20 de dezembro de 2003 – Columbus, Ohio
Não pude escrever ontem. Tyler dormiu aqui, então eu não pude pegar o diário hora nenhuma.
A coisa toda aconteceu meio de improviso. Eu nem planejava que ele dormisse aqui, mas acabou acontecendo.
Estávamos na aula de Química, e eu e Tyler tínhamos formado uma dupla para responder alguns exercícios, até que, de alguma forma, eu lembrei da minha casa na árvore. Fazia muito tempo que eu não ia lá, e Tyler com certeza nem sabia que eu tinha uma.
“Sabia que eu tenho uma casa na árvore?”, eu falei, e Tyler parou de fazer a atividade para prestar atenção em mim.
“Jura?”, ele respondeu, radiante. “Eu sempre quis uma, mas meu pai nunca fez uma pra mim.”
“Quer ir lá hoje, depois da escola?”, perguntei de repente. A ideia surgiu do nada, e Tyler aceitou na hora.
“Claro, mas eu tenho que falar com a minha mãe primeiro,” disse ele.
Assim que a aula acabou, fomos até um telefone público. Tyler ligou pra mãe dele, e depois de um tempo de conversa, ele disse que ela tinha deixado.
O caminho do ônibus até minha casa pareceu enorme. Tyler foi sentado ao meu lado, e teve uma hora que ele segurou minha mão até na hora da gente descer no ponto.
A gente foi caminhando até minha casa. Entramos lá e eu disse pra minha mãe que eu e Tyler iríamos ficar na casa da árvore. Minha mãe perguntou se Tyler ia dormir lá, e Tyler disse “Você pode pedir pra minha mãe, tia Laura?”.
Eu fiquei nervoso e olhei pra minha mãe. Ela disse que podia pedir, então ficamos lá perto dela enquanto ela falava com a Sra. Joseph ao telefone. Segurei a mão de Tyler pra não surtar. Eu não posso ficar ansioso.
Quando mamãe desligou a ligação, eu soube pelo sorriso dela que Tyler podia ficar. Ela riu quando eu abracei Tyler e enterrei meu rosto no pescoço dele.
“Sua mãe vem te buscar amanhã às oito, Tyler”, minha mãe falou. Eu entendi por que ele teve que ir às oito, hoje. Às nove eu vou para o consultório da Dra. Eva.
Fomos para a casa da árvore. Estava frio, mas o frio não nos assustou. Levamos uns cobertores, almofadas, uma lanterna e algumas HQs, além de um jogo de tabuleiro. Ficamos até tarde ali, comendo pipoca que minha mãe fez e tomando chocolate quente.
Minha casa da árvore não é tão grande, e Tyler é alto (mais do que eu – acho que ele deve ter 1,60), então o espaço pareceu muito pequeno só pra nós dois e todas as coisas que levamos, mas ele pareceu não se incomodar. Eu também não me incomodei. Eu não sou claustrofóbico, então ficar num espaço pequeno com Tyler foi até bom, digamos.
Fomos dormir tarde. Não sei que horas eram, não levamos relógio. Emprestei umas roupas minhas para Tyler, e ele se trocou na minha frente. Ainda bem que a luz da lanterna não era forte o suficiente para que Tyler me visse corando.
Estava frio demais, então nos enrolamos nas nossas cobertas e deitamos, um perto do outro. Eu não ia conseguir dormir com tanto frio, então eu puxei Tyler para um abraço. Ele estava quentinho e ainda não tinha dormido, também.
“Você se incomoda de dormir me abraçando, Ty?”, perguntei. Eu não queria que aquilo fosse constrangedor.
“Claro que não”, ele respondeu. “Obrigado.”
Eu não sabia porque ele estava me agradecendo, mas eu disse “de nada” e tentei pegar no sono.
Naquela hora, deitado e com Tyler em meus braços, eu senti uma coisa diferente. Era como se eu não precisasse de mais nada na minha vida. Eu senti vontade de dormir todas as noites daquele jeito, mas graças à minha doença isso nunca seria possível. Não senti medo do outro aparecer, até porque ele nunca aparecia perto de Tyler. Eu me senti inatingível, ali.
Foi simplesmente o melhor momento da minha vida.
Eu senti a respiração de Tyler ficar mais regular. Eu não podia ver o rosto dele, mas sabia que ele estava dormindo. Pouco tempo depois, ou muito tempo, não sei, eu também dormi.
Quando eu acordei Tyler ainda estava dormindo, e senti pena de acordá-lo, mas eu tinha de fazê-lo. Não estava nevando e era por volta das sete horas. Em pouco tempo a mãe dele estaria ali para buscá-lo.
Levamos todas as coisas de volta para dentro de casa e fomos tomar café da manhã. Minha mãe parecia muito satisfeita com algo. Ela se manteve calada até a mãe de Tyler aparecer para buscar ele.
“Como foi a noite?”, ela perguntou.
“Fria, mas ótima”, respondi. Ela sorriu e estreitou os olhos. Se aproximou de mim. Eu nem tinha me dado conta que eu já estou mais alto que ela.
“Vocês dormiram cedo?”
“Não. A gente ficou jogando RPG e lendo até tarde, então fomos dormir.”
Ela fez um barulhinho que só fazia quando desconfiava de algo. Do que ela poderia estar desconfiando?
Eu vim para o meu quarto e ela me seguiu.
“Você e Tyler... São amigos, não é?”
Gelei. Será que ela estava insinuando que eu e Tyler... Não, não podia ser. Eu tinha pedido para a Dra. Eva não comentar sobre aquilo com ninguém. Ela não falaria nada para a minha mãe, falaria?
“Claro,” respondi. “Só amigos.”
“Bem, a Dra. Eva falou comigo, e...” Ela deu uma pausa que me fez gelar mais. Sentei na cama tentando parecer despreocupado, mas pareci mais um grande saco de batatas do que alguém de consciência limpa. “Ela disse que você pediu pra dormir na casa do Tyler.”
“Sim,” falei com o coração aliviado.
“Eu decidi deixar,” ela sentou-se ao meu lado e pegou minha mão. Mamãe parecia preocupada. “Você parece estar melhor da... Você sabe.”
“Eu sei,” completei. “Posso ir no Ano Novo?”
Mamãe franziu a testa, mas concordou. Eu disse que eu ia falar com o Tyler, então ela sorriu e beijou minha testa, dizendo que eu devia ir tomar banho logo.
Vai dar nove horas e eu ainda não tomei banho. Minha mãe vai me matar.
Octogésimo.
We've made it this far, kid.
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Goner (don't let me be)
Fiksi Penggemar(baseada na música Goner) "Ele tirou de mim todas as esperanças que eu tinha de viver feliz por toda a minha vida. Ele é o que me faz ser infeliz. Você não fez nada de errado. A culpa é dele. A culpa é minha. A culpa é só minha. Eu já era um caso pe...
