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21 - Força divina

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Sophia Castillo's Point Of View

Um mês depois

As gotas gordas e pesadas da chuva atrapalhavam a minha visão enquanto eu tentava dirigir com calma por entre as ruas molhadas de Miami. Os estrondos causados por elas, me faziam pular a cada trinta segundos.

Eu odiava tempestades.

Apreciava aqueles dias preguiçosos do outono onde as chuvas vinham com calmaria, deixando aquele cheirinho gostoso de grama molhada e permitiam que o dia fosse gasto tomando canecas de chocolate quente e cochilos embaixo de uma manta quentinha. Totalmente ao contrário da noite de hoje.

Eu me sentiria mais tranquila caso eu percebesse que estava perto de casa, com uma outra presença ao meu lado e o celular com bateria. Porém eu não possuia nada disso.

O trânsito estava horrível e a falta de disposição do meu carro - a cada semáforo eu tinha que reinicia-lo porque ela desligava sozinho - me deixava ainda mais assustada. Implorava para que ao menos eu pudesse chegar em um posto de gasolina e procurar alguma ajuda.

Nada estava dando certo no dia de hoje. Por mais que hoje fosse um daqueles dias no qual eu e Cecília íamos juntas para a agência, esse fato emocionante não trouxe nada de incrível para a nossa rotina. Durante a tarde, minha amiga decidiu deixar para outro dia todos os seus compromissos e cair de braços abertos para uma longa conversa com o seu ex. Seu aviso fora somente uma mensagem de texto que contava que ela passaria a noite fora.

Mas olha só, nós saímos juntas e atrasadas e somente agora, eu percebia que a chave no qual usamos para fechar o apartamento, estava com Cecília. Mas Sophia, onde está a sua chave? Na ilha da cozinha, junto com a carteira e o carregador portátil do celular. Então sim, eu estava sozinha, dirigindo um carro bipolar as onze da noite numa sexta feira em Miami, na chuva, sem bateria no celular e sem chaves para entrar em casa.

Implorava para que caísse uma força divina que pudesse me ajudar.

Começando a melhorar míseras porcentagens da minha situação, eu encontro um posto de gasolina. Não hesitei em estacionar o carro numa parte tranquila e um pouco afastada da onde teria o suposto movimento, mas assim que eu desliguei o motor, percebi que aquela fora a despedida do carro. Eu estava certa, nas outras dez vezes que tentei ligar o motor, ele não correspondeu.

Mais um problema para mim. Oba!

Eu estava prestes a entrar em pânico, já começava a considerar a ideia de dormir dentro do carro ou da lojinha de conveniência. As chances de algum mecânico gostosão chegar com sua maleta e o peitoral marcado sujo de gracha eram tão pequenas quanto a minha vontade de beijar um sapo. Dessa vez, eu estava na merda.

As coisas só pioravam. A chuva, ao invés de diminuir aumentava cada vez mais e eu estava prestes a achar que teríamos um segundo dilúvio. Me trancar dentro do carro só resultava no pré pânico da claustrofobia e eu estava dando o braço a torcer para entrar na lojinha de conveniência e fazer companhia ao cara gordo atrás do balcão até o amanhecer.

Como se não bastasse, minha barriga roncava como se um dragão e uma hidra guerreassem dentro do meu estômago. Ótimo.

Meus próximos atos não foram os mais conscientes, mas eu estava brincando demais com todos os meus medos trancada no carro, por isso eu soltei o cinto, respirei fundo e sai do carro enfrentando as gotas de chuva pesadas correndo em disparada para a parte coberta do posto. Estava encharcada, mas consegui alcançar a porta de vidro da loja sem desmaiar.

Céus, eu quero muito que uma força divina caía sobre mim.

De primeira, fingi estar perambulando por entre os corredores de comida a procura de algo específico. Mas na realidade, eu preparava um grande discurso para o cara gordo atrás do balcão para explicar a minha situação para que ele pudesse fazer algo sobre. Duvidava muito que isso acontecesse, o posto estava mais vazio e sem movimento que deserto. Podia até ser cena de filme, onde passava aquelas rodas de poeira para enfatizar a solidão do lugar.

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