Aos poucos, Katsuki consegue compreender e aceitar a si mesmo, desligando-se das amarras que o prendiam às aparências. Sua postura e concepção em relação à própria identidade de gênero passam por uma reformulação e seus conceitos amadurecem ao ponto...
Eu sei que demorei, mas quem é vivo sempre dá um jeito de aparecer rsrs
Ops! Esta imagem não segue nossas diretrizes de conteúdo. Para continuar a publicação, tente removê-la ou carregar outra.
Katsuki sempre foi uma pessoa organizada, com horários e atividades rotineiras das quais não abria mão e, como tal, ele sempre realizava algumas "faxinas" em seus objetos pessoais, a fim de limpar e manter tudo o mais ordenado possível. Enquanto arrumava alguns itens que há muito não mexia ele se deparou com um em particular que roubou sua atenção. Era uma pequena caixa, não maior que o tamanho de uma de sapatos, a qual não abria há anos.
Naquela caixa estavam guardadas lembranças de sua época de transição, como algumas mechas de cabelo de seu primeiro corte oficial, o primeiro boné que o pai lhe dera, sua primeira injeção de testosterona e a ampola devidamente lixada para não manter fio de corte, algumas pulseiras e uma foto de quando ainda era chamada de Naomi.
Sentou-se por um momento, analisando a foto com atenção. Nos últimos meses, um pouco antes do aniversário de um ano dos filhos, ele conhecera uma pessoa com quem passara a trocar mensagens. Era um cara mais velho cinco anos, civil que trabalhava em uma construtora e que tentara contanto consigo por muito tempo até que finalmente se encontraram em uma das missões de Katsuki.
Era normal para um herói como Katsuki salvar pessoas, mais uma missão, mais um civil salvo de ameaças, com exceção de que esse o interceptou com um pedido inusitado. A princípio, Katsuki não deu importância, afinal não queria misturar o trabalho com a vida pessoal, contido a curiosidade o venceu.
Com o tempo ele agradeceria essa decisão.
Minoru se mostrou um cara legal, de boa aparência e fala animada. Rapidamente conseguiu a atenção de Katsuki quando revelou ser um homem transsexual. Era a primeira vez que ele tinha contato com outros e o fato de Minoru ser tranquilo quanto a própria aparência o deixou ainda mais interessado. Ele se apresentou, contou um pouco de si e revelou que nutria por Katsuki um desejo de se encontrarem desde que o segredo de identidade de gênero foi revelado.
Katsuki não gostava de falar sobre aquele assunto em público, lhe soava como um gatilho que o fazia sentir necessidade de se esconder. Em sua mente todos o olhavam com os malditos olhos julgadores e esses pensamentos alimentavam seus demônios internos.
A convivência com Minoru no entanto o estava ajudando a silenciar esses demônios. Diferente de si ele era mais aberto ao assunto, falava com propriedade e sem hesitar. Por um momento Katsuki o invejou por ser assim, afinal ele parecia não passar por nenhum episódio de disforia, caminhava sem o binder sem problemas, usava penteados e acessórios um tanto femininos e não se abalava com os olhares dos demais.
— Como você consegue lidar com isso?
Ele sorriu de lado, ajeitando os cabelos longos com a ponta dos dedos.
— Eu não nasci assim, Bakugou, eu já fui como você: com medo dos julgamentos, preocupado que os demais não me achassem masculino o suficiente. Passei por muitas aprendizagens, um processo bem longo, de anos, onde aprendi aos poucos a me aceitar e amar do jeito que sou. — havia um quê de nostalgia dolorosa em sua voz — Sei bem como se sente, tentando mostrar aos outros que é machão, parecer o mais masculino possível, lutando para que o vejam assim. Eu não queria que me confundissem com uma mulher, por isso lutava contra todos os detalhes que pudessem tirar de mim a aura masculina porque eu queria que os outros olhassem para mim e vissem um homem. Era difícil porque eu também gostava de brincos, maquiagem e roupas leves e sentia que estava saindo do personagem. Depois que me permitir envolver com o movimento e conheci outros homens trans eu aprendi a me aceitar. Eu sou um homem, independente de como eu me vista, fale ou ande, isso não influencia na minha identidade de gênero, assim como o formato da minha genitália não importa. Não preciso manter um personagem homem porque eu sou homem, entende? Não tenho que mostrar aos outros essa verdade, fazê-los entender ao custo da minha sanidade, nada vai mudar o fato de que eu sou um homem e se eu não posso ver isso em mim mesmo, não tem como esperar que os outros vejam.
Aquela fala abriu um leque de novos questionamentos à Katsuki que começou a observar a realidade sob uma nova perspectiva. Passou muito tempo impactado, observando as próprias ações, analisando e repensando a definição que tinha do mundo. Aos poucos outras pessoas entraram em seu círculo, homens e mulheres que assim como ele estavam se abrindo para os debates acerca de gênero. Tantas histórias, depoimentos, mentes e visões ajudaram a quebrar algumas das mentiras nas quais cria sem perceber. Em certos pontos os testemunhos pareciam se unir, com detalhes em comum, dores semelhantes, em outros se tornava único e por vezes visceral.
Foi como se uma venda aos poucos fosse desafrouxada, caindo para abrir seus olhos, dar-lhe uma nova perspectiva. Ele não sabia que essa venda estava ali, não a percebia antes, contudo estava observando as nuances a medida que se aprofundava nas discussões.
De repente percebeu que estava preso aos debates de gênero, redescobrindo-se e percebeu o quão pouco sabia sobre aquele mundo. O conhecimentos aos poucos o libertava de certas necessidades e o fazia entender seu papel.
— Você é um herói conhecido, Bakugou, o famoso Ground Zero, e mesmo sem perceber é referência paras as pessoas, principalmente as crianças. — Minoru o confrontou certa vez — Muitas pessoas se vem representadas por você, tem que assumir a responsabilidade que a sua visibilidade traz, mesmo que não queira ou seja intencional.
E ele se viu em um processo de aceitação pessoal e desconstrução de conceitos. O que ele precisava para ser um homem? Basicamente apenas ser ele mesmo. Não importa se ele gosta de manter a barba ou gosta de pintar as unhas, nada disso o identifica porque gênero é uma construção social e ele não tem que pertencer a nenhum padrão, nem fortalecer nenhum conceito para ser aprovado como homem.
Ao olhar para esses objetos agora ele percebe o quanto amadureceu nesse quesito. Os laços, pulseiras e mesmo a foto onde aparece de vestido não o machucam como antes. Ele não sente necessidade de escondê-los porque de algum modo está ciente de que não pode apagar seu passado e não tem motivo para isso. Ele nunca foi uma mulher e aqueles acessórios não foram capazes de ditar isso. Ao tocá-los ele sente como um momento de transição, algo que faz parte dele e não o perturba mais.
E sorri, dessa vez pleno, sentindo-se em paz consigo mesmo. Ainda há muito o que desconstruir, ele sabe, os episódios de disforia ainda acontecem, mas não são como antes. Ele não é como antes. Tudo mudou e ao mesmo tempo está igual, como se ele apenas tivesse aberto um lado de sua mente que estava fechado, ajudando a arejar as ideias e certezas.
Por isso ele fecha a caixa e a coloca em um lugar visível, sem medo de vê-la, sem necessidade de esconder-se de quem é. Um dia talvez a descarte quando sentir que não precisa mais, por hora ele apenas vai mantê-la diante de seus olhos, sem temer que fantasmas que aos poucos está expurgando voltem a assombrá-lo.
E pensa em todos os homens e mulheres trans que assim como ele estão se redescobrindo e aprendendo a se amar. É um caminho espinhoso e difícil, a maior parte da sociedade ainda se vê muito apegada a conceitos ultrapassados e sem valia, tentando separar as pessoas em caixinhas pré- estabalecidas, tentando forçar quem não se encaixa em nenhuma categoria a entrar em uma delas.
Com o sentimento renovado ele se ergue e vai para frente do espelho tirando a camisa para observar a si mesmo, o corpo que não faz dele ninguém mais do que a si mesmo. Existem cicatrizes, algo esperado para um herói que arrisca a vida para salvar os outros. As duas cicatrizes da mastectomia recente e as estrias que vieram com a gravidez não o incomodam mais como antes. Ele as vê como sob uma nova perspectiva e gosta da sensação de não associá-las a nada mais que sejam vitórias pessoais. Não há nada de errado em aceitar quem é de verdade e ele gosta do fato de estar andando mais sem camisa sem se importar.
Há apenas uma coisa que precisa fazer para deixar seu dia ainda mais animado e ele se afasta do espelho, senta na cama e busca o celular, desbloqueando a tela para acessar as redes sociais. Sua fã base está animada, postando alucinadamente sobre a sua exibição de ontem quando derrubou o vilão e prometeu uma entrevista. Eles amam quando ele compartilha algo, estão sempre a postos para poder ser o seu apoio nas redes.
Katsuki suspira e digita "Hora de chutar algumas bundas hoje" e tira uma selfie com o seu melhor olhar durão para poder acompanhar. Não porque isso o fará parecer masculino — essa porra não importa — mas porque o seu espírito turrão é algo indissociável de sua personalidade.
Logo eles puxam a hashtag #groundzeroexplodatodos e começam a compartilhar com mensagens de encorajamento. É impossível evitar que surjam comentários maldosos e transfóbicos, é fato, no entanto não atingem a certeza de quem Bakugou é. Não hoje. Os malditos inconformados que se engasguem com o próprio preconceito, pois ele não liga e definitivamente não se abala. Vão ter que aceitar que em breve um homem trans será o segundo melhor herói do país.