37. Ethan.

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Antes.

Faziam dois dias desde que ela foi embora e dois dias desde a morte do meu pai. O processo até sua morte foi cruel. Ele gritava e corria atrás de mim, ameaçando fazer coisas terríveis. Não era um morto-vivo comum. Era um tipo diferente de monstro: consciente, mas longe de ser humano. Meu pai gritava meu nome, me chamava de filho, mas não nutria mais nenhum amor por mim. Quando o enterrei no quintal, ao lado do canteiro de flores a qual dedicou à minha mãe, algo em mim já não era mais o mesmo. O amor que sentia por Alice já não parecia existir mais. O ódio tinha tomado o lugar daquele sentimento. Eu a culpava por matar meu pai e mais ainda por ter ido embora.


Pensei em ficar no que um dia foi a minha casa, mas já não me restava nada ali. Meditei sobre minhas opções: me matar, matar Alice...sobreviver. Pensei no que meu pai pediria a mim e escolhi a última opção, por mais vazia que me parecesse. Depois de meses infernais e sem propósito, decidi juntar a segunda opção e a última. Minhas noites sozinho pararam de ser apenas vazias, as preenchi com cenários cruéis onde encontrava Alice e a matava. Fantasiei sua morte centenas de milhares de vezes, mas nunca desejei realmente encontrá-la, era apenas um tipo de carga para continuar vivo.

No que deveria ser o quinto mês sozinho, encontrei um grupo de homens fortemente armados. Não pude correr e nem me esconder, então abaixei as armas e fechei os olhos, esperando boa e velha morte. Alguns soltaram risadas e outros sussurram entre si sobre me matar. Escutei a voz do meu pai me lembrando de lutar, mas o ignorei. De que valia lutar?

- Você quer morrer, garoto? - A voz familiar logo atrás de mim me fez virar abruptamente.

Negan.

- Esse é um arco bem bonito, o que está usando. - Disse ele quando eu não respondi nada.

- Pode ficar com ele se quiser.

- Mas dai como você me daria seus serviços? - Negan riu. - Não, garoto, eu não vou matar você. Eu estou mais interessado no que você pode me oferecer. Meu nome é Negan e eu conheço você. E você também me conhece, não conhece, menino soldado?

- Conheço. Você encontrou sua filha?

- Filha?

- Alice. - O nome saiu engasgado da minha boca.

- Alice... - Negan refletiu por alguns segundos. Pareceu culpado, mas essa culpa sumiu tão rápido que parecia falsa. - Ela estava com você?

- Já faz muito tempo.

- E o que aconteceu?

- Meu pai morreu e ela sumiu.

- Acha que ela está morta?

- Deve estar. E a mãe dela?

Negan deu um aceno de cabeça. Culpa estampou seus olhos por um tempo mais longo, mas sumiu também como se nunca tivesse existido.                                              

- Temos um lugar pra você, garoto. É só escolher se ajoelhar.

Aceitei sem hesitar. Talvez eu pudesse achar naquele grupo um motivo pra continuar. Aceitei e depois descobri que deveria ter escolhido morrer.

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Agora.

- Você está agindo como uma idiota. - Digo e coloco a bandeja com sanduíche de carne de porco e um copo de água no chão, aos pés dela.

- E isso teria algo a ver com você por quê...?

- Se não quiser que o Negan estoure a cabeça de mais um amigo seu, principalmente o da besta, é melhor colaborar, ser um pouco mais legal e admitir se tem ou não tem envolvimento.

- Grande conselho, mas não. Acho que prefiro dar ao papai o sabor da dúvida. - Respondeu ela, arrancando um pedaço do sanduíche com os dentes. Ela cobriu a cicatriz com a mão livre, então desviei o olhar de seu rosto para o chão.

Eu não sabia de onde aquela cicatriz tinha saído. Imaginei inúmeros motivos, mas não perguntei. Não deveria me importar.

- Então vai ficar presa nessa cela o resto da semana. - Respondi um pouco rude. - Negan disse que você vai ficar até resolver falar.

- Que pai carinhoso eu tenho! Inclusive quando encontrar com ele, diga que vou arrancar as bolas dele e fazê-lo comer caso ele não esteja sendo legal com a Maeve.

- Está aí seu guia para a sanidade: se ama mesmo a menina, colabore. Não finja que seu joguinho de arrogância vai te levar a algum lugar. - Minhas palavras pareceram surtir algum efeito, porque eu vi Alice fazer algo raro como ficar em silêncio.

- Não ajudei Daryl a fugir. - Disse em um tom cabisbaixo. Era estranho vê-la utilizando outra forma de comunicação além de socos e sarcasmo. - Não sei onde ele está, mas espero que esteja bem longe.

- Já é um bom começo. Vou falar com ele. - Virei as costas, mas quando estava prestes a sair, Alice agarrou a barra da minha calça.

- Negan vai matar os meus amigos?

- Ele sempre irá matar alguém, seja do seu grupo ou dos outros. - Respondi a verdade nua e crua.

- O que eu deveria fazer então? Ele não se importa com o que eu penso. Não se importaria nem se eu fosse obediente. Não sei como protegê-los.

- Não tem nada que possam fazer. Esse mundo é do Negan. Só obedeçam.

- Poderia ser meu, se eu contasse da minha imunidade.

- Você tem uma cura?

- Ainda não, mas...

- Então você não serve para nada. É só uma assassina, um peão e uma escrava do Negan. Aceite, Alice, as coisas não vão ficar melhores que isso.

- Então eu vou matá-lo. Se um acordo não resolverá nada, posso matá-lo. Eu posso.

- Eu não acho que consiga. Vou dizer ao seu pai que você resolveu colaborar. Vou dizer que prometeu não atacar mais ninguém também.

- O que é mentira.

- Você é mesmo idiota. Você é filha do chefe, pode ter tudo que quiser.

- Mas não posso salvar meu grupo.

- Sua única obrigação é manter a Maeve viva. O resto do seu grupo pode sobreviver obedecendo e se curvando ao Negan.

- Isso não é viver.

- Mas é melhor que morrer. Não seja burra, Alice. E pare de tentar carregar o peso do mundo nas costas. - Disse e sai, trancando a porta atrás de mim antes que ela pudesse falar mais algo.

Chegando no meu quarto, me joguei na cama, revivendo sem parar o momento em que Alice puxou minha calça, precisando de mim. Revivi várias e várias vezes até parecer tosco e sem sentido. Fiquei com raiva dela por me fazer me sentir idiota. Então voltei a imaginar a cena que me fazia acordar todos os dias: Eu estou na floresta andando. Alice está na minha frente. Ela ouve meus passos, se vira sorrindo e então eu atiro uma flecha que perfura o meio de sua testa. 


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Bom dia, pessoas, quanto tempo! Não escrevo fazem décadas, mas enfim tive inspiração para continuar.

Como vocês estão? Aproveitando o carnaval? Infelizmente aqui em Saint Catherine, especialmente na cidade que moro, as coisas são bem, beeeeem paradas, então sigo na minha casa.

Enfim, apesar do capitulo curto e enferrujado, espero que tenham gostado. Eu queria muito mostrar esse lado do Ethan e seu conflito interno entre amar e odiar a Alice.

bem, é isso. Votem e comentem se gostaram e se não gostaram please não me xinguem. Bjos e até o proximo

𝐋𝐞'𝐑𝐨𝐮𝐱 - 𝐂𝐚𝐫𝐥 𝐆𝐫𝐢𝐦𝐞𝐬.Onde histórias criam vida. Descubra agora