Ruptura

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Naruto havia acabado de completar vinte anos. Por ser um prodígio, já tinha concluído seus estudos em medicina. Escolhera essa área para ajudar o seu amigo, Sasuke Uchiha, que conhecera na escola para meninos, alguns anos antes. O loiro estava excitado, pois, finalmente poderia transitar nos grandes salões de baile da Alta Sociedade.
Aquele era o terceiro evento em que ia, não podia deixar de notar as mulheres bonitas e bem apessoadas que haviam ali. Era uma pena que Sasuke se recusasse a ir com ele, desde que aquilo aconteceu… bem, era melhor não pensar sobre as sombras do passado. Prometera que aquele assunto iria para o túmulo consigo e assim seria.
Agora Naruto tinha um dilema: levar uma mulher para cama. Diferente dos demais estudantes da Universidade de Suna, o Uzumaki não poderia aproveitar a vida universitária para curtir. Ele se empenhava com afinco nos estudos e, quando não estava fazendo isso, seu tempo era direcionado ao Uchiha, impedindo que o moreno fizesse alguma besteira.
Bom, agora ele estava melhor e Naruto poderia reaver os anos perdidos. Os olhos azuis percorreram o salão à procura de alguma mulher que lhe chamasse atenção, afinal o loiro era muito orgulhoso para ter uma primeira vez com uma prostituta qualquer, mesmo que todo mundo fizesse isso.
Então, em meio a essa nuvem de pensamentos, ele se deparou com a criatura mais formosa que pisou na Terra. Os cabelos loiros estavam presos ao topo de sua cabeça, se derramando em cachos artificiais que desciam pelos ombros; sua pele era pálida, ainda que houvesse um leve rubor em suas bochechas; era dona de uma beleza angelical, parecia ter vindo do céu.
No entanto, não foi nenhuma dessas características que lhe despertou interesse, mas, sim, aquelas ametistas que ela tinha como olhos e que o fitavam diretamente. Naruto não soube dizer o que acontecera consigo, para falar a verdade, nunca considerou a hipótese de se casar, contudo, diante daquela loira, somente um pensamento lhe veio à mente: essa é a mulher com quem eu vou me casar.

As palavras de Sasuke foram como um soco no estômago. Naruto sentiu a bile subir à garganta, enquanto as suas entranhas se reviravam dentro de si. Ele não tinha o direito de tocar naquele assunto, ainda assim, o fez. A visão do loiro ficou turva e as suas mãos perderam a destreza. Se pudesse, não ouviria mais sobre aquele momento, não se lembraria mais a quem aquele nome pertencia.
Naquele instante, mais do que nunca, o Uzumaki queria socar o amigo até ele desfalecer, entretanto, isso não lhe daria prazer. Sabia que aquele era o mecanismo de defesa que o Uchiha usava para se proteger. Se você ferir primeiro, não poderá ser ferido. Era assim que o duque se portava e Naruto já havia lidado com essa situação muitas vezes para que não reconhecesse.
Inalou uma grande quantidade de oxigênio e exalou devagar, repetindo esse processo até se acalmar mais uma vez. O rosto de Sasuke estava impassível, era impossível saber o que se passava em sua cabeça. Naruto retomou o trabalho, cuidando dos hematomas que começavam a se formar na pele clara, contrastando com a grossa cicatriz que cortava o seu peito.
— Não há fraturas ou costelas quebradas. Nenhum órgão foi perfurado. Ao que parece, não é dessa maldita vez que você vai para a vala, caro amigo. — Desdenhou o loiro, com a voz mais cortante que uma espada afiada. — Obrigado por me lembrar dos meus fracassos e falhas e, é claro, por me tornar tão infeliz como você é.
Os olhos negros do Uchiha se arregalaram enquanto o seu corpo se retraía. Naruto já lhe dera muitas broncas ao longo da vida, contudo, nunca, em hipótese alguma, havia exposto o quanto achava o amigo infeliz e problemático.
— Arrume um jeito de chegar em casa. — O loiro aconselhou, virando-se de costas e partindo.
Naquele momento, mais do que qualquer outro ao longo de sua vida miserável, Sasuke se sentiu sozinho, extremamente só. Que grande bastardo ele era, magoara a única pessoa que estivera ao seu lado o apoiando. Droga! Mas era por um bem maior… não era? A essa altura, o moreno já não sabia o que era certo ou errado, só tinha uma certeza: protegeria o Uzumaki sem importar o que lhe custaria.

O balanço da carruagem não era o motivo pelo qual a mente de Naruto chacoalhava. Shion, maldita fosse! Somente aquelas cinco letras eram capazes de revirar o estômago do Uzumaki. Por que Sasuke tinha que lembrá-lo daquela mulher justo agora? O loiro recostou-se no banco, deixando a cabeça pender para trás. Olhos incomuns, lábios rosados, a pele branca como a neve… Hinata… Shion… de quem ele falava?
Sobressaltou-se com esse pensamento. Estaria aceitando tão bem o noivado com Hinata somente por ela ser parecida com Shion? Refletiu por um instante. Não, isso era podre demais. Mas era inegável que elas tinham aparências físicas parecidas, exceto o tom de cabelo e olhos. Essa constatação o abalou por dentro e Naruto se pegou estremecendo. Talvez Sasuke tivesse razão, talvez a sua mente estivesse lhe pregando peças…
Podiam ser parecidas de corpo, mas as almas eram completamente diferentes. O falso recato que Shion exalava nunca chegaria aos pés da aura jovial e aventureira da Hyuuga. Bom, não saberia traçar exatamente qual era a extensão do que sentia quando estava perto da morena, contudo sabia ter um potencial alarmante de encobrir quaisquer sentimentos que nutrira pela loira, anos atrás. Talvez Sasuke tivesse razão e tudo aquilo fosse perigoso demais…
Quando a carruagem curvou na esquina na qual ele morava, o loiro tomou uma atitude impulsiva e prematura, bateu no teto do veículo, que diminuía a velocidade, e anunciou:
— Leve-me para o prostíbulo mais próximo!
Talvez, amanhã, se arrependesse de sua decisão, ainda agora se arrependia, mas aquilo era o melhor para os dois, principalmente para Hinata.

Amando o inimigoOnde histórias criam vida. Descubra agora