Capítulo Sessenta e um

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Cartas

O fato de estar em pé não significava que eu tinha o domínio do meu próprio corpo pois naquele instante eu nem ao menos sentia meus pés tocarem o chão. De repente, foi como se eu tivesse despencado do mais alto céu em direção ao abismo mais profundo. Eu não sabia como reagir diante daquelas palavras. Um ultimo suspiro de esperança surgiu na minha mente ao pensar que aquilo pudesse ser uma brincadeira de mau gosto da parte dela.

-Você está falando sério? - Perguntei.

Ela, percebendo a aflição em meus olhos apenas assentiu com a cabeça confirmando que aquele pesadelo era real. Completamente fora de mim coloquei as mãos na cintura e desviei meus olhos dos dela a fim de tentar manter o equilíbrio do meu corpo que assim como minha alma, parecia querer desmoronar. Tudo estava girando. Eu olhava para o chão e respirava fundo tentando fazer com que meu organismo voltasse ao normal, mas era quase impossível. Por mais que eu estivesse completamente desnorteado eu sabia que precisava me recompor. Imediatamente me lembrei do Eric e de como ele havia reagido ao saber que Alex o havia abandonado. Eu precisava ser forte como ele. -O jogo ainda não terminou. - pensei.  Não me importava que ela havia me dito que iria se casar com outro cara em duas semanas, o que me importava naquele instante é que a mulher da minha vida estava diante de mim mais uma vez e eu lutaria até o último segundo da minha existência para tê-la de volta.

-Ok.-Disse, levantando a cabeça com um sorriso no rosto, disfarçando, como se aquilo não fosse nada de mais. -Será que podemos, sei lá, conversar?

Ela sorriu.

-É claro. Eu só preciso, bem...-Disse ela, fazendo força, tentando tirar a mala enorme do táxi.

Por mais que tudo estivesse parecendo caminhar para um final trágico, não pude deixar de rir. Ao vê-la brigando com aquela mala enorme imediatamente me lembrei da primeira vez em que conversamos no armário da universidade, onde ela estava lutando para colocar sua mochila no armário. Fui até ela e tirei a mala do táxi.

-Mais de dois anos e você ainda continua tendo problemas com malas.

Ela riu.

-E você continua sendo um perfeito cavalheiro.-Ela sorriu enquanto olhava em meus olhos, mas então rapidamente desviou seus olhos dos meus ao perceber que estávamos agindo exatamente como quando namorávamos.

 Ela apanhou sua bolsa e começou a caminhar em direção a casa dela na tentativa de se afastar de mim como se eu fosse uma tentação que ela precisava evitar. Era exatamente aquilo que eu precisava saber. Aquele sorriso, aquele olhar. Bastaram apenas alguns instantes para perceber que a mesma Sarah Grace pela qual eu havia me apaixonado ainda estava bem ali diante dos meus olhos. Aquilo foi o suficiente para que eu visse que ela ainda era a mesma, e principalmente, que eu ainda tinha um espaço em seu coração.

Eu olhava para ela enquanto ela caminhava na frente com as malas menores. A porta da casa dela se abriu e dela saiu Samantha.

-Sarah! -Ela foi correndo ao encontro dela e a abraçou. Sarah no entanto, não demonstrou tanto afeto. Sarah apenas recebeu o abraço e logo em seguida encarou Samantha e sussurrou algo que fez com que Samantha olhasse diretamente para mim com um rosto de espanto. Imediatamente ela engoliu seco e entrou de volta.

Assim que cheguei na varanda, Sarah apanhou a mala e pediu para que eu aguardasse por ela. Assenti com a cabeça e então ela entrou. Enquanto esperava fui até o jardim que ficava na frente da varanda a fim de observar as flores. Era época de tulipas. No canteiro haviam dezenas delas. Notei que algumas delas continham algumas folhas murchas, o que era algo comum, mas que eu sabia que poderia comprometer a flor inteira, pois Johnson havia me ensinado que era necessário tirar as folhas murchas das tulipas para evitar a proliferação de micro-organismos para que elas crescessem perfeitas. Minutos depois, enquanto eu continuava a retirar as folhas murchas das flores Sarah por fim saiu pela porta da frente com algo nas mãos. De inicio não soube ao certo o que era, mas assim que ela se aproximou pude ver do que se tratava. Eram as cartas. Assim que ela percebeu o que eu estava fazendo ficou surpresa.

-Quando foi que você aprendeu a cuidar de tulipas?

Eu olhei nos olhos dela esperando que ela não desviasse eles dos meus novamente. Com uma dor no peito por lembrar do passado por fim falei.

-Quando eu perdi tudo.

No mesmo segundo a angústia tomou conta dos olhos dela. Foi possível enxergar a dor evidenciada em seu rosto como se minhas palavras tivessem sido como flechas que penetraram direto em seu coração. Ela de certo compreendeu que quando eu disse ''tudo'' eu estava me referindo à ela.

Ela abaixou sua cabeça e olhou para as cartas que estavam em suas mãos.

-Bom, isso é seu.-Disse ela, me entregando as cartas.- Eu só...-Ela olhou para trás em direção a sua casa com uma expressão simultânea de raiva e tristeza, por conta do que Samantha havia feito.- lamento por você só estar recebendo elas agora.

Me levantei, apanhei as cartas nas mãos e então comecei a analisar cada uma delas. Era um total de doze cartas. Ao verificar as datas de envio percebi que ela havia escrito uma carta por mês durante um ano inteiro.

Eu não sabia ao certo se queria abrir aquelas cartas, tinha medo de que existisse algo dentro delas que poderia comprometer de uma vez, todas as minhas esperanças que ainda me restavam. Foi então que notei algo em comum nas cartas. Ambas tinham o mesmo selo, a imagem de uma casa na arvore. Foi inevitável não sorrir.

-Selos maneiros.

Ela cruzou os braços e sorriu.

-Quando eu fui postar a primeira carta eu encontrei esse selo em meio a vários outros e fiquei fascinada. Comprei de cara uma cartela inteira deles com medo de que outras pessoas comprassem e eles se esgotassem.

Sorri. Eu sabia o quanto Sarah amava casas na arvore, em especial a que havíamos construído juntos. Eu sabia que aquele lugar era como um abrigo para ela. Talvez o único lugar que fazia ela se sentir novamente uma criança realizando um sonho de infância. Ao ver aquele selo me lembrei do modo como ela sorriu pela primeira vez que subimos as escadas da velha casa na arvore antes mesmo de a reformarmos. Olhei em seus olhos.

-Sentiu falta dela?- Perguntei.

Ela soltou um suspiro.

-Você não tem ideia do quanto.

Permanecemos com os olhos fixos um nos do outro. Por mais que o tempo houvesse passado eu ainda sabia interpretar o que aqueles olhos queriam dizer.

-Que tal fazer uma ultima visita a ela? Sabe, assim voce aproveita para ler essas cartas para mim, porque bem...- eu respirei fundo- eu acho que não vou ter coragem de abrir elas.

Ela arregalou os olhos, surpresa com o meu pedido. Por um instante achei que fosse negá-lo de imediato, afinal, ela estava noiva de outro cara e talvez aquele convite fosse muito ousado da minha parte, entretanto, mais uma vez pude ter a certeza de que a antiga Sarah Grace ainda habitava dentro dela pois ela riu.

-Seria incrível.


***

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