei, coçando a nuca.
Ela assentiu, olhando pro chão.
-- mesmo assim, obrigada!
Silêncio. Um daqueles que diz tudo o que a gente não consegue.
-- faz tempo que não te vejo de perto assim -- ela disse, por fim -- parece que o tempo passou, mas ainda é o mesmo olhar.
Dei um leve sorriso.
-- e você ainda tem o mesmo jeito de me deixar sem saber o que falar.
Ela sorriu, pequeno, mas sincero. E deu dois passos, pra frente.
-- sabe o que é engraçado? Eu vim pra essa festa achando que nem lembrava mais o que sentia. E agora tô aqui, sem saber o que fazer com tudo que voltou.
Senti o peito apertar.
-- eu também nunca consegui desligar isso, só tentei não pensar mais.
Ela levantou o olhar, e naquele instante, o ar pareceu sumir do camarim. Sem pensar, dei um passo à frente. Ela não recuou.
-- davi.. -- ela murmurou, mas a voz falhou.
-- eu senti sua falta -- falei baixo, e a frase saiu antes mesmo que eu decidisse dizer.
Ela respirou fundo, e antes que eu conseguisse pensar em qualquer outra coisa, ela se aproximou e me abraçou. Firme. Sincero. Como quem tava segurando algo que esperou muito tempo pra ter de volta.
Fiquei ali, com o rosto encostado no cabelo dela, sentindo o cheiro que eu já tinha decorado.
-- eu não sei o que vai ser da gente, mas.. -- ela começou.
-- a gente vê isso depois, agora só fica aqui! -- interrompi, apertando um pouco mais o abraço.
E pela primeira vez em muito tempo, o barulho do mundo lá fora não importava.
Só existia ela, ali nos meus braços, e a sensação de que talvez… talvez o destino tivesse dado mais uma chance pra gente.
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