Verdades reveladas
Só quem já sofreu a maior perda de suas vidas saberá como eu me senti naquele dia. Digo isso pois nem mesmo se eu tivesse perdido um dos membros do meu próprio corpo talvez até todos eles, nem mesmo assim creio que a dor seria mais profunda do que aquela que eu estava sentindo. A dor física queima, fere e sangra e leva a dor através dos nossos nervos diretamente para o nosso cérebro que segundo após segundo suplica para que aquilo tenha fim, mas a dor do espírito aje diretamente de dentro, da fonte de onde emana nossas dores, não há tempo para sentir dor ou para sangrar e o desejo que tudo tenha fim vem mais depressa do que possamos imaginar.
Eu nunca pensei que um dia entraria em depressão, mas esta veio tão rapidamente que não tive tempo para me preparar para ela. Passei os dias seguintes confinado no meu quarto deitado no chão frio tão imóvel quanto um ser sem vida. Foram apenas alguns dias mas pareceram anos. Eu não queria ver o rosto de ninguém, não queria ouvir a voz de ninguém, eu não queria nem mesmo ouvir a minha própria voz. Eu tinha uma capacidade incrível em passar horas e horas apenas pensando, como se eu fizesse uma viagem dentro de meus próprios pensamentos e dessa forma conseguia me teleportar para os lugares mais distantes ou até mesmo inexistentes sem sair do lugar. Foi como se minha mente criasse um resumo de todos os fatos da minha vida, presente, passado e futuro. Por mais que algumas coisas ainda me trouxessem um pingo de esperança em meu futuro o que eu mais queria era encontrar dentro de mim uma forma para que toda aquela dor encontrasse um fim. Confesso que nunca havia sentido tanto desejo de conhecer a morte quanto naqueles dias. Já não via razão alguma para continuar vivendo e diversas pessoas que eu amava já haviam partido, talvez aquela fosse de fato a melhor escolha, quem sabe até a chance de um novo começo pois o destino que nos aguarda após a morte é tão incerto quanto o que veio antes da vida.
A incerteza do que fazer naquele momento me levou a inércia. Uma inércia tão grande que se não fosse por Steve que durante as madrugadas jogava algumas barras de cereais por debaixo da porta do meu quarto eu certamente teria morrido por falta de nutrientes pois não tinha forças nem motivo para me levantar do chão. A cada dia meu corpo sofria arduamente fazendo com que minha dor se exteriorizasse. Por mais que algo dentro de mim me dissesse que eu precisava continuar vivendo eu não via razão alguma para isso.
Após torturar a minha própria mente por longas 72 horas, no final do terceiro dia de confinamento decidi que era hora de encarar os fatos. Porém, o Brandon que saiu daquele quarto não era mais o Brandon antigo, egocêntrico e confiante e muito menos o Brandon pós Sarah Grace, gentil e generoso, não, o Brandon Fletcher que saiu por aquela porta naquele dia era um novo homem. Um homem vazio, sem presente, passado ou futuro. Um homem que não tinha nada a perder.
Steve ficou assustado quando me viu saindo pela porta do quarto. Ele manteve seus olhos fitados em mim mas não disse absolutamente nada, o que foi completamente sensato da parte dele pois eu poderia muito bem arrancar sua cabeça com as minhas próprias mãos caso alguma vírgula que ele dissesse não me agradasse. Fui até a cozinha apanhei uma garrafa de agua e bebi ela por inteira. Apoiei meus braços no balcão e fechando os olhos respirei fundo. Eu havia tentado apagar toda minha memória dos últimos meses que eu havia vivido, mas não era uma tarefa fácil, principalmente para alguém que possuía uma memória tão boa. Foi quando olhei para o lado e avistei outra garrafa de whisky. Aquela havia sido a droga que havia me levado a dor mais profunda que eu já havia sentido na vida, por mais que eu a odiasse de certa forma, aquilo não importava mais. O vício é como uma areia movediça, uma vez que você se afunda por completo não faz diferença se você irá engoli-lá ou não, o seu fim já foi declarado. Apanhei a garrafa e me tranquei novamente no quarto e então passei a noite inteira bebendo aquele líquido tórrido e devastador que havia arruinado minha vida na esperança de que dessa vez ele me fizesse esquecer definitivamente de tudo, tanto das coisas ruins como também das boas, esquecer de todos que eu havia conhecido, e principalmente me esquecer definitivamente de quem eu era.
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O Cara
RomanceBrandon Fletcher é herdeiro de uma enorme fortuna. Além de um excelente quarterback e viver em uma mansão rodeado por carros de luxo, festas e garotas lindas, também possui uma aparência invejável. Se isso não fosse o bastante, ainda é extremamente...
