Capítulo Quarenta e Nove

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Adeus em dose dupla


Já faziam cerca de dez minutos que eu estava sentado no vestiário. Todas as luzes estavam apagadas e eu estava acompanhado apenas pela escuridão. Ainda era possível ouvir as pessoas comemorando a nossa vitória lá fora mas minha mente nao conseguia se importar com aquilo. Desde o momento que eu havia receido a notícia da morte de Diggory até o momento que vencemos a partida eu nao havia tido um tempo para colocar para fora tudo o que eu estava sentindo. Eu estava tentando suportar tudo aquilo pois sabia que precisávamos vencer aquele jogo, mas agora que tudo havia finalmente terminado e minha missão havia sido cumprida, eu não tinha mais como fugir dos meus sentimentos.

A tristeza que consumia meu coração por dentro logo começou a se exteriorizar tão rápido como um tsunami. Meus olhos foram rapidamente tomados por lágrimas e logo me vi encolhido em cima de um banco com a cabeça entre os joelhos gritando na esperança de conseguir tirar de dentro de mim toda aquela dor. Foi quando escutei um barulho de passos vindo em minha direção. Certamente era o treinador ou algum jogador do time que vinha me chamar para receber o troféu. Permaneci imóvel na esperança de, quem quer que fosse, desse o fora e me deixasse ali sozinho chorando. Eu não queria ninguém por perto naquela hora. Notei que os passos cessaram. Alguém sentou ao meu lado e entrelaçou seus braços em mim e no mesmo instante mesmo sem vê-la eu soube que era ela. Abri meus olhos e abracei. Ela me recompensou com um abraço acompanhado por lágrimas. Pensei em perguntar o que ela estava fazendo ali mas era óbvio. Mitchel provavelmente havia entrado em contato com Sarah e ela havia ido ate o estádio e aguardado o fim da partida para me encontrar. Eu sentia meu ombro começando a ficar úmido por conta das lágimas dela. Nosso choro era silêncioso porém constante. A perda de Diggory parecia ter abalado Sarah tanto quanto eu. Depois de alguns minutos de choro constante nossos olhos finalmente deixaram de lacrimejar. sentamos lado a lado e ficamos de mãos dadas, ainda em silêncio.

Sarah apertou forte minha mão e olhou nos meus olhos. Seu rosto assim como o meu estava vermelho por conta das lágrimas . Ela secou uma lágrima, deu um leve sorriso e imitou a voz rouca de Diggory.

-Rapaz, você está parecendo uma mocinha chorona.

Comecei a rir e ao mesmo tempo continuava a chorar e por mais que a imitação dela havia sido péssima ela retratava exatamente o que Diggory diria se estivesse me vendo naquela situação. Ele sempre dava um jeito de dizer o quanto os garotos de hoje em dia são frágeis e sem masculinidade. Percebi que aquilo era algo do qual eu iria sentir muita falta.

-Só espero que ele esteja em paz.- consegui dizer.

-Ele está.- Ela me abraçou.- Pode ter certeza disso.

Lá fora uma multidão gritava meu nome. Certamente era o momento da entrega das medalhas mas eu não queria participar daquilo naquele momento. Eu ainda estava aflito. Olhei para Sarah e mesmo sem dizer uma palavra sequer ela compreendeu o que eu queria dizer.

-Vem, vamos dar o fora daqui.


Assim que chegamos na minha casa pegamos algumas cobertas e fomos direto para a casa da arvore. Permanecemos deitados na cama abraçados, em silêncio, tendo a companhia um do outro como conforto para nossos corações aflitos. E assim foi aquela noite, fria e silenciosa assim como a própria morte.

***

Na manhã seguinte levantamos cedo. Havia recebido uma mensagem de Mitchel informando que o velório de Diggory ocorreria pela tarde no Colorado. Preparei uma pequena mala com o terno que eu usaria no velório e levei Sarah até sua casa para que ela pegasse um vestido preto. Enquanto eu esperava por ela no carro vi Richard saindo pela porta de entrada. Nos encaramos. Pela primeira vez ele não me encarou com um olhar enfurecido. Certamente já estava ciente da minha recente perda. Em seguida Samantha veio acompanhando Sarah até o carro. Ela me deu um abraço materno que foi tão acolhedor que no mesmo instante me senti mais confortado. Naquele instante pensei o quanto era um privilegio poder receber um abraço de uma mãe nos momentos difíceis. Logo após nos despedimos dela e seguimos até o aeroporto.

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