CAPÍTULO 12

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O celular tocou. Fiquei preocupada, já que não era comum receber ligações da minha mãe tarde da noite.
         
Limpei a voz de qualquer traço de choro antes de atender.

— Oi, mãe. Está tudo bem? Aconteceu alguma coisa?

— Oi, minha querida. Já estava dormindo?
         
Ela claramente havia chorado; dava para perceber pela sua voz rouca.

— Mãe, você estava chorando? Aconteceu alguma coisa?

— Querida, quando você vem pra casa?

— Mãe, o que aconteceu? — Senti um pequeno desespero ao não entender o que tinha ocorrido.

— É só que… — Ela fungou um pouco, tentando conter as lágrimas. — O Sr. Clifford disse que vai bloquear todos os seus cartões de crédito e que você terá que se virar sozinha caso não venha nos visitar logo.

— O QUÊ? — Ri, desacreditada. — Mãe…

— Não seja teimosa, Hanna. Sei que, para você, pode soar como uma futilidade, mas como você vai se virar sozinha? Ele só está fazendo isso porque está preocupado e quer que você dê um pouco de satisfação sobre sua vida. Ele é seu padrasto!
           
Ela já o estava defendendo novamente? E não, ele não estava preocupado. Ele só estava furioso por não ter mais controle sobre minha vida e achou que poderia me chantagear.

— Olha, mãe, se só tiver isso para falar, vou desligar. Já é tarde e eu estou cansada. Mas fica tranquila, eu sei me virar.

— Hanna…

— É sério, mãe. Meus estudos já estão pagos, e eu não preciso de luxo para viver. Na verdade, eu nunca pedi luxo algum. Me desculpe, mas quanto a isso, se preocupe só com você.

— Hanna Clifford!
         
Até o sobrenome me irritava.

— De qualquer forma, sempre que quiser pode me ligar. Mas agora vou dormir. Tchau.

— Nem pense em desligar, mocinha…

— Te amo, mãe.
         
O que mais me incomodou não foi o fato de que eu teria que me virar sem o dinheiro do meu padrasto, mas sim ver, mais uma vez, a submissão da minha mãe a ele. Isso me matava por dentro.
        
Lavei o rosto e me deitei, notando que Rebecca ainda não tinha chegado. "A noite deve estar boa para ela!" Puxei o casaco do Archie, que estava no meu criado-mudo, e me abracei. Será que ele realmente estava interessado em mim?
         
Mesmo com uma nova identidade e uma realidade totalmente diferente, até quando eu conseguiria esconder a verdade? E o pior de tudo: por que meu coração estava tão balançado com o fato dele ter confessado seu interesse por mim?

Droga, Hanna! Expulsei todos os pensamentos e me concentrei no que era mais importante no momento: amanhã cedo eu iria procurar um emprego. Estava decidido! Não cederia às chantagens do Sr. Clifford.
Abracei o casaco mais forte. E eu não conseguia parar de notar, tinha o cheiro dele: cítrico e suave. Eu amava aquele cheiro, e isso me acalmou, até que eu finalmente dormi.
          
Quando acordei, Rebecca já estava dormindo. Eu tinha caído no sono sem nem perceber. Levantei-me e me arrumei depressa. Hoje seria um dia corrido; precisava encontrar um emprego de meio período com urgência.
          
Mas, antes, iria devolver o casaco do Archie. Era o casaco do time, e ele poderia precisar.

Olhei as horas e vi que era horário de aula do John, então provavelmente ele não estaria no quarto. Eu queria evitá-lo no momento. E pensando nele… :

John: Podemos conversar? Queria me desculpar por ontem.
          
Ignorei a mensagem no celular. Não achava mais que ele realmente gostava de mim. Parecia apenas querer competir com o irmão, e isso me magoava.
         
Peguei alguns currículos e o casaco do Archie, fechando a porta com cuidado para não acordar minha amiga.
         
Bati algumas vezes na porta do quarto do meu velho amigo, e, quando já ia desistindo, ele finalmente abriu.
         
Archie estava com o cabelo molhado e de roupão, o que explica a demora. Desviei o olhar por impulso, me sentindo tímida e desconfortável.

— Oi, Hanna. — Mesmo sem encará-lo, dava para ver seu sorriso.

— Você…

— Eu vim trazer seu casaco!
          
Entreguei-o cegamente.

— Obrigada por me emprestar. Até mais. — Continuei sem encará-lo e me virei, mas voltei a olhar para ele quando ele me puxou de volta pela mão.

— Espera. Queria falar com você por um minuto.

— É que eu preciso sair. — Sacudi os currículos que estavam na minha outra mão.

— Posso te acompanhar então? Só vai levar um minuto para eu me trocar.
         
Assenti com a cabeça e finalmente olhei bem para ele. O roupão estava um pouco aberto, mostrando parte do seu peito. O cabelo, um pouco bagunçado e ainda molhado, pingava algumas gotas de água. E o rosto dele... Como alguém poderia ser tão lindo e atraente?
         
Senti minhas bochechas corarem e engoli em seco ao observá-lo. Ele sorriu. Aposto que estava amando me ver tímida.

— Eu já volto.
        
Eu estava louca?

Esperei do lado de fora do quarto enquanto ele se trocava, e depois saímos. Ele realmente iria me acompanhar para entregar os currículos?

— Não tem aula essa manhã?
         
Antes que ele pudesse responder, uma voz surgiu atrás de mim. Era o John.
Mas ele não tinha aula agora?!

— Você viu minha mensagem? Veio falar comigo?

— Sim, eu vi. Mas, na verdade, eu…
— Ah, entendi! Veio ver meu irmão, certo?
         
Ele lançou um olhar ao Archie, que estava ao meu lado. Outra vez essa situação?

— Eu só vim devolver o casaco dele.

— E eu me ofereci para acompanhá-la. — Archie interveio. — Queria falar com ela, mas acho que vocês dois precisam conversar primeiro.
         
O que ele estava querendo dizer?

— Acompanha ela, John.
        
Eles se entreolharam e, em seguida, olharam para mim. Assenti, mantendo a expressão séria, e comecei a andar. John me seguiu. Olhei para trás, tentando entender o que estava acontecendo, e vi Archie sussurrar algo como: “Desculpa”. Aquilo apertou meu coração.
         
Andamos mais um pouco até que John começou a falar:

— Agi de forma imatura ontem, e queria me desculpar por isso.
        
Finalmente parei e me virei para ouvir o que ele tinha a dizer.

— Acho que fiquei com ciúmes ao ver você com o Archie e acabei falando coisas por impulso. Não foi minha intenção.

— John, você mal responde minhas mensagens. Quando responde, é frio ou sempre tem uma desculpa para não me ver.

—  É que estou ocupado!

— E eu também tenho ocupações! Só que a gente se conheceu agora pouco, e você não tem feito nenhum esforço.
         
Ele abaixou a cabeça, talvez procurando alguma desculpa, mas antes que pudesse, continuei:

— E, de repente, você me cobra como se fosse sua namorada só porque estava com o Archie.

— Acha mesmo que foi por causa do Archie?

—Não sei. Mas você não estava disponível antes, e, quando avisei que sairia com ele, você apareceu do nada e ficou me esperando.

— E DAÍ SE FOI ISSO? ESTOU ERRADO? VOCÊ SAI COMIGO, MAS CONTINUA SE JOGANDO PARA CIMA DO MEU IRMÃO?
         
Se jogando?! Se jogando?
Podia imaginar o quanto meu rosto estava vermelho; meu sangue fervia.

— Me diz, desde quando você gosta de mim? Foi depois que o Archie perguntou sobre mim? Ele me contou. Porque você nunca tinha falado comigo antes. Depois do seu showzinho ontem, me pergunto: que tipo de competição é essa entre vocês?

— VOCÊ ESTÁ MALUCA?

— Para mim, já deu. Não combinamos, John… Você não me entende e eu também não entendo você. Vamos dar um fim nisso antes que as coisas piorem.

— Está me dispensando?
         
Ele mordeu o lábio inferior da boca e colocou a mão na cintura. Parecia me xingar internamente.
Mas o que eu poderia fazer? Eu também sentia vontade de xingá-lo.

— Eu estou indo.

— Vai! Vai lá atrás do meu irmão. É isso que você quer, não é?
        
Contive-me para não voltar e lhe dar um soco.
        
Respirei fundo e segui em frente. Que raiva! QUE RAIVA!

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