James Campbell
Nunca imaginei que estaria lado a lado com Luke Stewart novamente. O homem que um dia chamei de amigo agora era um reflexo do que tínhamos perdido. Ambos feridos por nossas escolhas e pelo tempo. Ver Luke, preso àquela cadeira de rodas, me fazia sentir a maior parte da culpa. Ele talvez não percebesse, mas carrego o peso do passado como um fardo que nunca consigo aliviar.
Se eu não tivesse sido tão ambicioso... Se não tivesse deixado a inveja me guiar... Talvez ele ainda estivesse de pé, como o homem forte e destemido que um dia admirei. Agora, tudo que podíamos fazer era unir forças para corrigir os erros e proteger o que restava de nossas vidas. Especialmente minha filha.
Continuamos dirigindo em silêncio até o local que Dylan havia marcado. O plano estava armado, com agentes escondidos e jornalistas posicionados. Tudo que precisávamos era fazer com que ele confessasse seus crimes, mas atenção no ar é palpável, como uma corda prestes a se romper.
Luke, claro, não resistiu a provocar:
— Você ainda dirige como uma garotinha.
Olhei para ele, incrédulo.
— Temos que chegar em segurança. — Rebati, tentando manter a calma.
— É a sua filha que está em perigo, James. Talvez afundar o acelerador fosse o mais sensato.
Meu sangue ferveu. Ele estava me provocando, mas parte de mim sabia que era sua maneira de aliviar a tensão.
— Se acha que pode fazer melhor, por que não dirige você?
Ele não hesitou:
— Eu até faria... se pudesse.
Aquelas palavras cortaram fundo. Meu coração pesou instantaneamente, a culpa ressurgiu com força.
— Cara, eu...
— Relaxa. — Ele respondeu com um sorriso, e, por um momento, tive que olhar para ele para confirmar que era real. — Vamos deixar as desavenças no passado e salvar as meninas.
Assenti, um pouco surpreso. Algo dentro de mim se acendeu. Talvez, afinal, ainda houvesse um pouco daquele velho amigo teimoso, mas de coração bom, que eu conheci.
[...]
— Então é isso. Archie e John, certifiquem-se de tirar Hanna e Rebecca do local. Não queremos expô-las a nenhum perigo. Dylan pode querer armar algo, e não sabemos quantos homens ele tem com ele.
— Mas e quanto ao senhor? — Archie pareceu um tanto preocupado, e pela primeira vez em anos, ver aquele garoto se importar comigo aqueceu meu coração.
— Não se preocupem comigo. Assim como vocês, terei homens me escoltando. Estou protegido. Apenas garantam suas seguranças também.
— Mas e eu? — A voz de Luke Stewart ressurgiu em nosso meio. Porém, era óbvio.
— Você permanecerá no carro, esperando todos voltarem.
— Ora essa! Está insinuando que não sirvo de nada?
— Pai, escute o Sr. Campbell. É perigoso...
— Escutem vocês a mim. Já disse que vou. E eu vou.
Eu não poderia impedi-lo. O conhecia bem demais para ir contra suas palavras.
_________ _________
O encontro com Dylan era inevitável. Entramos no local, com cada passo ressoando como um tambor dentro de mim. Lá estavam eles, Thomson e Jenni — sua irmã — amante de Dylan. Rostos que carregavam o peso dos crimes que haviam cometido.
O olhar de Dylan quando nos viu era impagável.
— Está surpreso? — Perguntei, quebrando o silêncio.
Ele sorriu, aquele sorriso cínico que era sua marca registrada.
— Oras... Então é você? O pai da minha querida Hanna? Que prazer finalmente conhecê-lo.
Fechei o punho, mas antes que eu pudesse responder, Luke avançou.
— Seu canalha! Achou mesmo que iria longe com esse seu plano? Já sabemos de todos os seus podres!
Dylan apenas riu.
— Luke, Luke, Luke. Você acha que me importo com sua empresa meia-boca? Eu tenho meu próprio império. Mas você roubou algo muito valioso de mim: minha esposa.
Luke tremia de raiva, e eu sabia que, se não interviesse, ele poderia fazer algo imprudente. Coloquei minha mão em seu ombro, tentando transmitir calma.
— Estamos aqui pelo que importa, Dylan. — Falei. — Confesse. Está envolvido no atentado contra Luke Stewart e no tráfico de pessoas?
Ele riu novamente, mas antes que pudesse responder, tudo desmoronou.
— Thomson, livre-se deles. — Ordenou.
Foi quando tudo aconteceu rápido demais. Thomson sacou uma arma, mas, para nossa surpresa, apontou para Dylan e disparou.
— Se quer cair, que caia sozinho. — Thomson disse, enquanto Dylan Clifford caía inconsciente no chão.
Então, ele voltou para nós, e vi a mira da arma fixada em Luke. Meu corpo reagiu antes que minha mente pudesse pensar.
— Não! — Gritei, me jogando na frente do meu amigo.
O som do disparo foi seco e ensurdecedor. Uma dor lancinante atravessou meu corpo, como fogo queimando de dentro para fora. Tudo ao meu redor parecia se distorcer.
Ouvi vozes distantes, o som de policiais invadindo o local. Senti as mãos me segurando, e a voz do Luke se fez ouvir, tremida e desesperada.
— James! Acorde! Não feche os olhos!
Minha visão começava a falhar. Cada piscada parecia um esforço monumental, mas tudo que consegui dizer, foi:
— Cuida da Hanna… Cuida da minha Sierra.
Minha mente se encheu de lembranças. Imagens de minha filha, tão pequena, correndo para os meus braços. A risada dela era como música. Senti uma paz estranha, como se, mesmo na dor, minha vida tivesse finalmente encontrado um propósito.
Vi o seu rosto, ou talvez fosse uma miragem, enquanto tudo escurecia.
— PAI!
Sorri, sentindo o amor incondicional que sempre tive por ela. E então, tudo se apagou.
VOCÊ ESTÁ LENDO
TANGERINA
Romance"Tudo começou com um segredo. E, desde então, Sierra Campbell viveu uma mentira." Depois que seu pai foi preso em circunstâncias que ninguém ousava mencionar, Sierra foi forçada a abandonar sua cidade, seu nome e sua vida. Agora, como Hanna Clifford...
