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Traplaudo
Era quase meia noite quando terminei de gravar a última faixa no estúdio improvisado no apartamento. O beat pesado ainda ecoava pelas paredes, mas o vazio no peito fazia mais barulho do que qualquer coisa.
Joguei o fone de lado, puxei o capuz e larguei o copo no sofá. No meu celular, várias notificações, mas nenhuma era dela. Última mensagem? "boa sessão, amor. te espero aqui, se der!"
Mas eu sabia que não ia dar. Ela tava viajando a trabalho. E eu, tava carente. Carente de verdade.
Acendi um baseado, peguei o celular e entrei no WhatsApp. Abri a conversa com a minha mulher e comecei a gravar um áudio, como se estivesse rimando direto do coração.
-- e aí, bebê! sei que você tá focada nas suas paradas aí, mas hoje o corre tá diferente. O estúdio tá cheio de som, mas minha cabeça tá vazia sem você. Sabe aquele verso que escrevi ontem? Era pra você. Tô com saudades do teu cheiro, do teu riso bagunçado, até da tua bronca quando eu deixo a luz acessa no quarta. Cola logo, tô precisando da tua energia aqui.
Enviei sem nem pensar muito. Era isso ou explodir.
Minutos depois, uma mensagem de voz chegou. Ela me respondeu com aquela voz calma que contrastava com o caos da mente dela:
-- eu também tô com saudades, meu amor. Sabe o que é pior? Eu ouvi a prévia da tua faixa no vídeo do produtor.. e chorei ouvindo teu verso. Vontade de largar tudo e ir aí te abraçar.
Naquela noite, nem o beat mais pesado batia mais forte que o meu coração ouvindo a voz dela.
🗓
Dois dias depois, o sábado amanheceu chuvoso, e eu me arrastava pela casa. Tava de moletom, capuz na cabeça, comendo miojo de panela. O estúdio estava desligado. A música estava pausada - só ela que seguia tocando na minha cabeça.
A campainha tocou. Achei que fosse o entregador de lanche que eu nem lembrava ter pedido.
Abri a porta com cara de zumbi e travei.
Era ela. Mala na mão, olhar cansado, mas sorrindo.
-- oi, amor. tô aqui!
Arregalei os olhos, dei dois passos para frente e puxei ela para o peito, apertado.
-- tu não existe.. -- Sussurrei no ouvido dela -- sério, tu é a minha paz!
-- eu precisava voltar. Te ouvir de longe tava doendo mais que saudade.
-- te ver aqui cura mais que qualquer track de milhões.
Ela sorriu, encostada no meu peito.
-- agora me mostra essa música que cê fez e não quis mandar completa.
Então fomos pro estúdio, lado a lado. Eu dei o play, e quando a voz dela entrou no refrão, olhei pra ela como se já tivesse visto o clipe inteiro dentro da mente.
-- quero gravar isso com você, Matheus. A gente junto. Quero mostrar o lado que ninguém vê do trap: o sentimento.
Puxei ela pela cintura, com um olhar cheio de intensidade.
-- então bora. Porque agora esse som tem alma, e ela tem seu nome.
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