penúltimo

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Nevou muito o dia todo. O céu cinza-pálido dava um ar mais depressivo ao acontecimento recente naquela vizinhança, e o frio fazia todo mundo se esconder dentro de suas casas, debaixo dos seus cobertores.

Menos Tyler.

Era noite, e ele meio que teve que fugir de casa para não ser barrado pelos pais na saída. Eles nunca deixariam Tyler sair de casa numa noite tão fria como essa.

Tyler andava apressado, seus pés deixando um rastro na neve recém-caída. Uma de suas mãos dava a volta por sua cintura, segurando seu casaco e impedindo-o de ser atingido pelo vento frio, e a outra mão levava o diário junto ao corpo.

Tyler estava indo na direção contrária à do vento, abraçando o seu próprio corpo. O cemitério não ficava tão longe assim, mas naquela noite ele pareceu estar do outro lado da cidade.

Ele não conseguia chorar. Tinha passado quase cinco dias chorando a fio dentro do seu próprio quarto, e quando começou a pensar em se suicidar, lembrou do diário de Josh e o leu em poucas horas, estas regadas à lágrimas e a distantes e doces lembranças. Eram só lembranças agora, afinal.

O cemitério vivia aberto, então Tyler entrou, ainda sentindo-se um pouco assustado com a atmosfera sombria do lugar. Mesmo que o lugar fosse inteiramente iluminado, Tyler ainda sentia leves arrepios percorrerem sua pele enquanto ele avançava mais e mais dentro do cemitério.

A lápide de Josh era a mais recente dali. Ainda dava pra ver perfeitamente, sob a camada de neve, o montinho de terra que cobria o caixão, a sete palmos de profundidade. Tyler aproximou-se, ainda receoso, e sentou-se no chão, de frente para a lápide de mármore. Ele não sabia bem o que ia fazer, mas precisava falar coisas. Muitas coisas. Josh não estava mais vivo para escutá-las, mas Tyler estava e ainda precisava falar. As palavras pesavam em sua consciência, e desde a morte de Josh ele não conseguiria se manter são enquanto não falasse todas aquelas coisas que por tanto tempo ele guardou.

- Bem... Oi – disse Tyler, em sua voz hesitante. Iria parecer estranho ele falando com uma pedra, então ele fez o máximo de esforço mental que pôde para imaginar Josh sentado de frente para ele, sorrindo e segurando suas mãos entre as dele, como ele costumava fazer e Tyler adorava. Ele ia sentir falta daquilo. – Eu precisava conversar. Precisava vir falar algumas coisas. Eu... Eu espero que eu não esteja te incomodando.

Tyler fungou, e uma repentina vontade de chorar o atingiu. Porém, ele fez de tudo para não chorar ainda. Se ele chorasse, não ia conseguir falar nada e o peso em seu peito demoraria mais a sumir.

- Josh, eu... Eu queria ter podido te ajudar. E eu não te culpo por não ter me contado. Não tô bravo com você... Eu nunca ficaria bravo contigo – segurou o diário mais forte contra o corpo – Eu entendo por que você não me contou. Sei que não deve ter sido fácil... É... Eu imagino o quanto era difícil para você fingir que estava tudo bem só... Só pra não me deixar preocupado.

A neve caía mais lentamente agora. Um pequeno montinho de neve se formou sobre sua cabeça, mas ele não se importou. Estava concentrado demais em seu desabafo.

- Eu até imaginei que podia ter algo errado com você assim... Assim que a gente virou amigo, sabe? – uma lágrima escorreu de um dos olhos de Tyler. Ele podia ser forte em muitas situações, mas naquela ele era fraco e não escondia isso de ninguém – Mas aí depois você se mostrou tão legal... E aí eu pensei que devia ser só uma primeira impressão errada.

Tyler secou a lágrima que caíra, mas outra desceu em seguida. Ele ainda a secou, insistindo para que elas voltassem, mas foi em vão. Ele deixou seu rosto virar um pequeno regato de lágrimas. Era tudo por Josh, e o que fosse feito por Josh valia a pena, sempre valia.

Goner (don't let me be)Histórias para pegar e não largar. Descubra agora