Quando acordei novamente, depois de entrar e sair de meu estado de inconsciência, finalmente consegui abrir os olhos. Um tubo horrível ainda estava na minha boca e a sensação era de que eu estava entalada com algo, o que fez com que automaticamente tentasse arrancar o que quer que fosse. Ouvi um grito ao meu lado. - Rain, não! - A voz ralhou comigo enquanto minhas mãos faziam uma busca frenética ao redor e sentia lágrimas deslizando pelo meu rosto. Eu estava sufocando. - Enfermeira! Em questão de poucos segundos ouvi o burburinho no quarto e senti uma picada leve em meu braço. Depois apenas a escuridão veio me dar um abraço. Não consigo me lembrar de quanto tempo depois finalmente voltei a ser gente. O que significa, em meu linguajar dramático, que voltei a acordar para a vida e buscar respostas. Uma coisa era boa. Eu não estava sentindo dor alguma. Sentia meu corpo um pouco mais pesado, ainda mais quando tentei erguer o braço e não consegui.O movimento foi o suficiente para que atraísse a atenção de alguém que segurava a minha mão. - Rain... - aquela voz grave e rouca eu conhecia. Só poderia ser o meu Thomas. Mas parecia que ele havia chorado. Ou uma lixa tinha passado em sua garganta, o que me levou a perguntar pela milionésima vez, nos poucos espaços de consciência que eu tinha, por que raios ele dirigia com tamanha imprudência. Tentei falar alguma coisa, mas minha garganta parecia como se a mesma lixa que eu havia pensado que usaram em Thomas tivesse sido instalada ali.- Á... água... - consegui pedir. Rapidamente ele largou minha mão e percebi que pegou um copo em algum lugar e colocou um canudinho na minha boca. - Devagar... o médico disse que você tem que ir devagar... você acabou machucando sua garganta quando tentou arrancar o tubo de oxigênio... - ele falou calmamente e em um tom pesaroso. Bebi aquelas poucas gotas milagrosas e meus olhos acabaram se encontrando com os dele. Abaixo de seus olhos eu podia ver as manchas roxas que mostravam o grau de cansaço em que ele se encontrava. O que me levava ao pensamento de como deveria estar a minha aparência. Era melhor eu não pensar naquilo ou pediria ao médico para me anestesiar para que não fosse testemunha dessa minha desgraça visual. Como um pensamento tão ridículo e frívolo como esse passou em minha mente eu não faço ideia, já que deveria estar muito mais preocupada com o estrago que o carro poderia ter causado no meu corpo. Quando larguei o canudo, consegui erguer a cabeça, que parecia pesar três toneladas, e olhar para o meu corpo em busca de avarias. - Você quebrou três costelas, e a perna esquerda, mas não houve necessidade de cirurgia ou implantação de pinos. A fratura foi compacta e você está apenas imobilizada. Você tem um edema na cabeça, o que te fez ficar apagada por quase dois dias, mas os médicos acreditam que o líquido já esteja drenando e não haverá sequelas. Thomas falava com um tom de voz embargado e, quando olhei para ele, pude ver nitidamente as lágrimas caindo sem rumo em sua camiseta cinza. Era um momento louco, mas a cor da camiseta fez com que eu conseguisse distinguir as gotas que caíam livres. Ele pegou minha mão e levou aos seus lábios, chorando compulsivamente, mas eu não conseguia mexer meu outro braço para tentar consolá-lo. - Por que não consigo mexer meus braços? - Uma preocupação sorrateira deslizou em minha mente: talvez ele estivesse escondendo alguma lesão medular. Mas eu podia sentir meus braços e pernas, então acreditava que estava intacta. - Porque eles te deram uma dose cavalar de tranquilizante quando você tentou arrancar o tubo... e deve estar sentindo os efeitos ainda - ele disse e fungou um pouco. - Deus, Rain... eu nunca estive mais assustado em toda a minha vida. Eu... eu... nem pude acreditar quando recebi a ligação de sua irmã. Cheguei na escola e você já estava sendo levada na ambulância. Enquanto eu seguia para o hospital, meu celular não parava de tocar, as pessoas me dando o relato do que aconteceu. Olhei firmemente para ele e senti uma onda de amor imenso me inundar. Uma lágrima havia acabado de deslizar por nossas mãos unidas e eu acompanhava o trajeto da mesma.- E o que aconteceu? - perguntei finalmente. Observei o pomo de Adão de Thomas subir e descer nervosamente, e seu aperto ficou um pouco mais firme. Em seus olhos verdes eu podia identificar tanto medo quanto ódio. Dois sentimentos bem distintos. - Cybella roubou meu carro da garagem e partiu em direção à escola. Tive que ir para casa mais cedo, antes do treino, porque minha mãe ligou dizendo que ela tinha voltado do aeroporto e estava quebrando a casa. Novamente - ele disse revoltado. - Quando ela esteve para o fim de semana, se comportou, e
minha mãe achou que ela estivesse bem. Chegou a comentar que em breve teríamos encerramento da escola, com o baile de formatura e tudo mais. Como fiquei meio que escondido na sua casa, não acompanhei a interação de Cybella com as notícias. - Thomas falava e eu podia sentir a tensão tomar seu corpo. - Minha mãe pensou que ela iria embora tranquilamente no voo agendado e que estava tudo bem. Só que Cybella voltou do aeroporto sem que ninguém soubesse e, depois de causar uma destruição tremenda em casa, esperou que eu chegasse e, sem que percebêssemos, fingindo estar mais calma, correu para a garagem, levando meu carro.Eu ouvia atentamente tudo o que ele estava falando. Realmente não consegui identificar o motorista, já que usei os braços para proteger meu rosto e simplesmente fechei os olhos esperando o impacto. - Quando me dei conta do que ela poderia fazer, peguei o carro do meu pai e, quando estava chegando à escola, recebi a ligação de Sunny... e quando cheguei... - Sua voz se embargou completamente. Ele fechou os olhos e respirou fundo em busca de calma. - A ambulância estava lá e os carros de polícia. E... e... no chão eu só conseguia ver você sendo socorrida pelos paramédicos e... completamente
imóvel... - ele continuou e beijou minha mão. - Mas pensei que se... que se você estava sendo atendida então estava viva e... quando estava indo em sua direção eu soube o que aconteceu. Cybella estava sentada na calçada, meu carro destroçado e o airbag acionado. Os policiais estavam ao lado dela, que parecia estar em choque, mas eu não pude me conter. Comecei a gritar com ela, acusando-a de tentativa de assassinato, e só não consegui agredi-la fisicamente porque um policial me impediu e porque, logo em seguida, Mike chegou para me assegurar que iríamos para o hospital. Ergui uma sobrancelha e senti uma dor pontiaguda logo acima. Quando ele percebeu, passou o dedo em minha testa. - Você tem algumas escoriações aqui e ali. Era oficial. Eu deveria estar me assemelhando a um desastre de trem ambulante. - Então... Cybella me atropelou, foi isso? - perguntei, chocada ainda com a atitude da prima louca de Thomas. Uau. Quando ela realmente ameaçou minha vida, estava sendo séria sobre o assunto. Penso que eu deveria estar agradecida pelo estrago não ter sido tão devastador, já que, considerando a velocidade que um carro poderoso como aquele pode atingir, suspeita-se que o impacto não deixaria nem a poeira do objeto atropelado. Cara... quando eu estava me recuperando de uma surra passiva no chão, dias atrás, com meu corpo todo dolorido, eis que acontece algo para provar que aquilo não era nada comparado ao que eu poderia sentir na pele realmente. E nos ossos. E músculos. E ligamentos. - Ela está presa, minha mãe fez questão de assegurar isso. E também prestei queixa e os policiais virão colher seu depoimento aqui - ele disse e beijou meu rosto delicadamente. - Meu Deus, Rain... ainda estou completamente assustado pela simples ideia de quase ter perdido você. - Bom, isso prova que seu Porsche é uma merda de carro e que eu sou praticamente uma cria do Wolverine, certo? - Tentei fazer graça com a situação para ver se arrancava daquele rosto lindo, que eu tanto amava, a tristeza que estava alojada ali. - E meus irmãos? Onde estão? - Sunny foi para casa para descansar um pouco, já que não saiu do seu lado, e Storm esteve em casa aguardando notícias dos seus pais, que estão incomunicáveis. Blé... pense em um golpe mais dolorido do que o para-brisa impactante do carro de Thomas. Pelo jeito, meus pais realmente levaram ao pé da letra adotar o esquema de largar todas as comodidades do mundo capitalista para lá. Respirei fundo, porém me arrependi imediatamente. A dor nas costelas acabou me lembrando de que eu havia, sim, sido atingida de maneira brusca e total. - Quando poderei sair? - perguntei angustiada.- Por que a pressa? - ele brincou. - Prefiro você aqui monitorada por essa equipe em tempo integral. É garantia certa de que vai se recuperar. - Que dia é hoje? - perguntei ressabiada. - Domingo. - Thomas, como conseguirei ir ao baile de formatura desse jeito? - Tudo bem que eu não queria ir, mas também não precisava escapar daquela forma. - Com esse gesso e essas costelas, vai ser praticamente impossível eu estar inteira até o dia. Ah, não... Thomas... não era nesse mesmo baile que você receberia a premiação pelo excelente trabalho como quarterback e astro da escola? - Eu estava chocada. Thomas apenas riu e beijou novamente minha mão. - O diretor resolveu adiar o baile por conta do acontecimento traumático que rolou nos arredores de sua escola - ele disse, tirando sarro do diretor certinho. - E eu pouco me importo com a premiação. Sem você ali, não haveria sentido comparecer e eu tampouco sairia do seu lado por conta disso. Sorri maravilhada com a declaração de Thomas.- Eu te amo, Rain. Nada para mim é mais importante do que você. Nada. Nem mesmo o futebol, ou a possibilidade de seguir jogando por uma universidade, ou meu carro idiota, ou qualquer outra merda que você esteja tentando colocar na cabeça. Eu ri porque, até mesmo sendo romântico, meu Thomas conseguia ser tosco ao extremo. - Eu também te amo, Thomas - falei e dei um bocejo nem um pouco educado. - Durma mais, querida. Eu não vou sair daqui do seu lado. - Ele beijou meus lábios ressecados. - Fiquei com tanto medo de você simplesmente me dispensar por conta do que Cybella fez. Resolver não querer ter nada a ver comigo, já que eu trouxe essa merda para a sua vida... Consegui, por fim, mexer minha mão espontaneamente e passei pelos seus cabelos desgrenhados. Ainda assim ele era lindo. - Você não tem culpa de sua prima ser louca. Linda, mas louca de pedra - falei, fazendo uma careta. - Sua culpa talvez tenha sido só ter tido alguma coisa com aquela vaca louca e aí ela nunca conseguiu partir para outra e ficou nessa obsessão toda.Ele sorriu. - Durma, Rain. - Thomas passou os dedos suavemente sobre minhas sobrancelhas, num carinho típico que se faz em bebês, quando são colocados para dormir. - Não vou sair daqui em momento algum. Com essa promessa doce, acabei me rendendo ao sono dos justos.
Thomas
Quando cheguei ao hospital e soube do estado geral de Rainbow, quase surtei. Minhas pernas falharam, mas tive de me fazer de forte, já que Sunshine estava ali e Storm também. Ou seja, precisava demonstrar força e não fraqueza. Até mesmo para que pudesse ajudá-los em qualquer coisa. Assim que sentei na sala de espera, peguei meu celular e avisei meus pais. Meu pai correu imediatamente para a delegacia, prometendo que, dessa vez, Cybella não sairia impune. Seus atos haviam ido longe demais. Eu não deixaria meus pais passarem a mão na cabeça de Cybella dessa vez, como se nada tivesse acontecido. Mais de duas horas haviam se passado quando uma médica veio nos dizer o estado geral de Rainbow. Nossa sorte foi que minha mãe havia chegado ao hospital e fez-se passar por aguentado aquela verdade jogada na minha cara. Eu já estava com um medo do caralho de que, quando Rainbow acordasse, porque ela iria acordar, simplesmente resolvesse me dispensar de toda aquela merda e desgraça que minha bagagem lhe trouxe. Sunny tentou fazer contato com seus pais, mas estavam meio incomunicáveis. Senti raiva deles naquele momento. Não sabíamos a extensão das coisas, mas provavelmente Rainbow gostaria da presença de seus pais, não? Fizemos um sistema de escala para permanecer no hospital com Rainbow, e sempre fiz questão de manter o turno da noite. Na verdade, eu não fazia questão de sair do seu lado. Até mesmo Becca participava das escalas, mas, se dependesse de mim, eu assumiria integralmente o cargo e nem mesmo iria para casa. O diretor Jackson adiou o baile, as provas foram ajustadas para que ela fizesse depois. Eu consegui cumprir alguns trabalhos, inclusive garantindo notas duplicadas para Rainbow, já que alguns professores colocaram os trabalhos em dupla. Becca também estava dando uma força nesse quesito, cumprindo os trabalhos em dupla nas matérias que faziam juntas. Tudo estava se ajustando. Meu mundo entraria nos eixos novamente quando aqueles olhos verdes que eu tanto amava se abrissem e me olhassem com todo o amor que ela havia professado a mim dias antes.
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Rainbow
Ficção AdolescenteRainbow" Walker sempre se sentiu diferente das garotas da sua idade. Com um nome peculiar e uma família estranha, ela nunca conseguiu estabelecer vínculos ou manter muitas amizades. Agora, em uma nova cidade, ela terá de se adaptar a uma nova escola...
