Wiliam Pov
Horas depois de deixar o estado de Washington, meu avião pousava no Condado de Airlington. Por estar sem bagagem, resolvi ir a pé a Universidade para tomar meu tempo e pensar. Olhei para o céu azul, desolado. Ainda que o sol brilhasse, ele não era capaz de aquecer o frio dentro de mim.
Durante a caminhada, tentei desfiar tudo com imparcialidade e entender o que aconteceu, mas foi inútil. Não cheguei a um ponto. Entrei em meu quarto frustrado e, em movimentos automáticos, despi-me, tomei banho rápido, coloquei uma bermuda e me joguei de bruços na cama, deixando mais uma vez as emoções fluírem. A sensação de incapacidade, a descrença, a aflição e falta de forças em ao menos descobrir o que aconteceu me deixavam impotente. Essa experiência me trazia uma percepção do que eu teria que enfrentar com sua ausência. Obviamente a dor em meu peito, rejeição e solidão seriam minhas companheiras. A única esperança e que futuramente tudo se tornasse mais fácil.
No decorrer dos dias, torci que não fosse real, torci pra que essa dor absurda parasse de doer. Mas quando abria os olhos deparava-me com a realidade do fim, principalmente hoje, quinta-feira, o dia que eu deveria estar acordando com ela... A mágoa, tristeza e desapontamento alargavam-se em meu peito. E estar no escuro aumentava o ressentimento.
Direcionei ao parque National Mall para correr e me distrair dos questionamentos e revolta que não calavam. Depois de um alongamento, iniciei a corrida fustigado pelo vento frio no rosto, frio como minha vida, meu coração. Não era sensato forçar uma situação e ligar para ela, convenci-me. Ela devia ter seu tempo para pensar, embora pensar não parecesse ser o que ela precisava... Ela estava decidida.
E o que eu faria se não houvesse volta?
Por minutos de corrida, tentei não pensar em respostas, mas a realidade incitava-me a formular opções de vida sem ela, opções estas que em todo o momento meu coração rejeitava. E se ela não retrocedesse? De novo me perguntei. A resposta surgiu do fundo das minhas defesas. Eu evitaria ir ao estado de Washington para evitá- la, então quando fizesse vinte e cinco anos entraria no processo seletivo para diplomata e mudaria de país. Quem sabe com continentes nos separando eu conseguiria esquecê-la.
Meu coração rejeitou energicamente a ideia, fazendo com que meus músculos do estômago se contraíssem de dor. Sentei num banco de cimento e me dobrei, com uma nova lágrima doendo no coração. Droga! Eu não iria conseguir emergir da tristeza. Essa lágrima doeria para sempre. Embora a dor seria um sinal de que nós dois existimos, de que nossa história foi real.
Mais tarde, entrei no corredor do Capitólio distraído, respondi aos cumprimentos de alguns parlamentares, apático, e encontrei Ashley a poucos metros do gabinete do senador. Após cumprimentar-me, ela acompanhou-me no restante do trajeto.
‒Wiliam, você está com algum problema? ‒Forçou, invadindo meu espaço. ‒ Estou te achando meio abatido esses dias.
‒Estou bem. ‒ Rejeitei a atenção secamente e segui até minha sala. Ela sentou em frente à minha cadeira. Soltei o ar impaciente. ‒Pois não? ‒ Arqueei a sobrancelha cético com sua insistência.
‒Quero conversar. ‒ Avisou decidida e cruzou as pernas sem intenção de sair.
‒Não estou com tempo. ‒ Rechacei sem reservas e liguei o computador, ignorando-a.
‒Por que você não pegou carona no avião do meu pai para a Califórnia ontem? ‒Insistiu. ‒ Eu esperei que você fosse para falar com você ‒ explicou desajeitada.
Eu suspirei e olhei-a mal-humorado, os dedos tamborilando na mesa num claro aviso de indisposição e desinteresse.
‒Wiliam, por favor, pare de me tratar como um irritante inseto por eu gostar de você. Eu não tenho culpa dos meus sentimentos. ‒ Implorou humilde. Parte da minha irritação dissipou ao ler seu tom.
‒Não são seus sentimentos por mim que me incomodam. ‒Esclareci neutro. ‒É sua falta de profissionalismo quando usa de minha relação com seu pai para promover
absurdas propostas. ‒ Defendi, ao tempo que acessava e visualizava as últimas fotos de May para revista de noivas tiradas no Texas.
‒...Prometo que não irei mais entrar nesse tipo de assunto. ‒Ela estava dizendo, mas eu me distraí com a tela. ‒ Esquece, por favor. Não quero que nosso clima como colegas de trabalho fique assim.
Seu tom chamou-me atenção e observei-a, inspecionando a honestidade em seu tom.
‒Tudo bem. Esqueçamos aquilo. ‒ Concedi, encerrando o assunto. Ela não saiu, como eu esperava que fizesse. Inclinou-se sobre a mesa e bisbilhotou as fotos que eu olhava na tela de LCD.
‒Quando vocês casam? ‒ Questionou curiosa.
As palavras fugiram da minha boca diante do impacto causado pela
pergunta. Uma onda de tristeza repentina me envolveu e passei algumas fotos em silêncio, tentando me recompor do embate. Perguntei-me que resposta eu daria de hoje em diante quando essa pergunta fosse feita, se nem coragem de ligar para Carlos eu tive desde que rompemos! Eu teria coragem de assumir, principalmente a essa garota, que não iria haver mais casamento? Não. Contudo não recorreria à mentira.
‒Não temos mais data definida ‒ respondi evasivamente, resposta que também me machucou.
‒Por quê? ‒ Abriu a boca confusa.
‒Ela está... ‒ Balbuciei incerto. Como definir o que eu não sabia explicar? ‒... Ela está pensando na data ainda. ‒ Baixei o olhar desolado.
Ela reteve-se ao silêncio. Eu podia imaginar as suposições levantadas em sua mente.
‒Ela... Está dando um tempo? ‒ Supôs cautelosa.
Deixei os ombros caírem derrotados, fechei os olhos e esfreguei a fronte com os dedos, tentando acreditar que realmente era isso... Um tempo.
‒Acho que sim. ‒ Concordei, desprezando-me por ter baixado as defesas e ter deixado o assunto ir tão longe.
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Amor VS Poder
RomanceMay é uma das herdeiras de uma influente organização de notícias e publicidade do país. Musicista alto astral, apaixonada pelo pai e unida aos irmãos, vive num mundo em que luxo e riqueza são parte de quem ela é. Ao conhecer o filho humilde de uma...
