"Best Friend"

48 3 0
                                        

Essa expressão devia se referir a uma coisa boa. Aquela pessoa que você sabe que pode confiar, que mesmo com alguns problemas, um sempre pode contar com o outro. Alguém que te conhece como ninguém, que te respeita, que brinca contigo, é quase uma outra família, que às vezes acaba sendo até mais próxima que a de sangue. Porém, tenho um problema aqui. Várias vezes que chamei alguém assim... a realidade não era a mesma. Mentiram pra mim, me usaram, me trataram como lixo, me jogaram fora, me traíram... e por boa parte do tempo, me culpei por quase tudo, mesmo que não fizesse muito sentido. Esperava que algum desses voltasse se eu fosse embora, esperava que algum se importasse o suficiente pra mudar e voltar. Não foi bem o caso.

Meu problema foi doar demais, esperar demais, me importar demais, insistir demais, exagerar em tudo e absorver tudo que acontecia. Eu era um espelho quebrado; meus problemas eram os problemas deles, minhas crises eram as crises deles, mas quando eles melhoravam, algo continuava errado comigo. Meses ou anos se passavam até eu perceber que coloquei eles antes de mim, e usei isso pra continuar fugindo do fato de ainda estar preso. E geralmente também acabava percebendo que a confiança que tinha colocado tinha sido jogada fora. Era um ciclo, bebia veneno pra matar minha sede, me viciava, me prendia, só saía quando já devia estar quase tarde demais, procurava algo novo e acabava achando um novo tipo de veneno.

Nem todos que chamei assim me traíram, na verdade, alguns realmente eram (ou são). A eles sou imensamente grato, porque foram os antídotos dos primeiros venenos. Agora quero aprender a sair do ciclo, achar uma cura, desfazer o estrago dos outros, e pra tentar fazer isso, vou falar dos sintomas, dos venenos e dos antídotos.

É meio injusto, sabe. Percebo que geralmente, quando chamo alguém de melhor amigo, sou o único dos dois que fala isso. Algo desnecessário, eu sei. Mas queria entender, por que? Parece que eu era o único construindo aquilo, o único tentando consertar, o único que tinha que pedir desculpas no final... Por que eu tinha que ser o saco de pancadas? Por que eu que devia pedir desculpas se fui eu que fui esfaqueado? Por que eu tinha que ficar esperando ali sozinho? Por que brincar com meus ossos quebrados? Por que fizeram essa armadilha? Por que eu me importei tanto com isso?

Tenho medo de perder tudo de novo, já disseram que iam estar lá por mim, mas foram embora quando todas as luzes se tornaram sombras. Vai acontecer tudo de novo? Esperanças viraram medos, bençãos viraram algo mais parecido com maldição, foi melhor fugir dos estranhos de máscara.

Não sou mais uma criança, não sou um espelho e sei que algumas histórias vão se repetir. Mas dessa vez, vou sair antes. Desisti. Não de mim, mas dessas histórias repetidas. Antes queria ser o motivo de alguém mudar e melhorar, mas na verdade, isso nunca iria acontecer. Alguém só muda se quiser. Não vou consertar ninguém, não vou insistir nessas histórias de novo. Vou achar algo melhor que isso. Cansei de ficar preso com veneno. Na verdade, cansei de tanta coisa também... redenções, retornos, âncoras, balões, pedestais, trigésimas sétimas chances, pulseiras, cadernos, paredes, convites... só quero pegar tudo isso, colocar em uma sacola e jogar direito em um triturador de lixo.

Vou guardar meu ouro e levar embora. Esse lugar sempre vai estar cheio de plástico pintado. Não é mais meu problema. Agora preciso separar o que presta do que é ruim. Talvez ainda dê pra consertar alguma coisa, mas sinceramente, não tenho mais nenhuma paciência pra isso.

- Dusk

DuskOnde histórias criam vida. Descubra agora