Ester
Acordo de madrugada com Marcello me olhando preocupado.
- Ester o que foi?
- O quê?
- Você está gritando, pedindo socorro!
Estou assustada e ofegante. Aqueles pesadelos faziam muito tempo que não apareciam. Aquele homem correndo atrás de mim. Todos aqueles flashs de lembranças...
- Marcello eu tenho uma coisa pra te contar. Acho que é hora de saber a minha história.
- Agora de madrugada? Mas você está bem?
Me diz preocupado.
- Sim eu estou, mas quero te contar assim como você me contou sua história. Eu preciso que saiba.
- Tudo bem meu amor.
Levanto e bebo um copo de água me preparando para relembrar aquela história. A minha história, tudo antes do começo de uma vida digna.
- Marcello para começar eu sou adotada.
Ele sorri e balança a cabeça.
- Tudo bem!
- Eu nem sei a data certa do meu aniversário!
- Como assim?
Me pergunta intrigado e surpreso.
- Eu fui abandonada pela mulher que me gerou, ela era uma prostituta drogada que me largou em um casebre dentro de uma fazenda bem distante, foi o que a polícia descobriu.
Eu fui criada por uma mulher, me lembro pouco dela e um homem chamado Cícero. - faço uma pausa, aquele nome me trazia um sentimento de ódio- Esse homem não era bom, ele me torturou desde muito pequena e me tratou como animal, me obrigava a limpar a casa, lavar suas roupas e me espancava, eu nem sabia o porquê!
Me batia com pedaço de madeira, vassoura, chicote e depois me colocava na água com sal.
Eu não tinha comida e nem água, as vezes eu ficava dias sem me alimentar e amarrada igual a um cachorro, ou pendurada nas árvores. Não tinha roupas só ficava pelada e as vezes ele passava a mão em mim me tocava e me chamando de animalzinho.
Uma vez ele me bateu e me jogou com tudo em uma árvore, eu não pude andar por dias e ficava me arrastando, quando me encontraram tiveram que fazer uma cirurgia para reparar uma fratura mal curada no quadril, você não faz ideia da dor que eu senti. - digo chorando com as lembranças.
- Minha alimentação era a lavagem que ele roubava dos porcos e ração dos animais, ele me chutava, pisava em cima de mim, enfiava agulha embaixo das minhas unhas, me afogava -Faço mais uma pausa, as lembranças doiam na alma.
- Quando os abusos começaram eu fechava os olhos até aquilo acabar, e nem entendia direito o que era aquilo, na minha cabeça eu realmente era um animal. Eu vivi assim até os meus seis anos.
Um dia eu me soltei e corri até achar uma mulher e pedir ajuda mas por medo eu voltei. Dois dias depois a polícia apareceu e me tirou de lá, aquele homem foi preso, na verdade ele já era procurado, descobriram que ele havia matado duas mulheres e que seus corpos estavam enterrados no quintal, tinham sinais de estupro, eram mulheres que estavam desaparecidas há muito tempo. A mulher de quem eu me lembro, era uma companheira, depois também acharam seu corpo.
Marcello me olha sem acreditar.
- Quando eu fui encontrada a polícia me levou até o hospital, eu gritava de medo, uma enfermeira me pegou e me deu banho, ela conseguiu me acalmar e me deu comida, ela me chamava de amorzinho, eu não tinha nome. Eu me lembro que perguntei se ela ia me bater! - sinto lágrimas em meus olhos - Aquela mulher é hoje a minha mãe, ela me salvou Marcello e me prometeu que nunca ia me deixar, e cumpriu com a sua promessa, me adotou e me colocou o nome de Ester, esse era o nome da sua mãe, minha avó de coração que aceitou e me deu tanto carinho, tanto amor.
Meu pai sofreu comigo, no começo eu tinha medo dele, eu gritava de medo de qualquer homem que chegasse perto de mim, mas minha mãe e ele lutaram por mim com tanta compaixão, eu passava o dia todo debaixo da cama com medo, querendo comer coisas do chão, tive que tomar muitos remédios e muitos anos de tratamento com um psiquiatra, na verdade eu faço acompanhamento até hoje, me ajuda muito. E aos poucos eu fui reorganizando minha mente e aprendi a separar as coisas. Eu entendi que não era um animal e que as pessoas me amavam, que eu tinha uma família.
Foi muito difícil sair da minha cidade para estudar e depois vir para São Paulo trabalhar, eu não queria de jeito nenhum mas meus pais insistiam que eu tinha que vencer barreiras, voar para o mundo sem medo. E foi por eles que eu vim parar aqui, por eles eu continuei minha vida. Não foi fácil superar aqueles traumas, viver com medo.
Mas eu recebi tanto amor em troca, tanto carinho, eu fui tão bem criada que pude ser curada daquele trauma, o amor me curou.
Eu agradeço a Deus por tudo que ganhei, pelas coisas boas que eu tive, a vida que Deus me proporcionou ter.
Meus pais são apaixonados e se amam incondicionalmente, foi com esse amor que eu superei tudo, absolutamente tudo. E é por isso que precisava te contar.
Foi por esse motivo que naquele dia que desmaiei no escritório eu passei mal, você estava cheirando uma bebida que me lembra aquele homem, me assustou! E eu tive uma crise de pânico. Mas enfim, essa sou eu Marcello! Essa é a minha história.
Sinto um alívio depois de falar tudo, Marcello me encara por um bom tempo.
- Eu não tenho palavras para dizer o quanto eu sinto. Me desculpe pela ocasião em que eu bebi, você realmente é uma mulher incrível, eu estou feliz por ter te encontrado, graças ao amor que você recebeu, também está me ensinando a amar.
Sorrio com lágrimas nos olhos para ele.
- Mas por outro lado, quero o nome completo desse verme e qualquer outra informação. Preciso garantir que ele nunca mais vai chegar perto de mulher nenhuma.
Vejo ódio em seu olhar, seu semblante se transformou em um Marcello preocupado.
- Eu não sei.
- Onde ele está preso?
- Eu não sei nada sobre ele, fiquei sob medida protetiva e ele nem faz ideia que fui adotada e por quem. Isso é segredo de justiça.
- Eu tenho meus contatos, me passa o hospital em que você foi internada naquela época, o resto eu consigo.
- Não meu amor, isso ficou no passado, acabou!
Ele me abraça sem dizer nada eu sei que quer me proteger.
- Eu te amo! Obrigado por confiar em mim e contar sua historia. Eu te admiro ainda mais. Mas eu vou te proteger custe o que custar.
- Eu sei meu amor, eu só te peço que não me olhe com pena. Eu superei e se você não puder me olhar e me amar como antes eu peço que me deixe.
- Eu só consigo te olhar como um homem apaixonado.
Sorrio e sei que está sendo sincero.
Me sinto aliviada por contar a minha história.
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Um Contrato Com Meu Chefe (Concluído)
RomanceEster já estava acostumada a conviver com aquele homem. Ele realmente era lindo, mas depois de dois anos trabalhando e lidando com sua frieza ela já não se incomodava. Marcello, um homem que se acostumou a solidão, sem amigos, sem família e sem amo...
