CAPÍTULO 45

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James Campbell

             
Nunca imaginei que estaria lado a lado com Luke Stewart novamente. O homem que um dia chamei de amigo agora era um reflexo do que tínhamos perdido. Ambos feridos por nossas escolhas e pelo tempo. Ver Luke, preso àquela cadeira de rodas, me fazia sentir a maior parte da culpa. Ele talvez não percebesse, mas carrego o peso do passado como um fardo que nunca consigo aliviar.
            
Se eu não tivesse sido tão ambicioso... Se não tivesse deixado a inveja me guiar... Talvez ele ainda estivesse de pé, como o homem forte e destemido que um dia admirei. Agora, tudo que podíamos fazer era unir forças para corrigir os erros e proteger o que restava de nossas vidas. Especialmente minha filha.
            
Continuamos dirigindo em silêncio até o local que Dylan havia marcado. O plano estava armado, com agentes escondidos e jornalistas posicionados. Tudo que precisávamos era fazer com que ele confessasse seus crimes, mas atenção no ar é palpável, como uma corda prestes a se romper.
          
Luke, claro, não resistiu a provocar:

— Você ainda dirige como uma garotinha.
          
Olhei para ele, incrédulo.

— Temos que chegar em segurança. — Rebati, tentando manter a calma.

— É a sua filha que está em perigo, James. Talvez afundar o acelerador fosse o mais sensato.
          
Meu sangue ferveu. Ele estava me provocando, mas parte de mim sabia que era sua maneira de aliviar a tensão.

— Se acha que pode fazer melhor, por que não dirige você?
          
Ele não hesitou:

— Eu até faria... se pudesse.
          
Aquelas palavras cortaram fundo. Meu coração pesou instantaneamente, a culpa ressurgiu com força.

— Cara, eu...

— Relaxa. — Ele respondeu com um sorriso, e, por um momento, tive que olhar para ele para confirmar que era real. — Vamos deixar as desavenças no passado e salvar as meninas.
          
Assenti, um pouco surpreso. Algo dentro de mim se acendeu. Talvez, afinal, ainda houvesse um pouco daquele velho amigo teimoso, mas de coração bom, que eu conheci.

[...]
— Então é isso. Archie e John, certifiquem-se de tirar Hanna e Rebecca do local. Não queremos expô-las a nenhum perigo. Dylan pode querer armar algo, e não sabemos quantos homens ele tem com ele.

— Mas e quanto ao senhor? — Archie pareceu um tanto preocupado, e pela primeira vez em anos, ver aquele garoto se importar comigo aqueceu meu coração.

— Não se preocupem comigo. Assim como vocês, terei homens me escoltando. Estou protegido. Apenas garantam suas seguranças também.

— Mas e eu? — A voz de Luke Stewart ressurgiu em nosso meio. Porém, era óbvio.

— Você permanecerá no carro, esperando todos voltarem.

— Ora essa! Está insinuando que não sirvo de nada?

— Pai, escute o Sr. Campbell. É perigoso...

— Escutem vocês a mim. Já disse que vou. E eu vou.
          
Eu não poderia impedi-lo. O conhecia bem demais para ir contra suas palavras.

_________ _________

         
O encontro com Dylan era inevitável. Entramos no local, com cada passo ressoando como um tambor dentro de mim. Lá estavam eles, Thomson e Jenni — sua irmã — amante de Dylan. Rostos que carregavam o peso dos crimes que haviam cometido.
          
O olhar de Dylan quando nos viu era impagável.

— Está surpreso? — Perguntei, quebrando o silêncio.
          
Ele sorriu, aquele sorriso cínico que era sua marca registrada.

— Oras... Então é você? O pai da minha querida Hanna? Que prazer finalmente conhecê-lo.
           
Fechei o punho, mas antes que eu pudesse responder, Luke avançou.

— Seu canalha! Achou mesmo que iria longe com esse seu plano? Já sabemos de todos os seus podres!
          
Dylan apenas riu.

— Luke, Luke, Luke. Você acha que me importo com sua empresa meia-boca? Eu tenho meu próprio império. Mas você roubou algo muito valioso de mim: minha esposa.
         
Luke tremia de raiva, e eu sabia que, se não interviesse, ele poderia fazer algo imprudente. Coloquei minha mão em seu ombro, tentando transmitir calma.

— Estamos aqui pelo que importa, Dylan. — Falei. — Confesse. Está envolvido no atentado contra Luke Stewart e no tráfico de pessoas?
          
Ele riu novamente, mas antes que pudesse responder, tudo desmoronou.

— Thomson, livre-se deles. — Ordenou.
          
Foi quando tudo aconteceu rápido demais. Thomson sacou uma arma, mas, para nossa surpresa, apontou para Dylan e disparou.

— Se quer cair, que caia sozinho. — Thomson disse, enquanto Dylan Clifford caía inconsciente no chão.
          
Então, ele voltou para nós, e vi a mira da arma fixada em Luke. Meu corpo reagiu antes que minha mente pudesse pensar.

— Não! — Gritei, me jogando na frente do meu amigo.
           
O som do disparo foi seco e ensurdecedor. Uma dor lancinante atravessou meu corpo, como fogo queimando de dentro para fora. Tudo ao meu redor parecia se distorcer.
           
Ouvi vozes distantes, o som de policiais invadindo o local. Senti as mãos me segurando, e a voz do Luke se fez ouvir, tremida e desesperada.

— James! Acorde! Não feche os olhos!
           
Minha visão começava a falhar. Cada piscada parecia um esforço monumental, mas tudo que consegui dizer, foi:

— Cuida da Hanna… Cuida da minha Sierra.
            
Minha mente se encheu de lembranças. Imagens de minha filha, tão pequena, correndo para os meus braços. A risada dela era como música. Senti uma paz estranha, como se, mesmo na dor, minha vida tivesse finalmente encontrado um propósito.
            
Vi o seu rosto, ou talvez fosse uma miragem, enquanto tudo escurecia.

— PAI!
            
Sorri, sentindo o amor incondicional que sempre tive por ela. E então, tudo se apagou.

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