Not Enough

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"Diga a eles tudo o que eu sei agora
Grite isso de cima dos telhados
Escreva isso no horizonte
Tudo o que nós tínhamos se foi agora
Diga a eles que eu era feliz
E meu coração está partido
Todas as minhas cicatrizes estão abertas
Diga a eles o que eu esperava ser
Impossível, impossível"

(Shontelle - Impossible)

Os alunos foram saindo aos poucos da sala, cochichavam e riam com as bochechas vermelhas e fazendo gestos com as mãos. Eram crianças como eu e embora eu não estivesse agindo daquele jeito não podia deixar de notar que as consequências de saber sobre o corpo humano, seja masculino ou feminino, foi impactante.

Mas não conseguia agir daquele jeito. Primeiro porque não tinha amigos, a única pessoa que ainda sorria para mim era a minha dupla do trabalho passado, porém ela deve me achar estranha demais para puxar assunto e segundo porque eu estava pasma. Não conseguia formular um pensamento coerente porque tudo aquilo fora recebido por mim com tamanha perplexidade que não conseguia sequer levantar da cadeira.

- Charlotte? – ouvi a professora chamar meu nome – Está tudo bem?

Pisquei duas vezes para tentar focar em seu rosto e levantei-me da cadeira com a mochila nas costas, respondi que estava bem e praticamente corri até o carro de Anthony que já estava impaciente por conta da minha demora.

Não consegui comer quando estava em casa. Mexi na comida e a joguei fora mesmo sabendo que ele reclamaria do desperdício, depois fui para o meu quarto e joguei-me na cama com as lágrimas caindo por meu rosto. Duas aulas foram suficientes para que eu descobrisse que me sinto como um lixo e suja. Duas aulas e eu descubro que fui violada. Duas aulas e aprendo que se eu já tivesse tido minha primeira menstruação poderia estar grávida. Grávida. E eu só tenho 11 anos!

Duas aulas e eu passo a odiar Tio Juan. Como posso sequer chamá-lo assim? Eu fui tão estúpida por não notar que aquilo era errado, que ele estava se aproveitando de mim e que era um monstro. Não sabia o que fazer agora que finamente tinha entendido o significado daquela brincadeira horrenda.

E se ele quisesse novamente? Melhor, o que eu faria quando ele quisesse "brincar" de novo? Deveria contar para Anthony?

Ele não acreditaria em mim, acho. Iria achar que estou mentindo e que seu amigo está certo porque era obvio que Juan iria negar tudo.

Minha professora disse que caso algo assim acontecesse conosco deveríamos avisar a um adulto, mas, quando o único adulto responsável por mim não acreditar no que eu digo, a quem iria recorrer?

Acontece que sequer tive tempo de pensar mais nisso. Na medida em que as lagrimas escorriam por meu rosto ouvi vozes e risadas da sala, deduzi que ele estava lá. Antes que ele pudesse subir as pequenas escadas até meu quarto e entrasse para tentar aquilo de novo, enxuguei minhas lágrimas e ainda com a roupa do colégio desci para a sala. Meus passos foram apressados porque queria fazer isso antes de o encontrá-lo.

Eles estavam lá, os amigos de Anthony. Juan estava se levantando e trazia uma sacola em suas mãos, até pensei que era um livro, mas claro que não, agora que tinha conseguido conquistar minha confiança não precisava mais trazer presentes.

Ele franziu a testa quando passei por ele e sentei-me na cadeira ao lado de Anthony que parecia tão confuso quanto. Passei a tarde toda ali. Não me levantei sequer para ir ao banheiro, os olhares de Juan em mim me mantiveram com a cabeça voltada para o que estava passando na televisão, mas não conseguia prestar atenção, estava tensa.

Quando a noite chegou, lentamente aliás, contava os minutos para que eles fossem embora. Cada olhada que Juan lançava a mim me deixava com as mãos suando e sentia nojo quando nossos olhares acabavam se encontrando.

Good Enough - 1ª TemporadaStories to obsess over. Discover now