Deitado no chão de terra, abri calmamente os olhos, sentindo novamente aquele cheiro de pólvora, olhei para cima e o céu pálido se destacava fortemente, meus olhos não sabiam se aquilo era um sonho...
Mas dessa vez, era real...
gritei:
— ESSA PORRA É REAL?!!!Aterrorizado, um garoto escondido próximo a mim, colocou suas mãos sujas de terra para abafar o barulho em minha boca.
Na verdade, ele estava coberto de terra por inteiro.
Aparentemente era próximo a minha idade, mas eu estava mais preocupado com o momento vivido ali.Ele tirou sua mão de mim e disse:
— Cale a boca, venha logo.
Segui seu corpo com roupas rasgadas, se movendo com passos rápidos em minha frente.
Ele estava abaixado por entre os montes de terra, ouvia-se tiros por toda parte, granadas fazendo uma grande bagunça de poeira e amontoados de destroços.
Em volta de mim, tudo parecia... morto.
O garoto não tinha destino, aparentemente seu destino era tentar sobreviver.Tentei me levantar para dar uma olhada por cima dos montes de terra.
— Está tentando levar um tiro na testa?
Minha expressão era de horror.
— O-o que?
Gaguejei e engoli seco, provavelmente quase engoli minha língua junto.
— Não faça movimentos bruscos, eles podem te ver!
— Eles quem?
O garoto incrédulo respondeu:
— Os soldados, ora! Por onde esteve?
Encarando o rosto sujo do mesmo, falei:
— Na verdade, onde eu estou?
Ele olhava inquietamente tudo em volta, suas mãos tremiam.
— Você está na segunda guerra... mundial.
Sem palavras, com pensamentos chegando em meu cérebro a cada milésimo.
Continuei seguindo o garoto. Ele olhou para mim.
— Vamos tentar se esconder na floresta, atras do teatro mais próximo.
Ele pensou melhor. E continuo a dizer:
— Não pode se chamar destroços de teatro.
Talvez aquilo tenha sido uma piada, de muito mal gosto.
Meus pensamentos voltaram a funcionar; eu havia dormido e acordado aqui.
Mas... como acordei a décadas atrás? Isso era claramente "impossível".Algum tempo andando agachado pelo chão, tentei dialogar com o jovem garoto:
— Qual seu nome?
Ele me respondeu sem virar para mim:
— Zak. E o seu?
Suas palavras saiam com uma rapidez espantável.
— Mitchel. Pelo que sei da segunda guerra, você é... judeu?
Ele riu, incrivelmente. Fiquei impressionado com isso.
— É óbvio. Porque? Você não?
Seus olhos se arregalaram.
A propósito, olhos verdes claros, se destacavam ainda mais em seu rosto imundo.— Não.
Ele rapidamente pressionou seu braço direito pelo meu pescoço, isso me mostrava que não era tão jovem como eu imaginei.
Quase sem ar, retruquei seu ato:— Espera! Eu não estou do lado deles.
Seu olhar se encontrou com o meu, para conferir se eu estava falando a verdade.
— Tudo bem. A essa altura, não mudaria nada, você não está armado e está usando roupas bizarras.
Respondi, franzindo a testa:
— Eu vou te ajudar, no que der.
Eu estava criando laços com uma pessoa em meu "sonho", eu não sabia realmente o que estava acontecendo ali.
Zak mandou-me ficar parado, alguns soldados estavam próximos... demais.— Mitchel, corra o mais rápido que já correu em toda sua vida. Ok?
Balancei a cabeça para ele, como resposta.
Apontando para o outro lado dos montes de terra, que antes dessa grande destruição, era uma rua.
O antigo teatro estava lá. Corremos rapidamente pela extensão do local, enquanto alguns tiros se espalhavam pelo ar.
Eu podia sentir o gosto que a morte tinha, naqueles segundos...

VOCÊ ESTÁ LENDO
Dias pálidos
Mysterie / ThrillerApós o término de seu namoro e o suicídio de seu irmão e melhor amigo. Mitchel encontra um misterioso papel com uma caligrafia antiga em uma praça abandonada. Com pensamentos perturbados e poemas intensos, e com uma pequena mariposa morta, assinado...