Capítulo 27

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May Pov
Olhei para o monitor como que hipnotizada, o olhar vago. As cenas do vídeo ainda se repetiam por trás de minhas pálpebras compulsivamente. Embora fosse uma cena forjada, o objetivo era me fazer temer a repercussão e interpretação, caso caísse na mídia. E eu tinha que tomar decisões. A primeira seria expor a situação a Wiliam. Se ele decidisse desistir do poder e enfrentar o processo, ele teria milhares de chances de sair livre. Em caso de condenação, meu pai usaria de seu dinheiro e influência para abrandar a pena imposta.
Mas ele seria feliz em ter que abandonar tudo? Perguntei-me tentando ver com neutralidade.
Seu futuro estaria arruinado, seu sonho frustrado, sem escolhas, sem chances. Anos de estudo seriam jogados ao vento, sua imagem comprometida. Desistir seria uma decisão forçada. Seria justo carregar esta escolha pelo restante da vida? Deixar de alcançar um objetivo por causa de um amor ou de um casamento?
Porque ficou claro na mensagem que se nos afastarmos ele conseguirá alcançar o poder. Suspirei nervosa diante das indagações, no entanto ele quem deveria decidir.
‒Oi, amor, dormindo a essa hora? ‒ perguntou divertido ao me flagrar concentrada nas questões, a cabeça apoiada nas mãos e olhos fechados. ‒Como foi o dia? ‒ Ele estava dentro do seu dormitório da universidade sem camisa, os cabelos molhados e semblante animado.
‒Foi bom... E o seu? ‒ Forcei um sorriso no rosto e empurrei o assunto para gaveta. Teríamos tempo depois.
‒Foi bom. ‒ Riu ansioso como se estivesse algo importante a falar. ‒Estou feliz. ‒Revelou com um sorriso tímido.
‒Percebi. Mas por quê? ‒ Estalei os dedos freneticamente, ansiosa.
‒Meu dois projetos já passaram pelas duas casas. Agora só falta o presidente sancionar para virar lei ‒ explicou animadamente. ‒Nossa, May, isso é muito bom pra mim.‒ Comentou extasiado. Vê-lo tão alegre com a concretização de seus sonhos fez um espasmo inesperado de dor atravessar minha espinha.

‒Que bom, embaixador. ‒ Apoiei-o com mais um sorriso forçado, tentando disfarçar meu temor. Ele parou de falar e estudou-me desconfiado. Eu precisava manter meu semblante composto para não passar a impressão errada de que eu não o apoiava.
‒ O pai da Sô está muito satisfeito. Acredita que ele fez questão de me agradecer na tribuna em frente a todos os parlamentares pelo projeto que eu cedi a ele? O reconhecimento foi gratificante! ‒ Continuou a dizer. Eu baixei o olhar incapaz de congratular com ele enquanto assistia a ameaça aos nossos sonhos. ‒Está cansada, amor? ‒ Questionou alerta.
‒Um pouco. ‒ Menti. Quanto mais ele falava, mais sua convicção em seguir em frente era ressaltada. Com um peso sobre os ombros, ajeitei o notebook e deitei encolhida de lado na cama.
‒Então vá descansar que eu ainda vou fazer umas pesquisas antes de dormir... Está tudo bem? ‒ perguntou preocupado.
‒Sim. Estou muito feliz por você.
‒Então, tá... Está lembrada que hoje faltam quarenta e sete dias? ‒ Lembrou sorridente.
‒Sei. Você saiu daqui hoje e disse isso assim que acordamos. ‒ Comentei contente, mas em seguida meu coração doeu com a dúvida da realização.
‒Então vá descansar. Amanhã nos encontramos em Seattle.
‒Tudo bem. Angelique e Sebastian vão também para comemorarmos juntos o aniversário do Poncho.
‒Que bom... Então te encontro lá ‒ disse baixo, parecendo com menos ânimo. De certo ele percebeu que algo não estava bem e suspeitava que eu não apoiasse suas conquistas. Se ele soubesse que tudo que eu queria hoje era que tivesse um jeito dele chegar lá sem que nada o impedisse.
‒Wiliam, eu estava me esquecendo de algo importante. ‒Lembrei num sobressalto. ‒ Troque as suas senhas de novo e tente não usar aquele computador do Capitólio para falar comigo. Acho que a máquina de lá tem um espião. ‒ Comentei ao lembrar ter recebido o vídeo direto do e-mail dele.
‒Por que acha isso?

‒Não sei. Geralmente esses computadores do governo são alvos de hackers, então é melhor não vacilar. ‒ Aleguei uma desculpa para adiar a conversa. Eu não tinha mais certeza do que fazer. Sua empolgação com seus sonhos alcançados me desarmou.
‒Mas nos meus e-mails não tem nada importante.
‒Tem sim, por exemplo, aquelas fotos que eu tirei seminua lá. Já pensou se cai na rede? ‒ Sorri um sorriso feminino e persuasivo.
‒Ok. Você me convenceu. Não quero meu festim exposto para o mundo assim. ‒ Brincou possessivo. ‒Vou fazer isso agora.
‒Até amanhã, anjinho... Te amo. ‒ Suspirei saudosa.
‒O que há com você amor? ‒Ele pressionou. ‒Eu estou tentando deixar passar, mas eu sei que algo te preocupa. Fala pra mim ‒ pediu ternamente. Se eu não me controlasse, lágrimas de impotência iriam brotar nos meus olhos sem permissão.
‒Não é nada. Só estou preocupada com tudo que acontecerá lá em casa. ‒ Justifiquei com um pretexto. As palavras soaram com duplo sentido até pra mim. Eu não sabia realmente do nosso amanhã. Temia tudo que se armava tanto na vida da minha família como na minha.
‒Foi você quem disse que no final dá tudo certo. Fique bem. Estaremos juntos sempre. ‒ Garantiu solene.
‒Então boa noite. Beijos. ‒ Despedi e desconectei rápido, pois estava difícil me conter, principalmente depois de suas últimas palavras. Chorei encolhida em posição fetal, com muito medo de perdê-lo para o degradante poder americano.
No dia seguinte, cheguei a Seattle às nove da noite. Wiliam pegaria o voo em Washington D.C. às sete e meia, chegaria em Seattle por volta das onze da noite. Entrei no meu adorado quarto lilás na casa do papai, sentei em frente ao computador e loguei. Eu temia pelo que encontraria, pois desde o dia anterior não tinha acessado. Outra mensagem ocupava a caixa de entrada.

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