Capítulo Dezessete

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                                                                       Traumas e charadas



-Depois que você contou sua historia cheguei a conclusão que você não deveria se dar muito bem com dias de chuva. O fato é que eu também tenho um "trauma climático". Quando era pequena, as crianças do meu bairro se juntavam para brincar na neve no dia do natal pois era o único dia em que nossos pais nos deixavam ficar na rua o dia inteiro e isso para nós era fantástico. O único problema era que eu sempre era excluída de todas das brincadeiras. Como a maioria das famílias do bairro tinham uma boa situação financeira, no final do ano todas as crianças estavam sempre bem vestidas exibindo suas roupas legais e coloridas, enquanto eu vestia as mesmas roupas sem graças de sempre. Nenhuma das crianças queria brincar com a garota estranha que não tinha roupas novas, e nem uma casa na arvore. Sempre que eu tentava me aproximar elas saiam correndo como se eu fosse uma E.T simplesmente por ser a unica criança a usar óculos, mas é claro não era minha culpa, afinal sem eles eu não enxergava um palmo a minha frente. Enquanto as outras crianças ganhavam bonecas falantes,carros de controle remoto eu ganhava presentes bem mais simples como quebra-cabeças, livros, ou as vezes um novo par de óculos quando os meus já estavam completamente remendados com fita adesiva. Minha mãe sempre dizia que eu não deveria invejar as coisas das outras crianças, mas sim, me contentar com o que eu tinha, pois na vida a gente nasce sem nada, e morre sem levar nada também, e de certa forma eu não me importava mesmo em não ganhar brinquedos legais. A única coisa que me machucava, era ter que passar o natal inteiro dentro de casa olhando pela janela, vendo todas aquelas crianças brincando umas com as outras e não poder desfrutar daquilo. Desde então, eu sempre fico muito mal sempre que vejo a neve e não consigo sair de casa no dia do natal. Meus pais sabem disso e sempre tentam me levar para passear pela cidade para que eu possa me sentir melhor e confesso que isso me ajuda bastante. Foi por isso resolvi trazer você pra jantar aqui.

Fiquei surpreso com o que ela havia me contado. Até então eu só sabia apenas que quando ela era pequena não tinha uma casa na arvore, mas na verdade Sarah havia tido uma infância tão difícil e isolada quanto a minha. Pensei em dizer "sinto muito" mas isso não fazia o meu tipo, e nem o de Sarah que detestava alguém sentindo pena dela.

-Crianças imbecis, perderam a chance de ter uma amiga que poderia ter ajudado eles  tirar 10 em todas as matérias na escola.

Ela sorriu.

-Nisso eu preciso concordar com você, pois a cada ano os presentes deles eram cada vez piores por causa das notas na escola. Passavam tanto tempo brincando que nem ligavam para os estudos, ao contrário de mim que vivia em casa devorando os livros.

-Sério? Também era uma criança devoradora de livros pensei que fosse o único nessa. Toca aqui parceira.- estendi minha mão com o punho fechado. Ela deu um soquinho de volta e sorriu.

-Pois é, pena que não nos conhecemos nessa época, eu poderia vir brincar nessa sua casa na arvore e aproveitar pra te ajudar a estudar.

Encarei ela.

-Qual é Sarah, nós dois sabemos que eu é quem iria te ajudaria a estudar, sou melhor que você em ciências naturais.

-Ah não é mesmo!-disse ela rindo.

-Quer apostar?-disse com um sorriso

-Valendo o que?

-O maior pedaço de torta holandesa que esta la na geladeira.

-Feito.

-Certo. As regras são as simples, cada um tem que fazer perguntas ao outro relacionadas a ciências naturais e o outro deve responder em até 30 segundos. Quem não souber a resposta, responder errado, ou fizer uma pergunta que não tenha a ver com o tema perde.

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