nonagésimo terceiro

911 171 259
                                        

11 de janeiro de 2004 – Columbus, Ohio

Na sexta aconteceu algo muito estranho.

Não fui para escola, então Jim não me deixou sozinho o dia todo. Embora ele não tenha falado nada, só a presença dele já era o suficiente para me deixar de cabelos em pé. Ele me seguiu para onde fosse possível, então ele estava em todo lugar.

Tyler me ligou à noite para perguntar o que tinha acontecido comigo, e eu falei que eu estava resfriado. Não sei se ele acreditou. Naquela hora eu senti de novo aquela culpa por ter que mentir para ele. Se Tyler parasse de confiar em mim, não posso ficar surpreso e pedir explicações.

Quando a noite chegou, já quase na hora de dormir, Jim decidiu fazer algo além de me encarar. Ele se levantou e foi até o meu o meu armário, e aí abriu a parte onde eu guardava meus brinquedos. Vi ele pegar o meu tabuleiro de xadrez e aí ele arrumou tudo em cima da minha escrivaninha. Eu estava na minha cama, lendo um livro para a aula de Inglês. Quando ele terminou de arrumar as peças, sentou-se do lado das pretas.

Fiquei olhando para ele e ele ficou olhando para mim. Eu entendi o recado, eu tinha que ir jogar, mas o que ele pretendia com aquele jogo?

“Você quer que eu jogue?”, falei, começando a me levantar da cama, muito devagar. Embora eu soubesse que eu não devia ter medo, eu tinha.

“É óbvio” ele respondeu.

“A troco de quê?”

“Quem vencer fica com o controle definitivo”, ele respondeu.

Eu não sou muito bom em xadrez. Se Jim é meio que parte de mim (mesmo que eu não aceite isso), então ele também não é. Naquela hora, eu pensei que eu tinha uma chance de finalmente me ver livre dele. Era um acordo que ele estava fazendo.

Sentei do lado das brancas.

“As brancas começam, Josh”, ele falou. Eu olhei para minhas peças e movi um peão.

Ele movia suas peças e jogava com uma estratégia que eu nunca pensei que poderia estar vindo de mim mesmo. Mas por mais bem que ele jogasse, ele não conseguia ser melhor que eu.

Sempre que ele comia uma das minhas peças, eu comia uma das dele. Jogamos por horas. Eu estava fazendo de tudo para ganhar, pensava e analisava cada movimento que eu podia fazer, mas parecia que ele sempre pensava a mesma coisa que eu.

Quando restou para mim o rei e um cavalo, e para ele apenas o rei, ele se levantou de uma vez e derrubou tudo da mesa no chão. Ele andou de um lado para o outro, cheio de raiva.

O jogo deu empate.

Depois disso, Jim sumiu.

Ontem, no consultório da Dra. Eva, eu contei a ela o que aconteceu no jogo de xadrez. Ela ficou muito intrigada com o que eu contei, principalmente quando ela perguntou o resultado do jogo e eu disse que deu empate.

“Era de se esperar, Josh”, ela falou.

“Por quê?”, perguntei.

“Ele é parte da sua mente,” ela falou. “A parte que você não pode calar. Ele e você não têm a mesma mentalidade, mas têm a mesma mente, entende o que eu estou dizendo?”

“Entendo.”

“Você não pode ganhar dele nesse jogo e ele não pode ganhar de você. Não tem um que seja ‘mais forte’ ou ‘mais fraco’, Josh, só existe aquele que tem maior controle, e esse alguém é você.”

Eu quis morrer. Ele tinha sumido, mas nenhum de nós tinha ganhado o jogo. Mesmo que o trato dele fosse “quem ganhasse assumia o controle”, eu ainda tinha esperanças que ele tivesse desistido de tentar me ganhar e tivesse ido embora para sempre.

Dra. Eva me receitou um antidepressivo. Não entendi por quê.

Goner (don't let me be)Histórias para pegar e não largar. Descubra agora