"Mal você sabe
Como eu estou quebrando enquanto você dorme
Mal você sabe
Eu ainda estou assombrado pelas memórias
Mal você sabe
Estou tentando me montar
Peça por peça
Mal você sabe
Precisava de um pouco mais de tempo"
(Alex e Sierra - Little do you know)
Levantei-me devagar quando o sinal tocou, as crianças ao meu redor cochichavam e riam enquanto eu caminhava até a professora, ajeitei a mochila nas costas de modo que a alça ficasse folgada em meu ombro e suspirei porque já sabia o motivo para ela ter me chamado a conversar no final da aula.
- Charlotte – ela sussurrou docemente, tinha uma aparência mais velha, os fios do cabelo amarrados num coque firme e óculos preto de tartaruga – Eu gostaria muito de saber o porquê de não ter trazido uma foto com seu pai para organizarmos o presente para o Dia dos Pais.
- Meu pai não gosta de tirar fotos – dei a desculpa que ele tinha me mandado falar.
- Porque nenhum responsável assina sua agenda?
- Somos só eu e Anth... Digo, papai – tinha dito que na frente de pessoas como minha professora deveria chamá-lo assim, foi algo que me surpreendeu. Treinei no espelho a melhor maneira de falar aquilo, mas, ainda sim, soou completamente estranho.
- Onde está sua mãe, querida?
Dei de ombros e mordi o lábio inferior, o peso da bolsa começou a incomodar os machucados em minhas costas. Faz duas semanas que me bateu daquele jeito, ele mesmo tinha lavado a crosta de sangue grudada na camisa, passou sabão nas marcas que o cinto tinha deixado enquanto eu engolia o choro e mordia com força o interior da bochecha.
Não houve um pedido de desculpas, nenhum sinal de arrependimento. Provavelmente só "cuidou" porque era obrigação, porque se não fizesse isso alguém acabaria desconfiando já que eu não faria isso sozinha porque simplesmente, no outro dia, foi difícil demais levantar da cama. Não conseguia esticar meus ossos, mal andava sem reclamar de dor e passei os primeiros dias sem ir à escola.
- Eu preciso ir – falei quando a expressão em seu rosto transformou-se em pena – Até amanhã, Sra. Neil.
Não esperei que respondesse e caminhei para fora, seu olhar me seguindo enquanto que de cabeça baixa seguia até o estacionamento onde Anthony me esperava no carro da Patrulha.
Perguntou como tinha sido a escola, mas não foi no interesse de saber como eu estava ou o que tinha aprendido e sim porque tinha receio que descobrissem o que tinha feito a mim, confesso que tinha vontade de falar, desabafar com alguém, mas não sabia em quem podia confiar.
No outro dia após ter levado a surra tentei falar com a mulher que lavava nossas roupas e cuidava da casa, ela fingiu-se de surda. Não cuidou de mim, sequer ergueu o olhar em minha direção, mas flagrei-a encarando-me com o canto do olho quando sentei-me para comer, uma expressão triste no rosto, porém nada foi feito, nenhum gesto de carinho e ajuda.
- Eu queria ir a um passeio pela escola – tomei coragem para dizer quando estávamos jantando, mas sabia que não deixaria. Eu era como uma prisioneira ali, sair da sua vista era algo que ele não permitiria nunca – É para um zoológico e...
- Não – interrompeu-me firmemente.
- Por favor, papai – implorei – Todo mundo....
O modo como me olhou foi o suficiente para que me calasse, terminou de beber seu café e depositou a xícara na mesa com um barulho mínimo - Meu nome é Anthony – permaneceu me encarando para garantir que eu tinha entendido e aquilo doeu. Doeu mais do que imaginei que doeria e não sabia explicar o motivo já que não havia me dado esperança alguma de que teríamos uma relação de pai e filha, essa sensação de não me sentir boa o suficiente para ele dilacerava-me por dentro.
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Good Enough - 1ª Temporada
AcciónAbandonada fisica e emocionalmente pelos pais, a autoritária e maior detetive criminal de Londres, Charlotte Di Angelo, vê seu mundo mudar totalmente após rejeitar com violência as iniciativas sexuais do Promotor de Manchester, na Inglaterra. Seu pa...
