Cheguei em casa, mas não era mais o meu lar. A guerra aberta entre meus pais explodiu no corredor. Meu pai estava expulsando minha mãe, a tratando como um pedaço de lixo, os olhos incandescentes de raiva enquanto ele bradava que a casa era dele. Minha mãe me puxou por um braço, e meu pai, pelo outro. Fui esticada entre eles, um cabo de guerra macabro.
— Parem, estão me machucando! — gritei, a dor física quase me sufocando.
— Ela vai comigo! — minha mãe gritou, a voz embargada.
— Vai levar ela pra onde? Pra debaixo da ponte?! — zombou meu pai, cada palavra uma facada.
— Não te interessa!
— Ela fica! Se acha que tem algum direito, entra na justiça!... Agora entra, Maia! — ele gritou para mim, sua fúria virada em minha direção.
— Parem de gritar! — implorei, as lágrimas já quentes em meu rosto.
— Suba agora, Maia!
Soltei meu braço dos dois, a pele vermelha e ardida, e corri. Corri para meu quarto, subi as escadas aos tropeços, e me tranquei lá dentro, o som da fechadura um pequeno refúgio. Chorei a noite inteira, até a exaustão me vencer e o travesseiro estar encharcado.
No dia seguinte, um silêncio opressor tomou a casa. Meu pai foi trabalhar, me deixando sozinha na imensidão daquele lar agora vazio. Não demorou muito, e minha mãe apareceu na porta.
— Filha, vamos embora! — disse ela, os olhos suplicantes.
— O papai vai ficar furioso! — hesitei, ainda presa ao medo.
— Vamos!. . . Agora, Maia! — Ela me pegou pelo braço, com uma urgência que não permitia discussão, e me colocou dentro do carro.
— Minhas coisas, mãe! — meu coração apertou.
— Depois eu dou um jeito! — Ela ligou o carro, os pneus cantando no asfalto.
— Pra onde vamos? — perguntei, a voz um sussurro.
— Pra casa dos seus avós!
Chegamos lá e fui abraçada por um amor que há muito não sentia. Meus avós me acolheram com carinho, e a saudade deles, um buraco que eu nem sabia que tinha, finalmente foi preenchida. Mas a ausência do meu pai era uma ferida aberta, e a falta de notícias de Jonas, meu melhor amigo, me consumia. Eu não o vi por quase um ano, e aquele tempo longe dele, somado ao trauma da separação, me afundou. Emagreci tanto que mal me reconhecia no espelho, a depressão se instalou e precisei de remédios para me manter de pé.
Depois de um ano de sofrimento, finalmente revi meu pai, embora a distância ainda pesasse. O tempo foi passando. Perdi meus avós maternos, as âncoras da minha breve paz. Minha mãe se casou de novo, uma tentativa de recomeço que parecia fútil para mim. E então, tomei a decisão. Decidi ir morar com meu pai.
Chegando em casa, respirei fundo. Meu quarto estava como eu tinha deixado, uma cápsula do tempo congelada. Estava tudo limpo, é claro.
— Deixei do mesmo jeito, filha! — disse meu pai, a voz embargada.
— Percebi! — Aquele quarto, cheio de memórias, era um eco do que eu fui.
— Acho que não vai mais brincar de boneca, né?
— Não, vou arrumar tudo e fazer uma doação! — A infância, com suas bonecas e inocência, parecia tão distante.
— Se quiser, pode comprar tudo novo!
— Obrigado, pai!
Meu pai parecia cansado, envelheceu muito rápido naqueles últimos anos, as rugas mais profundas, o olhar mais pesado. Comecei a encaixotar as coisas. No fundo, tudo o que eu mais queria era ver Jonas. Não via a hora de chegar segunda-feira para encontrá-lo na escola. A esperança era um pequeno fogo em meu peito.
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Amor Secreto - Degustação
Novela JuvenilNum palco onde a vida imita a dança, Maia é uma jovem bailarina que se equilibra entre os passos tortuosos de um passado familiar conturbado e a busca incessante por seu lugar no mundo. Enquanto lida com a redescoberta de um amor de infância, Jonas...
