Obsessão

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Escritório de Lauren Jauregui – 08:15 AM

A porta se fechou. O trinco girou. E, de repente, o mundo lá fora — a Bacardi, Lucy, a imprensa, Michael — deixou de existir. Lauren estava de pé, encostada na borda de sua mesa de mogno maciço. Ela parecia ter dormido pouco. Havia sombras leves sob os olhos verdes, mas a maquiagem impecável e a postura rígida tentavam mascarar o que quer que estivesse acontecendo em sua corrente sanguínea.

Karla parou no centro da sala. Ela usava um sári de tecido fino em tons de azul-marinho, com bordados prateados discretos. Segurava o tablet contra o peito como um escudo.

— Você veio. — Lauren disse, surpresa. A voz saiu rouca, baixa.

— A senhorita pediu. — Karla respondeu, mantendo a formalidade. — E concordamos em nos comunicar.

Lauren soltou um suspiro curto pelo nariz e descruzou os braços. Caminhou até a pequena mesa de centro onde havia uma garrafa de água e dois copos.

— Senta, Karla. Por favor. Parece que está prestes a fugir.

Karla hesitou, mas sentou-se na poltrona de couro.

— Fugir? Igual você, no seu apartamento? Ah, não. — alfinetou-a, com certa ironia. — Não pretendo fugir, Lauren. Apenas aguardo o tópico da conversa.

Lauren serviu água para si mesma. Suas mãos tremeram levemente — um tremor quase imperceptível para quem não a conhecesse, mas Karla, com seus olhos de águia treinados no silêncio, notou.

— O tópico é o seguinte: — Lauren virou-se, apoiando o copo na mesa sem beber. — A reunião de ontem foi um curativo. Hoje, vamos lidar com a infecção.

Karla franziu o cenho.

— Infecção?

— Política. — Lauren disse a palavra como se fosse um palavrão. — Meu pai recebeu um telefonema nas últimas horas da noite. Do gabinete do prefeito Francis Suarez. E, indiretamente, uma "saudação" de Tallahassee. Do governador DeSantis.

Karla endireitou-se imediatamente. Ela conhecia política. Na Índia, a Essel navegava entre ministros e burocracia com a fluidez de quem paga o preço necessário. Mas ali, em solo americano, as regras eram outras.

— O que eles querem? — Karla perguntou, pragmática.

— O que todo político quer quando vê dinheiro novo entrando no estado. — Lauren riu, amarga. — Querem saber "como podem ajudar". O que, traduzindo do dialeto da Flórida, significa: "Quanto vamos ganhar para não embargar as licenças de construção da nova sede da Essel?"

Karla sentiu o estômago esfriar.

— Eles podem bloquear a construção?

— Eles podem fazer pior. Podem atrasar alvarás, criar inspeções sanitárias surpresa, mobilizar sindicatos contra nós, vazar para a imprensa que a "empresa indiana" não segue as normas ambientais americanas. — Lauren começou a andar de um lado para o outro. — Suarez quer um almoço. Hoje. Com nós duas.

— Hoje? — Karla piscou. — Mas a agenda...

— Dane-se a agenda. — Lauren parou na frente dela. — Se não formos a esse almoço e beijarmos o anel deles, a inauguração da semana que vem vira um pesadelo burocrático.

Karla processou a informação. A política americana era tão predatória quanto a indiana, apenas usava ternos mais caros e sorrisos mais brancos.

— Eu irei. — Karla disse, firme. — Sei lidar com homens poderosos que acham que podem nos intimidar.

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