Caos

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Miami tinha o céu nublado naquela manhã, sinalizando que o inverno estava prestes a chegar e, por isso, o tempo mostrava certa instabilidade. Ora o sol brilhava, ora a chuva caía, embora a temperatura fosse sempre agradável durante o outono. O acinzentado foi visto de óptica familiar para Karla, já habituada com a poluição da Índia.

Essel pôde deliciar-se com um saboroso café da manhã vegano, que foi um afago para a fome que sentia após a maçante viagem. Apesar do desjejum, foi privada de um diálogo com Lauren, que manteve-se monossilábica durante o trajeto e durante toda a refeição da sócia, assim como no caminho para o Coral Gables. Ela estava nitidamente constrangida e tensa desde que deixaram o Mutiny, e a indiana conseguia captar cada detalhe sem que parecesse que era esperta o suficiente para compreendê-los.

Era inevitável a confusão que sentia fervilhar em sua mente, mas a obviedade de que algo errado estava acontecendo a fazia atentar-se a tudo, a fim de juntar as peças e tirar suas conclusões. Sendo uma nata enigmatista, o seu grande desejo havia passado a ser decifrar o maior enigma que surgira em sua vida, e lá estava ele, diante dos seus belos olhos amendoados.

Normani havia prestado o auxílio que Lauren lhe solicitou por telefone e arranjou uma maneira de organizar o apartamento em menos de duas horas, quando enviou à amiga uma mensagem confirmando que tudo estava pronto para receber a hóspede. No instante em que se preencheu pelo alívio de saber que o seu plano havia dado certo, Lauren abriu mão da vagarosidade que mantinha para ganhar tempo e acelerou o veículo, fazendo com que sua passageira estranhasse a brusca mudança de velocidade.

Em poucos minutos sobre a fúria das rodas que Lauren guiava, elas chegaram ao destino e, após estacionar o carro na entrada do prédio, Jauregui desceu, chamando, em seguida, pelo recepcionista do turno. Karla saltou posteriormente, quando contentou-se com o fato de que a sócia não faria-lhe a gentileza de abrir a porta, ainda que aquilo não fosse uma regra. De certa forma, a ideia passou ligeiramente em torno de seus pensamentos, por ser, talvez, um interno desejo.

— Gerald, preciso que leve estas bagagens para o elevador subterrâneo, já que ele é mais espaçoso. — Lauren informou, ofegante e acelerada, enquanto retirava as malas do bagageiro do carro.

— Bom dia, senhorita Jauregui. Como quiser!

O jovem consentiu e pediu ajuda à outro funcionário, que passou a carregar as bolsas e malas para a garagem privativa de Lauren. Ela, por sua vez, pediu para que o manobrista posicionasse o carro para a saída, alegando que não demoraria a voltar, e seguiu para a entrada do cômodo.

— Me acompanhe, Karla.

A mulher observava tudo para entender exatamente onde estava, já que Lauren não havia feito uma prévia reserva de hotel e, ainda que Miami fosse bem estruturada para propiciar facilidades, o turismo tem tanta predominância no local que os hotéis estão sempre cheios e com quartos reservados, diminuindo as chances de que melhores acomodações sejam encontradas de imediato. Naquela situação isso não seria diferente. As placas do Gables Condominium passaram despercebidas por ela, já que eram discretas e que a sua atenção também estivesse voltada para quem lhe interessava naquele momento. Viu o quanto o lugar era grande, bonito, com um jardim tropical repleto de plantas, flores e fontes, o que fez seus olhos brilharem. Era aconchegante e parecia seguro, inclusive, pela presença de diversos seguranças que circulavam por toda a parte ou que mantinham-se estáticos em suas posições de alerta.

Caminhou logo atrás de Lauren e adentrou à garagem, que teve as luzes acesas automaticamente, na sequência, expondo os diversos carros esportivos e de luxo estacionados lado a lado. Alguns estavam cobertos por capas e outros descobertos, exibindo a beleza dos detalhes, na pintura, nas rodas e nos itens personalizados de cada um deles. A paleta de cores era neutra, com veículos pretos, cinzas, brancos e perolados. A indiana não hesitou em tecer comentários, já que sentia-se em um autódromo.

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