Broken Glass

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"No fundo eu sei que sou complicada demais pra conseguir me relacionar.

Tem dias que nem eu mesmo me quero".

(Tati Bernardi.)

Perdi a conta de quantas vezes naqueles dois dias mamãe tinha me perguntando o porquê de eu estar triste e se estava relacionado com o fato de não ter saído para brincar com o vizinho. Ele não tinha aparecido aqui para que junto fossemos brincar e não iria chamá-lo, além de ter medo do seu pai, não acho que consigo perdoá-lo.

Estava triste, admito. Não conseguia parar de pensar nas palavras que tinha dito e elas deixaram um buraco em meu coração que parecia doer a cada segundo, não só porque me magoaram e temia que fossem verdade, mas, também, pelo motivo de terem saído da boca dele. Sentia falta das nossas brincadeiras e conversas, do modo como rolava os olhos verdes e pedia para que largasse minha boneca e do jeito que sorria e contava a piada mais sem graça do universo, mas que me fazia cair em gargalhadas só por ouvir sua voz adquirir aquele tom sério de quem esconde alguma carta na manga.

- Vocês brigaram? – perguntou enquanto passava o sabonete em meus braços.

- Não, mamãe – menti.

- Porque não veio aqui te chamar para brincar ainda? – esfregou minha cabeça até que a espuma do sabonete escorresse pelos fios do meu cabelo que beirava o meio da coluna.

- Eu não sei – respondi mordendo o lábio inferior para impedir que algumas lágrimas, dessa vez de saudades, escorressem por meu rosto – Deve estar ocupado com alguma coisa.

- Acho que está me escondendo alguma coisa, Lottie – confessou e continuaria a falar se a água do chuveiro não tivesse acabado, ela franziu a testa enquanto eu tirava a espuma dos meus olhos com os dedos, abriu e fechou o registro repetidamente e fechou os olhos em seguida, suspirando e murmurando alguma coisa que não compreendi.

- O que houve?

- Vamos tomar banho de um jeito diferente hoje! – exclamou subitamente animada, deixou-me sozinha por alguns instantes e voltou com uma garrafa d'água que guardávamos na geladeira – O que acha de brincarmos um pouco?

Ergui a sobrancelha sem entender direito o que estava querendo dizer e minha boca abriu-se um "O" espantado quando jogou um pouco da água em meu rosto, fazendo a espuma escorrer por meu queixo. Não me preparei novamente e acertou em cheio meu cabelo, tentei desviar e acabei correndo do banheiro porque não tinha espaço o suficiente para esquivar-me, gargalhei quando passei por ela rindo e quase a desequilibrando, segurei na parede para equilibrar-me melhor e recebi a água em minhas costas.

Molhou o sofá quando escondi meu corpo atrás dele e riu conforme dava a volta e segurava em meu braço para impedir-me de sair do seu aperto, segurou em minha cintura e ergueu meu corpo, sustentando meu peso enquanto derramava o restante da água. Estávamos rindo enquanto procurávamos uma toalha para nos enxugar e depois a casa inteira, foi só quando fazíamos isso que percebi a expressão triste em seu rosto e entendi que aquela brincadeira foi para disfarçar o fato de terem cortado nossa água, provavelmente porque não pagamos.

Perguntei-me se todas as nossas dificuldades passariam quando papai estivesse conosco, se a vida em Londres seria melhor que essa ou, se, ao menos, teríamos um lençol para nos enrolar a noite. Todas essas duvidas pairaram nas palavras do meu amigo... E se papai não gostasse de mim? Por quanto tempo aguentaríamos viver assim caso ele não nos levasse embora? Pensava nisso quando olhei pela janela e o vi em seu quintal, descansava o queixo na mão e olhava para o nada.

Good Enough - 1ª TemporadaStories to obsess over. Discover now