May
*Dias atuais. Cinco anos após o casamento*
De olhos fechados, senti pelo barulho do motor quando o avião sobrevoava baixo, pronto para pousar. Olhei pela janela e suspirei. A cidade tinha a aparência desolada de um campo de destruição, poucas árvores e monumentos destruídos. Em nada parecia a bela vista da nossa cidade. Olympic. A cidade que eu aprendi a amar. O lugar onde vivemos os anos mais felizes de nossa vida de casal.
Não compreendi o motivo de ter viajado para Ásia no avião do exército americano quando meu pai tinha o próprio avião, mas papai explicou que a embaixada exigiu que fôssemos num avião com radar anti-bomba, mísseis e equipamento de guerra, para nossa proteção. Eu concordei preocupada. Por que a superproteção se o país estava em tempo de paz?
O avião pousou na base do exército americano.
—Nossa, aqui é muito quente! — Anny reclamou e pôs um boné do Chicago Bulls na cabeça de seu afilhado assim que descemos as escadas do avião. —Está lindo, Carl — bajulou-o carinhosa, segurou sua pequena mãozinha e Poncho a outra.
Cinco Mercedes pretas portando bandeiras dos EUA nos aguardavam com portas abertas e motoristas usando roupas de gala.
—Wiliam disse que à noite o clima é bom— contei a Anny. —Além disso, o local é climatizado, não vamos sofrer muito — expliquei enquanto desamassava o tailleur curto bege, depois ajeitei meu chapéu.
—May, você
—A Susan quer ir aqui, pode? — Barbara perguntou. Eu assenti e afastei-me para que se abrisse um espaço para ela perto de Carlie. As duas não desgrudavam. Ambas pareciam irmãs, ruivas e branquinhas, embora Susan tivesse os olhos âmbar de meu pai e Carlie os olhos dourados vivos e expressivos do pai dela.
Em um impulso, peguei Carlie do colo da Angelique e dei vários beijos em seu pescoço, aspirando aquele perfume de bebê que tanto lembrava seu pai. Ele não poderia ter me dado um presente melhor que os nossos bebês.
—Ai, mamãe! Vai bagunçar o meu cabelo — resmungou manhosa. Apertei sua bochecha. Angelique sorriu orgulhosa de sua vaidade.
O motorista deu partida e seguimos pela cidade, escoltado por batedores de motocicletas. Sinais de pobreza e miséria eram vistos nas ruas. Marcas do sofrimento de um país que vivia a herança da guerra. Depois de meia hora, a visão das ruas melhorou. Casas em construção mostravam parte do país em recomeço. Perto de lá, uma grande muralha branca isolava um imponente prédio de seis andares, com bandeiras dos EUA nas entradas dos portões. Homens armados custodiavam a entrada. O portão se abriu. Dentro da propriedade não parecíamos estar na mesma cidade. Árvores, jardins e cascatas suavizavam o prédio.
Uma mulher loura, de cabelos curtos e postura de comandante nos recebeu. —Boa tarde — cumprimentou-nos séria, olhando-nos com superioridade. —Boa tarde. — Estendi a mão me adiantando. —May.
Ela me estudou da cabeça. Eu me senti uma inseta em análise.
—Alvarenga. Kate Alvarenga. Você é a senhora Levy? —Sim.
Ela deu as costas com um gesto de aborrecimento.
—Sigam-me. Vou lhes mostrar os aposentos. — instruiu e tomou frente.
Seguimos sem opção. Carl segurou na mão de Poncho. O afeto pelo tio era claro, por ter atenção total dele. Em casa, corriam, jogavam futebol, brincavam em rede. Se não fosse a ajuda de Anny e Poncho com as crianças, eu não daria conta.
No corredor que levava aos quartos, fotos dos últimos dois cônsules, antes de fixar a embaixada no país, emolduravam a parede. Suspirei fascinada ao ver a foto do embaixador pintada a óleo. Ele era meu orgulho.
—Eu vou ficar com Carl, May — Anny informou quando a recepcionista lhe mostrou seu quarto.
—Não. Daqui a pouco o pai dele deve vir vê-los — neguei prática.
—Deixe-o com a gente para você ter um tempo com Wiliam. — Poncho insistiu, colocando Carl atrás dele.
—Não. Eu vou dar banho neles e mais tarde você o pega — avisei e chamei as babás. O local que eu ficaria era uma espécie de apartamento contendo uma sala e dois quartos. Sentei na cama de casal e preparei as crianças para o banho.
—Mamãe, que horas o papai vem nos ver? — Carl perguntou. Eu suspirei desgostosa. Também queria saber.
—Depois que estivermos limpos e cheirosos — improvisei com um sorriso inseguro.
As duas babás ocuparam banheiros diferentes durante os banhos das crianças. Desfiz as malas dos dois e separei a roupa que iriam usar.
—Cheirosos! — Abracei-os carinhosa quando se encontravam banhados e secos sobre a cama.
A porta do quarto se abriu repentinamente, virei o rosto sobressaltada e prendi o ar, reação comum há anos. Wiliam. Encarei-o sem ação. Ele usava um terno preto, os cabelos lisos jogados de lado e tinha no rosto o sorriso de quem encontrou um tesouro, os olhos verdes brilhantes. Meu deus particular.
—Olá, meus amores! — congratulou abrindo os braços.
—Papai! — Os gêmeos ofegaram em uníssono, soltaram de meus braços e correram em direção a ele. Ele levantou os dois no colo.
—Meu Deus! Como estão pesados! — dramatizou alegre. —Daqui uns dias o papai não consegue mais levantar os dois. — Sorriu e beijou um, depois outro, repetindo os beijos enquanto caminhava em minha direção. —E vocês, senhoras, como estão? — Ele cumprimentou formalmente a mim e às babás. Elas seguravam as roupas dos gêmeos para vesti-los, cumprimentaram-no e deixaram o quarto, nos dando privacidade. Wiliam sentou na beira da cama, ao meu lado, colocou os bebês no chão, tirou o paletó e pendurou-o numa cadeira.
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Amor VS Poder
RomantizmMay é uma das herdeiras de uma influente organização de notícias e publicidade do país. Musicista alto astral, apaixonada pelo pai e unida aos irmãos, vive num mundo em que luxo e riqueza são parte de quem ela é. Ao conhecer o filho humilde de uma...
