A segunda-feira chegou rapidamente e cheia de momentos tensos. Thomas havia passado o domingo inteiro com seus pais, refazendo todo o guarda-roupa e acabou ficando em casa em vez de voltar para a minha. Era quase meia-noite quando ele me enviou uma mensagem avisando que tinha acabado de chegar e que iria ajudar o pai a tentar ajeitar a merda que seu quarto se transformara. Meus receios estavam relacionados às possíveis fofocas que surgiriam por conta do evento da sexta-feira na casa do treinador. Eu não tinha ouvido nada de Jason, mas Becca havia me ligado no domingo para saber da história, o que significava que alguém havia contado. Meu rosto ainda ostentava uma mancha roxa não tão grotesca, mas tentei disfarçar com um pouco de maquiagem de Sunny. Prendi o cabelo em um rabo de cavalo baixo e lateral e completei com um pequeno toque de perfume atrás da orelha. Eu realmente estava um pouco mais vaidosa depois de tudo. Peguei as chaves do carro e gritei para minha irmã: - Sunshine!Vamos! - Já vou! Estou só terminando meu cabelo! - Não temos tempo para seu momento de beleza, Sunny - ralhei e peguei minha mochila no canto na porta. Sunshine desceu as escadas às pressas e passou por mim como um furacão. - Vamos! Quando me sentei atrás do volante, olhei feio para ela. - Que eu saiba, era eu que estava te apressando, fofa - disse, rindo. - Sim, sim... entendi. Mas preciso chegar antes da aula começar e saber notícias quentes. - Notícias quentes do quê? - Do fim de semana maravilhoso... - ela ironizou. - Olha, se prepara porque já sabem de sexta-feira, de sábado e de domingo... Quase freei o carro com força. - Domingo? O que tem domingo? - Thomas comprando roupas e mais roupas etc. - Meu Deus, o que essa escola tem? Informantes? Sunshine riu. - Tipo isso, garota. Não se esqueça de que esta é uma cidade pequena, Rain. As pessoas ficam antenadas nos acontecimentos das vidas das outras, como se fosse um reality show, ou algo parecido. - Isso é doentio, Sunny. E eu achava mesmo. Ficar atrelada aos acontecimentos que rolavam, às fofocas, aos agitos, quem havia ficado com quem, quem havia terminado com quem... bem... mas quem eu queria enganar? O Ensino Médio em todas as escolas do país, se não no mundo inteiro, funciona de maneira praticamente igual. A sistemática era a mesma. Adolescentes eram movidos por eventos caóticos. A escola era um berço dos mais variados tipos de pessoas e futuros cidadãos da humanidade. Do bem ou do mal. Porque há de se convir que muitos sociopatas e psicopatas devem ter tido seu momento de Ensino Médio. Pensar naquilo me deu um calafrio. Quando cheguei, o carro de Thomas não estava no estacionamento, e resolvi que deveria lhe dar o tempo necessário. Eu também não queria ser a namorada pegajosa e GPS total, querendo averiguar seus passos etc. Cheguei à sala e todos os olhos estavam concentrados onde? Exatamente onde você pensou. No meu rosto. E em minha tentativa débil de camuflar o hematoma óbvio que sobressaía. Graças a Deus o tempo estava frio e as roupas podiam cobrir meu corpo. Dessa forma eu não teria ninguém vasculhando minhas partes em busca de mais lesões remanescentes da luta corporal onde eu era o recheio do sanduíche. - Meu Deus, garota! Eu bem que pedi pra você tirar uma selfie e me mostrar essa porra e você disfarçou! - Becca disse, nada discretamente. O professor entrou na sala e me deu uma olhada de esguelha, mas fingi que não percebi. Concentrei meus esforços na aula.Becca trocava bilhetes esporadicamente comigo. Me conta o que houve. Olhei de cara feia para ela e a garota simplesmente riu. Depois te conto tudo. Em tempos de modernidades, ainda estávamos trocando bilhetinhos! Morri de rir da situação. Quando as duas aulas seguintes vieram, o martírio aumentou. Jason estava no mesmo recinto e passou o tempo inteiro incitando seus amigos ridículos, bem como as hienas, a compartilharem bochichos ou alguma coisa que os faziam rir, e receber olhares de repúdio dos professores em questão. Meu celular vibrou dentro da mochila e, mesmo sem querer, já que eu nunca o averiguava, não controlei o impulso e fui checar. Na esperança de que fosse Thomas. Suspirei aliviada quando vi que era ele. Cheguei atrasado. Tenho reunião com o treinador e não vou para o refeitório. Te vejo depois? Olhei rapidamente para o professor e digitei escondido, com o celular ainda dentro da mochila.Okay. Eu estava com uma sensação de frio no estômago e não sabia explicar o porquê, mas quando o sinal para o intervalo tocou, pareceu só intensificar meu mal-estar. Peguei minha mochila, relutantemente, e saí para encontrar Becca. Esta me aguardava com toda a paciência do mundo, afinal estava sedenta por informações. - Então? - Meu Deus... é um relato longo... quase tão longo quanto As Crônicas de Gelo e Fogo, você tem certeza de que está pronta para ouvir? - zombei e nem sequer me afastei quando ela colocou o braço sobre meus ombros. - Querida, meus ouvidos podem sangrar, mas eu nunca vou reclamar de escutar uma fofoca daquelas... Comecei a contar o episódio desde o início, a partir do momento em que nos dirigimos para a festa pós-jogo. Claro que omiti as sensações vertiginosas que senti nos braços de Thomas com aquela dança sensual que me fazia tremer as pernas e a parte baixa da minha barriga até aquele momento, somente com a lembrança. Nos acomodamos em nossa mesa de sempre e, depois que
apanhamos nossa comida, continuamos nossa conversa tranquila e corriqueira. Acabei omitindo algumas coisas, já que alguns fatos pessoais eram de Thomas, não meus. A mesa onde estavam Jason e seus capangas e as gralhas secas, seguidoras leais de Tiffany, era barulhenta e incomodava pelo riso escrachado. Em algum momento pude sentir o silêncio no salão e todos os olhos estavam voltados para mim. Aquilo foi bem perturbador. Jason olhou para mim, em seguida fez seu número ridículo chamando a atenção de todos no refeitório. Caminhando calmamente em direção à mesa onde eu e Becca estávamos, ele parou e me olhou com um ódio puro e ardente no olhar. - Sabe o que eu acho, Rainbow? - A maneira como ele disse meu nome fez meu estômago dar voltas. Senti a raiva subir para as ponta dos meus cabelos. - Eu acho que você é uma esquisita. Sua irmã é estranha e seu irmão é ridículo. Que caralhos de nomes são esses, pelo amor de Deus? Que pais normais dariam o nome de um arco-íris ridículo para a filha? Ou algo a ver com o brilho do sol... e pior ainda... - Ele começou a rir e percebi que a horda de alunos babacas que andava com ele também estava rindo. - O nome do seu irmão deveria ser proibido na face da Terra! É ridículo termos no nosso time uma criatura como aquela. Tempestade de Trovão? Porra! É hilário, para não dizer outra coisa. Todos riam à custa dos nossos nomes. Olhei para cada um naquele refeitório e marquei seus rostos como sendo pessoas vis que não tinham o mínimo de respeito por ninguém. Apenas alguns que estudavam comigo, e se relacionavam de alguma maneira amigável, não estavam rindo ou cacarejando como a maioria. Levantei de onde eu estava sentada e afastei minha bandeja de comida para o lado. Fui corajosa o suficiente para chegar à frente de Jason Babaca Carson e fulminá-lo com meu olhar. Tempestade? Mal sabia ele a que eu tinha ardendo dentro de mim naquele instante. Eu sabia que deveria simplesmente virar e ir embora. Era o mais correto a fazer, evitar me envolver em conflitos, ser a parte mais madura e simplesmente sair dali com a cabeça erguida. Senti Rebecca logo atrás de mim e eu sabia que ela também fervilhava de raiva. Era bom ter uma amiga que estivesse ao meu lado. - Sabe de uma coisa, Jason? - falei em uma voz suave. - Penso que seus pais devem ter achado o seu nome e retirado daquele personagem de filme de terror dos anos 1980, sabe? Jason? De Sexta-Feira 13? Seria até interessante você pesquisar se o dia do seu nascimento não se deu nessa data ou no dia em que o filme passava na TV. - Ouvi o silêncio geral. Poderia alguém ouvir o silêncio? Eu, sim. - Combina perfeitamente com a pessoa horrível que você é. Sua meta é tentar destruir as pessoas que não cedem à sua vontade, certo? Como eu não cedi a nenhum de seus avanços desde que cheguei à escola, essa foi sua forma infantil de vingança. Agora o pandemônio estava instalado. Ouvi os "ohs" e "ahs" por todo o lugar. Jason estava com o rosto vermelho e aparentemente sua capacidade de falar havia sido perdida em algum lugar lá atrás. - Eu acho esse tipo de atitude ridícula. Você é um garoto mimado, cheio de pompa, seboso e um projeto patético de adulto prepotente e arrogante. - Eu sentia meu corpo vibrar como um diapasão. Gozassem comigo e tal, mas não metessem minha família no meio. - Meus irmãos podem ter nomes que você acha engraçado e sente a necessidade de zoar, mas por dentro são seres humanos fantásticos e lindos. - Eu quase cuspia. Senti um puxão na minha blusa e vi que era Sunshine tentando me tirar dali. - Nunca... nunca mais ouse erguer os olhos ou abrir essa boca imunda para falar qualquer coisa dos meus irmãos novamente, entendeu? - Quem você pensa que é, garota? - ele gritou. Ergui meu corpo com atitude e respondi: - Eu sou alguém a quem você não tem o direito de achar que pode dirigir a palavra. E provavelmente sou aquela que vai chutar a sua bunda, de alguma forma.
Os risos estalaram, mas Jason estava completamente possuído por um ódio irracional. Naquele momento, a multidão de alunos afastou-se em um corredor, tal qual o mar vermelho se abrindo, e o diretor chegou ao nosso lado. - Mas o que está acontecendo aqui? Alguém poderia me explicar? - perguntou em um tom de voz irritado. Rebecca nem sequer hesitou. - Esse babaca do Jason veio todo cheio de ofensas para cima da Rainbow e de seus irmãos - ela disse, com ódio fervilhando em seus olhos. - Eles não fizeram absolutamente nada. Estávamos todos aqui comendo nossa refeição e esse babaca já chegou falando merda. Na verdade, esse idiota está pentelhando desde as aulas do início da manhã. O diretor olhou torto para Becca. - Controle o linguajar, Srta. Linberg. Eu sabia que aquele episódio muito provavelmente renderia uma detenção, mas eu não estava nem aí. - Isso só aconteceu porque o senhor deixou essa gente hippie e esquisita se matricular na escola,diretor Jackson. - Cale-se, Jason! - ele gritou. - Arrume suas coisas e vá direto para a sala de detenção. Vou chamar seus pais e conversar com eles mais tarde. Jason perdeu toda a cor do rosto. Eu apenas aplaudi por dentro. Mas senti um medo do caralho de que o diretor também resolvesse chamar meus pais. - E você, Srta. Walker, queira me acompanhar à minha sala, por favor. - Mesmo que o tom de voz tenha sido enfático, percebi que sua voz havia abrandado. Sunshine segurou minha mão e percebi que seu intuito era ir junto. - Não, Sunny. Fique aqui e siga para sua próxima aula - falei e abracei minha irmã, que tinha lágrimas nos olhos. - Não se perturbe com nada que esse babaca falou, okay? Eu amo o seu nome e tenho certeza de que muita gente tem inveja de quão estiloso ele é. - É isso aí, Sunny. Eu mesma queria ter um nome tão legal assim quanto o seu - Rebecca disse e eu sorri em agradecimento. Sunshine enxugou uma lágrima, me abraçou e perguntou baixinho em meu ouvido: - E se o diretor resolver chamar a mãe ou o pai, Rain? - Seu sussurro era num tom assustado. Passei a mão em suas costas, tentando acalmá-la e me acalmar também. Eu tinha de pensar em alguma alternativa. - Vou pensar em algo, Sunny. Não se preocupe. E não deixe Storm saber disso - falei e olhei bem firme em seus olhos assustados. - Ele já se envolveu na briga de sexta com esse babaca e não pode ter mais nada, ou vai levar uma suspensão, aí, sim, os nossos pais vão ser solicitados... e aí, sim, nós estaremos muito fodidos.Ela sacudiu o rosto em concordância e se afastou dali, não sem antes olhar para trás. Sentindo orgulho, talvez, de que eu não tinha deixado passar essa porra de bullying incólume. Não mais. Naquele motim todo, senti falta apenas de Thomas, que nem sequer apareceu por ali. Não que eu esperasse que ele viesse a galope em um cavalo branco, com uma armadura brilhante, pronto para ser meu defensor. Eu não precisava de nenhum. Mas seria bom que ao menos ele estivesse ali. Graças a Deus, Storm tinha treino após a refeição e me avisou que estaria fazendo um lanche qualquer no próprio ginásio, antes de seguir para o campo. Eu não queria que meu irmão tivesse ouvido as ofensas proferidas contra ele, mas sabia que de alguma forma ele acabaria se inteirando de toda a confusão mais tarde. Não poderia impedir que ele sentisse a mágoa que eu tinha certeza de que sobreviria. Mas melhor ele sentir mágoa do que resolver partir para a briga com o idiota. Peguei minha bolsa e segui o diretor Jackson em um silêncio reservado. Becca seguia ao meu lado, em um silêncio nem um pouco usual, apenas como apoio moral.Quando chegamos à porta da diretoria, ela me deu um abraço rápido e se afastou para seguir em direção à aula. Respirei fundo e me preparei mentalmente para o que viria.
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Rainbow
Novela JuvenilRainbow" Walker sempre se sentiu diferente das garotas da sua idade. Com um nome peculiar e uma família estranha, ela nunca conseguiu estabelecer vínculos ou manter muitas amizades. Agora, em uma nova cidade, ela terá de se adaptar a uma nova escola...
