Além das palavras

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Os olhos esmeralda fitavam os dedos sujos de tinta enquanto sua portadora reunia coragem para dar cabo ao que viria pela frente. Estava louca, não estava? Definitivamente! Um riso histérico escapou-lhe à garganta ao passo que o coração descompassava. Oh, céus! Quão decepcionado seu tio ficaria quando ela lhe desse tal notícia?

Homens eram dramáticos, mais do que nunca, a Haruno tinha certeza disso. “Seja minha amante”, ele pediu, ora! As feridas de Sasuke estavam gravadas na alma da rosada, contudo, ela não podia deixar de achá-lo um tanto equivocado, depois que refletiu um pouco sobre o assunto.

Sim, ele tinha razão com o pensamento de que, se eles assumissem um compromisso agora, a situação com o arcebispo somente se agravaria, todavia, se descobrissem o tal caso entre eles — e Sakura ainda fosse comprometida — seria ainda pior. 

— Homens e sua incapacidade de pensar com discernimento — resmungou para si mesma, molhando a pena no tinteiro para assinar ambas as massivas abertas sobre a escrivaninha. — De pensar que eu o imaginava como alguém racional…

A tinta preta deslizou sobre o papel pardo, firmando o destino que ela tinha traçado para si. Deus, como sentia medo! Um terror lancinante apoderava-se de seu âmago, mas ela já não queria voltar atrás… não voltaria. Com cuidado para não borrar as letras, Sakura ergueu a mais curta das cartas.

Caro Lorde Hyuuga,

De fato, senti-me tocada pelo seu intento em conhecer-me melhor. Quantos noivos têm tamanha consideração para com uma noiva que não foi escolhida por si próprio? Estou muitíssimo grata, de verdade, contudo não poderei arcar com minha parte do compromisso.

O senhor queria me conhecer melhor, certo? Então contarei-lhe algo sobre mim: meu coração pertence irrevogavelmente a outro homem. Desculpe, milorde, todavia não posso mais seguir em frente com um enlace que me dilacerará por dentro. Rogo por sua felicidade e bem-estar, mas ambos sem a minha presença.

Com gratidão,

Lady Sakura Haruno   

Suspirou, trêmula. Não era a melhor carta que escrevera na vida, mas teria que bastar. Não era como se ela tivesse um vasto conhecimento em como rechaçar um noivo… bom, agradecia por não ter estreitado os laços com o Hyuuga, seria mais difícil tomar aquela decisão se assim o fosse.

Entretanto, dispensá-lo ainda era a parte mais fácil da equação. Quando pensava naqueles olhos claros sobre si… estremecer por conta da culpa que a corroía por dentro todas as vezes. Hiashi Hyuuga era o pai que ela jamais tivera na vida. Seus eram tão instáveis, sempre pensando no bel prazer para que se preocupassem com a filha que deixavam para trás todas as vezes…

Todavia, o marquês estava lá, estendendo a mão e o amor para ela. O tio não fazia distinção entre as filhas e ela, mesmo que o sangue Hyuuga não corresse em suas veias. Hiashi não tinha obrigação alguma, mas a tornara sua filha, parte de sua vida e Sakura o pagaria com tamanha traição. Tinha que ser sincera consigo mesma: doía.

Diabos! Em todas as direções que olhava, havia espinhos afiados demais à espreita para machucá-la. A visão dela embaçou-se e o peito se comprimiu. Havia sido tola na doce ilusão de ter uma vida igual à de Hinata. Não invejava a prima e irmã de alma, mas não podia evitar querer que o seu amor fosse tão claro quanto o dela.

Sentia-se egoísta, porém havia decidido enfrentar o caminho que lhe causaria menos dores. Quando elas viessem, a Haruno teria o ombro amigo e o apoio de Sasuke para enfrentar o que viesse pela frente. Logo ela, que amava a racionalidade, escolhera seguir o coração ao menos uma vez. Assim como seus pais não haviam sido o suficiente para preencher a lacuna afetiva que crescera dentro dela, o Lorde Hyuuga também não o era para ocupar o espaço de seu amor. 

Amando o inimigoOnde histórias criam vida. Descubra agora