Canções sem acordes

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No dia seguinte, encontrei Brian concentrado, escrevendo no seu velho caderno, com certeza escrevendo a letra de uma nova música. Lembrei imediatamente da noite anterior, antes que eu pegasse no sono, ele estava com uma nova ideia na cabeça.

-Oi, não te vi acordar - falei me sentando ao lado dele - Jimmy ainda está dormindo?

-Tá sim, como um anjinho - Brian sorriu - e você? Está bem? Se sentindo mais disposta? Ou ainda está cansada? Nós sabemos que pode ser por causa do bebê, mas mesmo assim, nós precisamos ir ao médico.

-Nós? Não me diga que também está doente? - brinquei com ele, o que deixou meu marido espantado.

-Minha Chrissie não costuma fazer essas piadinhas! - ele cruzou os braços, um pouco indignado.

-Desculpe, foi só pra te descontrair, está preocupado demais outra vez - remediei - e eu acho maravilhoso você querer me acompanhar ao médico.

-Ora, é o meu trabalho, meu dever, minha promessa que fiz cuidar pra sempre de você - ele beijou minha bochecha, me puxando pra mais perto dele - de vocês.

E nisso, Brian fez um carinho na minha barriga.

-É um pouco cedo pra falar com o bebê - eu o avisei, embora seu cuidado me deixasse muito feliz.

-Puxa, outro filho... Isso é... Incrível, eu só... Bom, não planejamos exatamente, mas é uma grata surpresa, com certeza - Brian estava naquele estado de emoção que tentava achar palavras - eu não disse, mas estou muito, muito feliz.

-Eu sei, nem precisa me dizer, eu sinto o que você tá sentindo - eu sorri de volta pra ele, era em momentos assim que me perguntava se minha vida era real - então, no que tá trabalhando? Eu sei que está doido pra me contar.

-Ah sim, tem razão, meu amor - e de repente ele se levantou, todo animado e me deixando confusa.

-O que é que você vai fazer? - tive que perguntar - ou é pra eu fazer alguma coisa?

-Na verdade, nós dois temos que fazer isso juntos - Brian ainda soava enigmático, e não conseguia parar de sorrir.

-Meu Deus, Brian, pra que isso tudo? - disse um pouco irritada, já que ainda não tinha entendido nadinha.

-Eu tive uma ideia pra uma música nova - ele começou a explicar.

-Isso já deu pra perceber - cortei.

-Certo, só que preciso testar se ela vai funcionar sem acordes - disse Brian.

-Sem acordes? Como assim sem acordes? Só o ritmo? - achei a ideia um pouco absurda.

-Posso adicionar acordes no solo, mas a música toda precisa funcionar só com o ritmo, porque quero que os fãs façam isso - continuou ele - bom, eu sei que parece doido, mas num ambiente apertado e pequeno, estava pensando no que o público podia fazer pra nos acompanhar.

-Eles já fazem isso batendo palmas - comecei a acompanhar o raciocínio do meu marido.

-Só que tem outra coisa mais grave, grave no sentido de tom grave, não um problema grave - ele esclareceu, um pouco atrapalhado.

-Eu entendi o "tom grave" - fiz uma voz grossa pra mostrar que entendi a expressão - só me mostra o que tenho que fazer.

-Ok, então bate os pés, um de cada vez, um após o outro - Brian me instruiu e depois me mostrou.

Repeti seu gesto, o que causou o som grave contra o piso "tam tam".

-Assim? - continuei fazendo.

-Isso, agora, bate uma palma depois de bater os pés - ele disse e fez assim, eu fiz igual logo em seguida.

-Isso é... Nossa, bem esperto - elogiei, já prevendo onde Brian queria chegar.

-Ok, continua - ele pediu e continuamos, ecoando "tam tam tam" pela sala.

Sem aviso prévio, Brian esperou um tempo pra entrar no ritmo e começou a cantar. A letra era sobre alguém falando a um companheiro, um menino, que ele deveria conquistar o mundo.

Então veio o que identifiquei como o refrão. "We will, we will rock you...". Depois de aprender, o acompanhei cantando, Brian assentiu aprovando minha companhia. A letra continuou transcorrendo, e quando ele dava as deixas do refrão, entrava junto. Até que ele deu uma pausa brusca.

-Que foi? Vai colocar mais alguma coisa? Pra mim, tá ótima assim - comentei.

-Só um solo de guitarra pra finalizar - disse ele, sorrindo com orgulho.

-Você e seus solos - balancei a cabeça.

-Ei, eu sou o guitarrista, tenho que inventar o que fazer senão não vou ter o que fazer nessa banda - ele deu de ombros.

-Olha só quem está fazendo piadas agora - tive que cutucar, o que só fez com que Brian risse mais.

Toda aquela movimentação só fez Jimmy acordar, o que foi bom pois tivemos nosso café da manhã juntos em família.

Brian decidiu guardar essa ideia de " We will rock you", enquanto ele e os meninos trabalhavam nas outras canções para o novo álbum. A inspiração de Brian era bem variada, no sentido de que mais uma vez ele compôs canções diferentes pra um mesmo álbum.

"Save Me" e "Sail Away Sweet Sister" tinham um tema parecido pra mim, sobre perder alguém amado, e as diferentes reações a isso. A primeira era alguém desesperado por socorro, como se só a pessoa amada pudesse salvá-lo, enquanto a segunda soava meio amarga, como se quem perdeu a pessoa amada não estivesse se importando com o que aconteceria com ela dali pra frente. Sem querer, isso me fez lembrar de Freddie, e o conflito que eu tinha em relação a ele. Sabíamos que por dentro ele pedia por ajuda, mas por fora, não queria aceitar. E nós estávamos cansando de oferecer ajuda. Era triste, mas era real. E eu podia dizer que tinha um pouco disso nas canções de Brian.

Vendo-o ensinar essas duas músicas aos meninos me fez refletir nisso tudo, e é claro que as lágrimas me traíram. Por ironia do destino, o próprio Freddie foi o primeiro a notar meu estado.

-Poxa, Brian, tá fazendo alguma coisa com a sua esposa, porque ela tá chorando outra vez - comentou o vocalista num tom de brincadeira.

-Tem que parar de escrever músicas tristes, Bri - recomendeu John.

-Ai, não é nada disso - me levantei em minha defesa - talvez um pouco, as músicas do Bri costumam ser tristes.

-Ei! - reclamou meu marido, indignado.

-Nem todas, Bri, não importa, eu acabo gostando de todas - eu sorri - meu choro tem a ver com outra coisa também.

-Vai contar agora? - Brian entendeu a que eu me referia - vai deixar as meninas sem saber primeiro de novo?

-Bom, o bebê me fez chorar e vou ter que falar - dei de ombros - bom, pessoal, em breve a família May vai ganhar mais um membro.

E assim, Roger e John vieram nos abraçar, e Freddie, por último, mas depois acabou se rendendo à alegria do momento.


A/N: E aí galera? Tá aí um capítulo de hoje! We will rock you é incrível! Sempre me surpreende como o Brian escreveu ela só com o ritmo. Espero que não tenha ficado repetitivo o Brian ensinando as palmas pra Chrissie porque ele faz isso no filme, aliás, no filme tenho a impressão que ela já sabia exatamente o que fazer, por isso ela se oferece tão rápido pra ajudar o Brian, e por isso tive a ideia dele ensinando ela antes. E realmente, Save Me é triste, mas eu gosto assim como Sail Away Sweet Sister, que me faz lembrar minha irmã. E essa empolgação do Brian com os solos me lembra o guitarrista da banda que eu toco, só que ele é tão exagerado que chega a irritar. Bom, é isso, espero que tenham gostado, té mais!

Pelo olhar de ChrissieHistórias para pegar e não largar. Descubra agora