CAPÍTULO 43

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Archie


John e eu retornamos à sala. Meu pai permanecia imóvel, com o olhar perdido em pensamentos, tão pesado quanto o meu.

- Então a Hanna é mesmo aquela garotinha. - Sua voz soou quase hesitante.

- Sierra. - Minha correção veio fria, o suficiente para fazê-lo me encarar. Não desviei o olhar.

- Então você já sabia? Todos sabiam? - Ele direcionou a pergunta a John, sua expressão oscilando entre confusão e raiva.

- Não. Apenas eu. Descobri pouco antes de você me apresentá-la como minha noiva.

- Então você estava tramando contra sua própria família? Como pôde não nos alertar sobre isso? Essa garota está acima de nós por acaso?

- Não seja hipócrita! - Minha voz soou firme enquanto o enfrentava. - Você sabe muito bem que há muito mais por trás disso. - Minha voz se ergueu involuntariamente, carregada de frustração. - Você não foi capaz nem de reconhecer o rosto do homem que quase destruiu nossas vidas, e agora vem me cobrar algo? Jogou a culpa toda em um "amigo" e o odiou por anos. - Meu peito ardia, mas recusei-me a demonstrar fraqueza. - E sim, eu amo minha família e quero protegê-la. Mas amo ainda mais a Hanna. Quero protegê-la acima de tudo. Hanna Clifford, Sierra Campbell... Ela é a mulher da minha vida. E se algo acontecer com ela, a culpa será exclusivamente sua.

A força em minhas palavras o atingiu como um golpe. Por um instante, vi algo raro em seus olhos: vulnerabilidade.

- Certo. - Sua resposta me pegou desprevenido, assim como a suavidade de sua postura. - Devo profundas desculpas a essa garota e a toda a família dela. Eu... Eu não sabia, filho. Me desculpe.

Enxuguei discretamente uma lágrima teimosa, trancando o maxilar para não desmoronar ali.

- Naquela noite... - Ele continuou a falar. - Eu havia voltado à fábrica para pegar alguns documentos e deixar tudo certo para que fôssemos viajar tranquilos no outro dia. - Sua pausa parecia carregada de lembranças. - Já era tarde. Todos os funcionários já deveriam ter ido embora, porém escutei um barulho suspeito vindo de um cômodo ao lado da minha sala. E ao invés de chamar por algum segurança, apenas segui o barulho e perguntei se havia alguém ali. Quando adentrei as portas, algo me atingiu com força. Não pude ver o rosto da pessoa, senti apenas o ardor da faca que me perfurava. Fui esfaqueado mais algumas vezes, e eu gemia e delirava. De relance, antes de ficar totalmente inconsciente, vi o rosto familiar que apareceu na minha frente, foi o rosto do James Campbell. Ele segurava a faca em sua mão, sujo de sangue e parecia atônito - agora eu sei o que era aquela expressão. Ele tinha sido arrastado para aquela armadilha e caiu tão bem quanto eu.

- Mas por que Dylan Clifford queria tanto nos prejudicar? - John perguntou, sua mão pousou em meu ombro com firmeza.

- Porque você é filho da ex-esposa dele. E também é o meu filho de sangue.

Levantei o rosto ao ouvir as palavras do meu pai, meu olhar indo direto para John. Ele estava parado diante de mim, imóvel, como se sua mente tivesse congelado.

- Foi pouco antes de eu me casar com a mãe do Archie. - Meu pai começou, a voz carregada de arrependimento. - Me envolvi com Kathleen Clifford, e ela engravidou. Eu deveria me casar por conveniência, mas era loucamente apaixonado por ela. Ela também havia acabado de se casar por conveniência com Dylan. Quando descobriu a gravidez, ele pediu que ela se livrasse da criança. Seu ego não permitiria que aquilo viesse à tona.

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