Um

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— Senhorita Caitlyn. — a voz da empregada vinha de fora do quarto.

Irritada, a herdeira dos Kiramman saiu dos lençóis. Não gostava de ser acordada em um domingo.
Ela pôs seu roupão e abriu a porta.

— Sim, Nora? — perguntou, com a cabeça para fora do quarto.

— Perdão incomodar, mas seus pais desejam a ver imediatamente.

A garota suspirou. Seus pais eram cada dia mais surpreendentes.

— Não pode ser outra hora? — perguntou, esperançosa de poder voltar a seu sono.

Mas Nora balançou a cabeça negativamente.
Caitlyn revirou os olhos.

— Então diga que já estou indo. — e fechou a porta.

A jovem entrou no seu closet e colocou uma roupa decente. A família Kiramman ainda parecia um tanto presa aos costumes antigos, assim como seus vizinhos, os Stemmguarda. Estranhos tinham que ficar próximos, talvez.
Tobias Kiramman era responsável por uma das maiores empresas de automóveis da cidade. Ele e sua esposa queriam garantir que sua filha — isto é, Caitlyn — estaria pronta para quando chegasse a hora dela assumir no lugar deles.
A garota sempre sonhou em se tornar a chefe da empresa de sua família, ela gostava de mandar. E agora, em seus plenos dezenove anos, nada havia mudado. Então, ela não se preocupava com as exigências absurdas dos pais. Quando ela chegasse no topo, ela poderia fazer o que quisesse.
Quando se enfiou no seu clássico vestido azul claro, Caitlyn calçou suas sapatilhas e saiu direto para o escritório do pai.

— Nora me disse que vocês queriam me ver. — a voz de Caitlyn entrou na sala.

Seu pai estava sentado na cadeira dele como sempre, com a mãe ao seu lado. Os dois liam alguns papéis sobre a mesa, mas pararam a ação ao ouvir sua filha entrando.

— Sim. — Cassandra Kiramman respondeu, levantando-se e arrumando rapidamente o cabelo da filha. — É algo rápido, vai poder voltar a dormir mais tarde.

Ótimo. foi o primeiro pensamento de Caitlyn. Na sua cabeça estavam mil coisas que ela jamais diria na frente dos pais. Quando não conseguia os manter só na cabeça, passava-o para sua "conta secreta" no Twitter, que ninguém podia ver. Era privada, e ela não seguia ninguém.
Só seus pais, Jayce e Luxanna sabiam da existência dessa conta, mas não sabiam o que tinha nela. Talvez não fosse bom perguntar.
Aos olhos de seus pais, era só um "diário" bobo que deveria ficar longe dos olhos do público pelo bem da família. E para Jayce e Lux... Eles nunca gostavam de contrariar Caitlyn Kiramman.

— Então, o que há? — ela perguntou, curiosa e ansiosa para voltar a dormir.

— Vai precisar arrumar suas malas, querida. — o pai declarou. — Nós vamos ir passar dois dias com os Warwick, a negócios.

— O quê?! — gritou a garota, não conseguindo evitar seu tom rebelde.

Caitlyn poderia aguentar qualquer coisa que os pais a mandavam-na fazer, exceto uma:  aturar Violet Warwick por dois dias.
Não importava o tempo, aturar Violet Warwick era o fim do mundo para Caitlyn. Elas se odiavam, eram inimigas juradas pelo destino, praticamente.
Violet Warwick era ninguém menos que a sobrinha de Vander e Silco, os chefes da Última Gota. Eles eram tão poderosos quanto os Kiramman, e por sinal, Violet também iria assumir no lugar dos tios um dia.
Mas aos olhos de Caitlyn, Violet era o diabo em pessoa. Desde que se conheceram, suas personalidades criaram um duelo impossível de se desfazer.
Violet protestou que Caitlyn tinha que ser ela mesma, tinha de aproveitar a vida ou se arrependeria mais tarde. Ela não falou por mal, mas para a outra, aquilo foi uma amarga ofensa.

— ... Vocês não podem me obrigar a isto! — esbravejou ela. Era a primeira faísca de rebeldia saindo em anos de Caitlyn Kiramman. Um verdadeiro marco na história, diria Jayce Talis em tom de deboche.

— Caitlyn, são só dois dias. — contestou sua mãe, com aquele olhar que só ela sabia fazer. Ela sempre venceu a filha a fitando daquele jeito, mas hoje não.

— Sabem que eu e Violet podemos nos matar nestes dois dias! — prosseguiu ela. — Eu digo isso pelo bem da família, vão vocês. Não posso ir.

O pai bufou pelo nariz, e pôs a mão na testa.

— Menina, quando você crescer, vai ter que aturar um monte de gente que detesta. — explicou ele severamente. — Pare de drama, você vai e acabou. Como sua mãe mesma disse, são só dois dias. Vai acabar antes mesmo de você poder planejar matar Violet Warwick.

— Isso é um absurdo! — ela declarou uma última vez. Talvez já tivesse sido rebelde demais, então, a moça saiu da sala, engolindo todo o seu ódio por essa viagem e por Violet.

Ela entrou no seu quarto novamente. Se ela pudesse encontrar uma passagem naquele quarto para fugir dessa viajem, ela estava pronta para revirar o quarto inteiro!
Não importando-se com a hora, ela pegou seu celular e ligou para Jayce, só ele poderia a ajudar.

— Você tem noção de que um ser humano precisa de oito horas regulares de sono?! — a voz irritada do amigo falou do outro lado da linha.

— Eu sei, eu sei! Mas não importa, o que eu tenho para falar é urgente. — Caitlyn se sentou em sua cama. — Meus pais querem fazer uma viagem. Mas não é qualquer viagem, Jayce. É uma viagem para a casa dos Warwick, por dois dias.

— Está falando desse jeito tão pesaroso por causa de Violet Warwick, não é? — ele soltou uma risada nasal. — Deixe de criancices, Cait. Você devia aproveitar essa oportunidade para se entender com ela.

A mesma arregalou os olhos incrédula. Ela e Violet Warwick? Se entendendo?!

— Não sou capaz de me entender com aquela motoqueira de quinta categoria nem que eu fosse paga! — rebateu ela.

Jayce suspirou. Caitlyn era uma boa pessoa, mas era uma verdadeira mula.

— Certo, certo, a escolha é sua. Não quero me meter nisso. — concluiu ele.

— Eu preciso arrumar um jeito de me livrar dessa viagem, Jayce.

— Você tem que ser um pouco mais madura, isso sim!

— Então você também não vai me ajudar? — ela engoliu o seco, sentindo-se traída. — Ótimo, também não quero mais sua ajuda. Eu tenho outros planos.

E desligou o telefone. Jayce balançou a cabeça tristemente, ele já conhecia a próxima vítima.
Pobre vítima! Ele sabia que Luxanna não conseguiria dizer não a Caitlyn, pois a loirinha a venerava.
Não era certo ir até a mesma naquele momento, e Caitlyn sabia disso. Então, era melhor fingir que estava a arrumar suas malas, para depois as desfazer com muito bom gosto.

Na Alegria e na TristezaHistórias para pegar e não largar. Descubra agora