Capítulo 9

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Bruce Wayne e a Sra. Bennett riam e não esconderam que tinham afinidade, os dois se deram bem rapidamente e admito ter sido um verdadeiro choque. O bilionário demonstrou a educação e gentileza de um lorde inglês, seus movimentos eram elegantes e extremamente suaves, o cheiro de colônia masculina e suas roupas caríssimas completavam o look rico e de herdeiro de grande império.

Eu preferi o silêncio e continuei pegando os biscoitos e comendo pudim, minhas meias florescentes atraiam constantemente o olhar de Wayne, que sorria discretamente. Porém, o visitante inesperado não tocou no assunto de real importância, o baile de caridade. O tempo passou e a conversa entre eles rendeu, fiquei feliz por mais alguém se interessar pela vida da velhinha tão adorável e doce.

Eu imaginava desfechos mirabolantes e mágicos para meu livro, um romance épico de proporções imensas, o enredo foca no amor e paixão juvenil entre pessoas de classes muito distintas, um romance de época proibido, mas que é incrivelmente sensível. Eu adoraria ter o privilégio de experimentar esse sentimento de proteção e completa entrega, porém sei que a mentira de contos de fadas é real.

Não quero um príncipe montado em um belo cavalo branco, usando sua característica armadura reluzente enquanto empunha o arco e flechas ou sua espada inseparável. Eu quero alguém capaz de dividir sua vida sem medo e culpa, que entenda minhas manias estranhas e não se sinta envergonhado, alguém que não se importe com minha coleção de blusas com estampa de filmes, heróis e séries.

Espero encontrar alguém disposto a ser meu parceiro de aventuras, um homem louco ao ponto de embarcar de olhos fechados nos meus sonhos e planos futuros. Altruísta, forte e corajoso, a lista é longa e talvez esse rapaz nunca exista de verdade, mas sonhar é tudo o que me restou. Eu quero alguém que conheça o lado obscuro da vida e que compreenda os traumas que vivenciei ainda jovem.

Eu desejo um homem responsável, fiel e extremamente maduro, que não tenha medo e receio de se expressar, mas ainda sim, tenha a capacidade de me ouvir, uma pessoa com a mesma intensidade que eu. Eu quero o que as pessoas querem, eu quero um amor que me consuma, quero paixão e aventura e até um pouco de perigo. Eu quero viver e sentir todas as emoções e nuances humanas.

- Eloíse? Você está bem? - Questionou a Sra. Bennett com o semblante preocupado.

- Sim, estou apenas pensando - Sorri e a mulher acentiu parecendo satisfeita.

- Pensando no que, querida? - Insistiu de maneira curiosa e intrigada, típico dela.

- O Sr. Wayne e eu estamos organizando um baile de caridade, o que acha de cantar na festa e relembrar os velhos tempos? - Ergui as sobrancelhas, nervosa com sua reação.

- O quê? - Perguntou Bruce mostrando o primeiro indício de surpresa.

- A senhora sempre menciona todas as suas grandes apresentações, e eu sei que tem saudades daquela época, estou oferecendo a oportunidade de mostrar que não perdeu seus dons vocais e ainda é talentosa - Respondi de imediato, ignorando o olhar insistente daquele bilionário teimoso e cabeça dura.

O silêncio preencheu o ambiente, dúvida e incertezas beirando níveis absurdos, eu não sabia qual seria a resposta da cantora e muito menos se Wayne concordaria com a ideia, eu apenas achei que valia a pena tentar. A voz de Helena Bennett é poderosa e magnética, sem dúvida, é inconfundível, adoraria testemunhar uma de suas apresentações e ver o brilho nos seus olhos cansados e experientes.

- E então, senhora? - Insistiu Bruce e não acreditei que o homem havia cedido.

- Eu adoraria - Concordou e notei o olhar emocionado e lacrimejante.

- Ótimo, melhor começar os ensaios e a seleção das músicas, seu público será difícil e incrivelmente crítico - Comentei puxando uma das meias que escorregou do joelho e desceu até o tornozelo, expondo uma tatuagem.

Era o desenho de um pequeno pássaro azul com as asas abertas, simbolizando meu vôo para uma nova vida, um novo recomeço e novas aventuras, o surgimento de uma nova e mais empoderada eu. Notei que Bruce franziu o cenho e encarou a tatuagem com extrema e estranha atenção, tentando memorizar todos os mínimos detalhes, a atitude fez com que o constrangimento aumentasse.

- Quais são as suas ideias para esse seu esplêndido baile de caridade? - Perguntei com o olhar direcionado para o Wayne.

- Eu... Eu não pensei em nada - Afirmou e mostrou vergonha por admitir em voz alta e na presença de outra pessoa.

- Em nada? Nadinha de nada? - Indaguei um pouco incrédula e indignada.

Ele veio do outro lado de Gotham e seus planos para a cerimônia são inexistentes, seu método de raciocinar não faz sentido, os seus pensamentos não condizem com a postura e imagem que tenta mostrar para a mídia. Sorri com escárnio e tamborilei as unhas sobre as irregularidades da mesa, tenho a impressão e quase certeza de que irei tomar as decisões e escolhas mais importantes.

- Você está pagando por tudo, então me diga um tema apropriado e pensamos a partir daí, tudo bem? - Perguntei reunindo o último e resistente fio de esperança.

Bruce Wayne permaneceu quieto e seus olhos mostraram que ele estava pensando, as alterações em sua postura eram tímidas e um tanto quanto neutras, dificilmente notariam o quanto está nervoso, mas qual o motivo? Vi a Sra. Bennett sorrindo enquanto olhava para os lados, tentando disfarçar, talvez ela entenda o que está acontecendo com o bilionário, anos de experiência trazem essa habilidade.

- Baile de máscaras - Afirmou Wayne e a resposta foi satisfatória, a ideia é boa.

- Tudo bem, será realizado onde? Espero que tenha o local em mente - Insisti e anotei o tema no bloco de notas do celular.

- Minha casa está em suas mãos, Eloíse - Respondeu expondo o sorriso charmoso que conquistou centenas de mulheres.

- Certo... - Murmurei ignorando a breve e rápida insinuação e flerte.

Continuamos dialogando e, aos poucos, fomos entrando em um consenso, a música e escolha dos músicos seria decisão de Helena Bennett, ela entraria em contato com amigos do passado que fizeram sucesso. Bruce e eu decidiremos o resto, desde a decoração até o buffet, além do design de convites, estou com cansaço apenas de imaginar todo o trabalho que teremos daqui para frente.

- E quem será seu acompanhante, minha querida? Não poderá ir sozinha - Comentou de forma maliciosa, Sra. Bennett é única, mesmo que quase me enlouqueça.

- Eu ainda não sei - Respondi tentando a abordagem educada e furtiva.

- Alguém em mente, senhorita? - Ouvi as engrenagens do cérebro de Bruce Wayne, sua curiosidade latente.

- Ainda não - Admiti e meu rosto ganhou a tonalidade rosada, eu estava envergonhada com o assunto em pauta.

- Ela é quase uma freira, eu nunca vi um rapaz ao seu lado, é um desperdício, na idade dela eu tinha homens aos meus pés - Afirmou a mulher idosa sorrindo nostálgica.

- Eu apenas sou discreta - Respondi e os dois me olharam surpresos e chocados.

- Diga os nomes - Ordenou Wayne com a voz carregada de escárnio e raiva contida.

- Não, enlouqueceu? - Cruzei os braços e desviei o olhar para a janela próxima.

- Apenas um nome - Implorou a idosa de cabelos brancos como a neve.

Os dois não desistiram tão cedo, ambos parecem ter reinventado o conceito do termo teimosia, respirei fundo e ponderei a pequena possibilidade de revelar somente um nome. O que de ruim poderia acontecer? Eu tenho uma lista variada de affaires, incluindo escritores e colegas de trabalho, empresários, jornalistas e bilionários, entretanto nunca encontrei uma alma compatível com a minha.

- Um nome? - Insisti olhando para eles e buscando a confirmação necessária.

- Somente um - Respondeu a velhinha e Wayne apenas acentiu, pensativo.

- Oliver Queen - Revelei e ouvi os gritos e gargalhadas altas de minha vizinha.

- Oliver maldito Queen? - Exigiu Bruce, as veias de seu pescoço pulsavam bastante.

Caos e Ordem - Bruce WayneOnde histórias criam vida. Descubra agora